40mostra_peqNo mar de opções que um evento como a Mostra de São Paulo oferece, é normal, mas não menos lamentável, que pérolas passem despercebidas, sujeitas à sorte de algum semi desavisado que calhe de estar na sala certa, na sessão certa.

Pois quem se deparar com o documentário nacional Olhando Pras Estrelas, de Alexandre Peralta, certamente saíra do cinema tocado por sua emocionante história, contada de forma sensível e delicada, como o universo do balé que retrata.

O recorte específico no qual Peralta foca suas lentes, porém, não é exatamente aquele com o qual estamos acostumados. O cenário principal é única escola de balé para pessoas com deficiência visual do mundo, a Associação de Ballet e Artes para Cegos Fernanda Bianchini. Lá, além da professora que fundou e dá nome ao local, conhecemos as duas personagens principais, Geyza e a adolescente Thalia.

’Olhando Pras Estrelas’ na 40ª Mostra

Sábado (22/10) às 16h20 no Espaço Itaú – Augusta 1 | Quarta (26/10) às 15h no Espaço Itaú Frei Caneca 6 | Segunda (31/10) às 19h no Cinemark Cidade São Paulo

Sem cair em maniqueísmos fáceis, retratando-as não como vítimas nem tampouco como supermulheres heroicas, o documentário abre espaço para Geyza e Thalia simplesmente mostrarem como são, não apenas nos ensaios, mas também no dia-a-dia. Escapa-se assim da armadilha de tocar insistentemente na tecla da superação, algo que é óbvio e não precisa ser esfregado na cara do espectador a todo momento, como é comum em narrativas com temáticas parecidas.

Geyza, por exemplo, está prestes a se casar e tem receio que as circunstâncias pós-matrimoniais façam com que ela tenha menos tempo de se dedicar à dança. Uma preocupação comum de mulheres nas mais diversas situações sociais, mas poucas vezes verbalizada de maneira tão clara e, por isso mesmo, extremamente humana.

Thalia, a mais nova, está sempre de fone de ouvidos, ouvindo música, e ajuda um colega num podcast recheado dos sucessos pop do momento. Frequenta uma escola onde a maioria dos alunos enxerga normalmente, e às vezes se sente excluída, mas nem por isso deixa de exibir o sorriso no rosto. Ela quer ser independente e está sendo ajudada a conseguir isto pela mãe, uma senhora bastante humilde e dedicada à filha.

Além do trio feminino, há outro personagem marcante em Olhando Pras Estrelas. Trata-se de César Albuquerque, professor de balé que tem nas meninas a chance de reviver a própria carreira, interrompida por um problema de saúde anos antes. Em dado momento, ele conta como é difícil convencer seus colegas a ver as apresentações do grupo. Muitos têm medo que não aguentem ver, prevendo um possível constrangimento diante do que talvez acreditem ser um grupo de coitadinhas.

O filme mostra que tal preconceito não tem razão de ser. Em cima do palco as meninas dão show. As dificuldades mais profundas estão em casa, em encontrar seu lugar no mundo, ao mesmo tempo em que tentam manter a chama do sonho acesa, como mostra o ato final do doc, quando uma das protagonistas admite suas inseguranças diante do nascimento do primeiro filho. E aí, Geyza e Thalia são muito parecidas com qualquer um de nós.

Nossa Opinião

8.0
Sem cair em maniqueísmos fáceis, retratando-as não como vítimas nem tampouco como supermulheres heroicas, o documentário abre espaço para suas personagens simplesmente mostrarem como são, não apenas nos ensaios, mas também no dia-a-dia.
Nota 8.0

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