Cinema

Dicas da semana: ‘Toni Erdmann’ e ‘A Cidade Onde Envelheço’

TONI ERDMANN

Direção: Maren Ade
Com: Peter Simonischek, Sandra Hüller, Michael Wittenborn

Aclamado em Cannes, onde foi eleito o melhor filme segundo a crítica internacional, e favorito ao Oscar de filme estrangeiro, Toni Erdmann chega aos cinemas brasileiros justamente na semana em que foi anunciada a versão norte-americana do longa, a ser estrelada por Jack Nicholson e Kristen Wiig.

A própria cineasta Maren Ade resistiu à ideia, antes de ceder os direitos, por ter dúvidas quanto à capacidade de Hollywood entender a sensibilidade peculiar da trama. Drama disfarçado de comédia, o filme fala sobre a relação entre um pai, Winfried (Peter Simonischek), e uma filha, Ines (Sandra Huller), há tempos estremecida. Ela é uma proeminente executiva na Romênia, ele um professor de música praticamente aposentado, cuja principal alegria reside em fazer graça e pregar peças inocentes em quem lhe cruze o caminho. Incomodado com a distância entre os dois, o pai viaja de surpresa para Bucareste, onde é recebido sem entusiasmo por Ines, sempre fria e ocupadíssima com compromissos profissionais.

Ao personagem que ela parece ter assumido, pelo menos aos olhos de Winfried, ele resolve responder com um alter-ego que constrói para si mesmo. É aí que nasce a figura de Toni Erdmann, sujeito extravagante, dentuço, cabeludo e inconveniente. O choque é tamanho que Ines, mesmo constrangida, fica sem reação e acaba permitindo esta invasão emocional do pai. É do absurdo, portanto, que surge a possibilidade de retomada do relacionamento entre os dois.

Muito mais do que sobre família, o longa de Ade é original por se passar permanentemente numa área cinzenta, onde a redenção absoluta não cabe, mas sim o comentário social sobre o lugar das conexões humanas no mundo de hoje. Boa sorte tentando adaptar isso, Hollywood!

A CIDADE ONDE ENVELHEÇO

Direção: Marília Rocha
Com: Elizabete Francisca, Francisca Manuel, Paulo Nazareth

Eleito melhor filme no Festival de Brasília de 2016, a estreia em ficção da diretora Marília Rocha traz muito de sua experiência em documentários. A mistura destas duas linguagens resulta em um retrato delicado e genuíno do encontro entre duas garotas portuguesas que passam a dividir a mesma casa em Belo Horizonte.

Elizabete Francisca faz a amiga recém-chegada, cheia de vida e disposição para desbravar um mundo novo, ainda que não traga consigo um plano bem definido do que fazer no Brasil. Já Francisca Manuel é mais reservada, e ainda que abra as portas de sua residência para a amiga, tem medo do impacto de outra pessoa morando no mesmo teto, fiel ao seu estilo de manter uma distância segura de envolvimentos emocionais, simbolizado também pela relação com o “namorado” (termo que se recusa a usar).

Se, num primeiro momento, as duas personalidades parecem opostas, A Cidade Onde Envelheço vai sutilmente brincando com esta noção. As duas poderiam muito bem ser a mesma pessoa, em fases diferentes, como o desfecho parece querer sugerir. Assim, o filme identifica uma parcela da geração que carrega tantas incertezas quanto afetos, e segue caminhando mundo afora, ainda que não saiba muito bem o que fazer com tanto sentimento.

O longa de Marília inaugura a Sessão Vitrine Petrobrás, que ao longo de 2017 dará espaço cativo a filmes autorais nacionais em 28 cinemas de mais de 20 cidades do Brasil. Os ingressos para estas sessões custam R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia). Para saber mais, acesse o site do projeto.

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