logo_festival_peqSentado em uma mesa de bar, João Carlos ouve um amigo dizer que Lula “é mais um que quando assumiu só fez cagada”. Com os ânimos exaltados, João tenta defender o ex-presidente, ressaltando os pontos positivos de seu governo, para alguém que simplesmente não quer escutar e prefere continuar repetindo coisas que leu em algum lugar ou, quem sabe, viu alguém compartilhar nas redes sociais, mesmo sem ter se dado ao trabalho de checar os fatos.

A cena, que parece tão familiar, abre o curta Quando Parei de Me Preocupar com Canalhas, um dos destaques da próxima edição do Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, que abre para o público na quinta, 20. O filme, dirigido por Tiago Vieira, acaba de sair de Gramado com os prêmios de melhor roteiro e melhor ator para Matheus Nachtergaele.

“O rapaz vai ficando enojado com aquelas discussões políticas de baixo calão. Quando ele vê, está gritando, jogando o copo no chão, xingando os amigos”, define Matheus, ao falar de seu personagem, em entrevista exclusiva ao TelaTela.

Reprodução da tira de Caco Galhardo que originou o filme, publicado na revista Piauí (abril/2008)
Reprodução da tira de Caco Galhardo que originou o filme, publicado na revista Piauí (abril/2008)

Apesar de soar tão propício ao Brasil de 2015, o projeto é antigo. Começou em 2008, quando Tiago, à procura de um roteiro para seu primeiro curta-metragem, leu uma história em quadrinhos de Caco Galhardo, publicada na edição de abril da revista Piauí. Era a história de alguém que, cansado de ouvir os mesmos discursos de sempre em encontros com colegas, nas ruas e nos táxis, decide se alienar politicamente.

Sete anos depois, impressiona o caráter visionário da tira de Galhardo, já que a situação foi se agravando, com a explosão das revoltas seletivas online e dos protestos pelo impeachment. “No tempo da ditadura é que era bom”, é uma das falas de um taxista, presente na HQ, no curta, e também em faixas de algumas das últimas manifestações.

“Quando a gente fez o filme me pareceu interessante falar desse desencanto com a política por causa de uma perda de informação. As notícias não são mais sinceras, elas são emocionadas. E também não são isentas, são todas tendenciosas. É muito difícil uma pessoa entender o que está acontecendo na política hoje em dia”, explica o ator, que aceitou fazer o curta por um valor simbólico, acreditando na importância do que seria dito na tela.

Outro trecho da tira de Caco Galhardo. (Reprodução da Revista Piauí, abril de 2008)
Outro trecho da tira de Caco Galhardo. (Reprodução da Revista Piauí, abril de 2008)

Para Matheus, o cenário político é alarmante: “Nesse momento eu me sinto assustado com a pressão tão grande em se retirar o poder da Dilma. É preocupante um movimento tão inconstitucional assim, de tirar o poder de uma pessoa que foi eleita pelo voto, que é uma coisa que a gente garantiu há pouco tempo. É muito esquisito esse movimento todo em direção a um golpe. Isso no momento impede a Dilma de trabalhar. Deve ser difícil governar com essa ameaça constante de perder o cargo.”

É preocupante um movimento tão inconstitucional assim, de tirar o poder de uma pessoa que foi eleita pelo voto, que é uma coisa que a gente garantiu há pouco tempo
— Matheus Nachtergale
Ao contrário de seu personagem no curta, o ator defende uma postura oposta à alienação pela qual João Carlos opta. “Eu acho bom que estejamos todos atentos às corrupções, e concordo que o PT era o último partido a poder meter as mãos em corrupção. Eles não podiam ter feito isso. Isso magoa as pessoas”.

“Se você lembrar da primeira eleição do Lula, o Brasil voltou a ser um País alegre. Depois as coisas foram entristecendo. Mas vamos lembrar que as corrupções nunca foram tão reveladas. Talvez isso seja uma virtude desse governo”, afirma.

Realizado de forma independente, Quando Parei de Me Preocupar com Canalhas não procurou editais nem leis de incentivo. A sugestão de tentar viabilizar o filme de forma alternativa veio do cartunista quando cedeu os direitos para o cineasta. A escolha era uma questão de coerência, já que no material original há uma piada com artistas que dependem exclusivamente do governo para realizar seus projetos.

A saída foi então fazer o orçamento mais enxuto possível e partir para uma campanha de financiamento coletivo, baseada em muita divulgação no boca a boca, emails e Facebook, entre agosto e setembro de 2013.

Olhando para trás, Tiago Vieira considera que talvez não tenha sido o melhor momento. Com os protestos de junho daquele ano ainda frescos na cabeça, “ninguém queria ouvir falar em filme”. “Além disso, algumas pessoas muito reacionárias começaram a tomar aquilo como uma bandeira antiPT, falando ‘ah, esses canalhas mesmo’. E não era nada daquilo. Foi até me dando uma depressão”, relembra.

No meio do processo, preocupado em não conseguir levantar o valor que precisava, começou a recorrer a atores e profissionais que não conhecia pessoalmente, mas admirava como fã, em busca de divulgação. Com a cara e a coragem, procurou o perfil de Matheus Nachtergaele no Facebook e enviou o projeto. Sua resposta positiva foi uma injeção de ânimo.

“Isso deu uma transformada. Não podia correr o risco de o cara chegar aqui e ele sentir que estava fazendo o filme com um bando de moleques. Aumentou a responsabalidade”, afirma Tiago. Por outro lado, a chance de trabalhar com um dos nomes mais respeitados do cinema nacional facilitou a montagem de uma equipe que chegou a cem pessoas, a grande maioria voluntária. Paulo Miklos, Otto e Nilton Bicudo reforçaram o elenco, também de forma colaborativa.

É muito esquisito esse movimento todo em direção a um golpe. Isso no momento impede a Dilma de trabalhar.
— Matheus Nachtergaele

Matheus garante só ter levado boas lembranças da filmagem. “Eu gosto, quando percebo talento verdadeiro em alguém, de arriscar outras linguagens, trabalhar com cineastas estreantes”, explica Matheus, que também esteve no longa de estreia do pernambucano Cláudio Assis (Amarelo Manga), de quem tornou-se parceiro habitual, e no segundo de José Eduardo Belmonte, A Concepção. “Você percebe quanto tem um artista perto de você”.

Desde então, o filme foi selecionado para uma mostra paralela em Cannes, e começa agora sua trajetória em território nacional. Ao mesmo tempo, a discussão que abre e percorre vários momentos do curta torna-se cada vez mais corriqueira, à medida em que o sentimento de intolerância geral têm demonstrações de fortalecimento.

Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas
Exibições no Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo (Panorama Paulista 1)
Quinta, 20/8 – 21h no MIS
Sábado, 22/8 – 17h no Espaço Itaú Augusta
Domingo, 23/8 – 15h no Cine Olido

Comentários

comentários