selomostra39festival-rio-seloLogo na sequência inicial, um diálogo de oito minutos sem corte, Paulina (que ganhou prêmio na Semana da Crítica em Cannes e tem o dedo de Walter Salles na produção), já diz a que veio.

Estão em cena um juiz (Oscar Martínez) e sua filha (Dolores Fonzi, em atuação poderosa). Ele, que sempre se considerou orgulhosamente progressista, resiste à mudança de vida da personagem título, prestes a abandonar a carreira segura como advogada para trabalhar como professora em uma comunidade carente, na fronteira entre a Argentina e o Paraguai.

É apenas a primeira vez em que o confronto entre a ideologia humanitária e a prática, quando a discussão sai do campo teórico e vai para dentro de casa, será colocado à prova nos próximos 100 minutos.

Isso porque, por uma série de eventos infelizes, Paulina mal chega no vilarejo e é violentada por um grupo de jovens locais. Quando tenta fazer um boletim de ocorrência, é recebida com perguntas carregadas de acusações: os policiais querem saber que roupa estava usando, se tinha bebido, qualquer motivo que sirva para também culpabilizá-la pelo ocorrido. Os temores do pai parecem ter se profetizado, e da pior forma possível.

Corajoso, o filme decide encarar as provocações que nos acostumamos a ouvir diariamente, na linha do “Tá com pena? Leva para casa” ou “Você é a favor de direitos humanos até uma tragédia acontecer com você, aí quero ver”.

Mesmo diante do trauma, a protagonista se mantém firme em suas convicções. Antes da justiça a qualquer preço, quer entender o outro lado, consciente de que há raízes mais profundas naquele ato de violência. A postura ganha contornos ainda mais dramáticos com a discussão sobre aborto, que domina a segunda metade da trama.

Roteirista habitual de Pablo Trapero, especialmente de seus filmes que vão mais fundo na questão social (Leonera, Abutres e Elefante Branco), Santiago Mitre propõe, em seu segundo longa-metragem, um ponto de vista que vai além do senso comum, mexendo em vespeiros como o preconceito de classe e a violência contra a mulher.

É provável que muita gente se incomode com as atitudes de Paulina, ache-as descabidas. É essa mesma a provocação de uma obra que é extremamente bem-sucedida na tarefa de não deixar ninguém indiferente.

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Nossa Opinião

9.0
Corajoso, o filme decide encarar as provocações que nos acostumamos a ouvir diariamente, na linha do “Tá com pena? Leva para casa”
Nota 9.0