“A fronteira entre erotismo e pornografia só pode ser definida em termos estéticos”, afirmou certa feita o escritor Mario Vargas Llosa sobre a distinção entre a obra erótica e a pornográfica. Sua afirmação parte da crença de que qualquer literatura que se afirme especializada no erotismo “e que não integre o erótico em um contexto vital, é uma literatura muito pobre”, porque “o melhor erotismo nunca está dissociado de outras manifestações que, além do mais, o enriquecem”.

O melhor erotismo é aquele que aparece em obras que não são apenas eróticas, mas aquelas em que o erótico é um ingrediente dentro de um mundo diverso e complexo
— Mario Vargas Llosa
Se aplicadas ao cinema, as afirmações do autor de Pantaleão e as Visitadoras podem servir como forma de diferenciar, em obras que girem em torno de relações humanas, aquelas que efetivamente conseguem atingir um entendimento mais amplo da sexualidade – e, assim, dos afetos – das que se restringem a ilustrar breves encontros sexuais como apelo às bilheterias.

Best-seller transformado em blockbuster, a série Cinquenta Tons de Cinza ultrapassou a marca de 570 milhões de dólares em bilheteria mundiais. A segunda parte, Cinquenta Tons Mais Escuros, estreou no Brasil em 1.395 salas, circuito 30% maior que o do original, e liderou o ranking dos filmes mais vistos nos cinemas do País em suas duas primeiras semanas em cartaz, antes de cair para a segunda posição, durante o feriado de Carnaval.

Chama a atenção, porém, que, apesar de se vender como um título sobre o erotismo e as relações de BDSM entre Anastasia (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan), trate-se de produção tão pobre nesse sentido. As cenas de sexo, mecânicas e frias, parecem de alguma forma dissociadas do resto da trama, quase que se assumindo como desculpa para atrair a atenção de um público pudico que se interessa pelo sexo na mesma medida em que teme explorá-lo.

Sem elas, o filme operaria da mesma forma, já que no fundo a intenção é falar com o público quase infantilizado, que no fundo quer ver um “conto de fadas” com capinha mais adulta e se ouriça com a mera visão de brinquedos eróticos facilmente encontrados em qualquer casa do ramo.

O sex appeal dos mocinhos é equiparável ao de um legume e, juntos, a salada desanda. A relação de dominância é vista de forma até moralista, e o que deveria ser submissão se transforma em tentativa de salvação – do outro para padrões, digamos, mais normativos.

Enquanto cinema erótico, Cinquenta Tons de Cinza é baunilha. Para contrapor sua palidez, selecionamos dez excelentes filmes que expõem a riqueza de detalhes, sensações e poéticas compreendida dentro da sexualidade humana. Muitos deles, por sinal, inspirados em livros de igual ou maior riqueza.

 

9½ Semanas de Amor

A intensidade das atuações de Kim Bassinger e Mickey Rourke transformaram este longa de Adrian Lyne,  baseado no livro 9½ Semanas de Amor, de Elizabeth McNeill, num clássico do gênero. Eles interpretam uma relação entre uma jovem e um homem rico e poderoso pautada por jogos sexuais picantes em cenas de profunda beleza passional. Uma versão bela e mais cinematográfica do relacionamento de Anastasia e Christian Grey.

O Império dos Sentidos

Classificado muitas vezes como um “drama erótico”, o longa de Nagisa Oshima, de 1976, ficou famoso num primeiro momento por trazer cenas explícitas de orgasmos e orgias, mas logo demonstrou a força quase poética do sexo como potência romântica. A história retrata a evolução do caso de amor de uma ex-prostituta com seu novo patrão de forma franca, explorando com os protagonistas os diferentes sentidos envolvidos na busca por prazer.

De Olhos Bem Fechados

O último longa dirigido por Stanley Kubrick,  inspirado no belo Breve Romance de Sonho, do austríaco Arthur Schnitzler, é uma envolvente narrativa sobre fantasias e o despertar de desejos interditos. Estrelado pelo então casal Nicole Kidman e Tom Cruise, conta a história de um médico que se torna obcecado pelo desejo da mulher por um desconhecido e que, assim, embarca num misto de alucinação e fascínio ao descobrir um secreto grupo que desperta sua sexualidade apresentando-lhe diversas práticas sexuais.

Ata-me!

Pedro Almodóvar escalou Antonio Banderas para viver um jovem que, após ter alta de um hospital psiquiátrico, vai em busca de uma estrela de filmes pornô com quem já se envolveu e por quem tornou-se obcecado. A menção do título diz respeito a seu plano de mantê-la amarrada numa cama até que ela passe a amá-lo. Mais um exemplo da inventividade e do humor muitas vezes mais pesado do diretor espanhol.

O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante

Erotismo e humor se misturam também neste longa de Peter Greenaway, não indicado aos espectadores mais sensíveis por suas cenas de violência e escatologia. A fotografia excepcional é equiparada apenas pelos figurinos de Jean-Paul Gaultier. No restaurante onde boa parte do longa se passa, a mulher de um mafioso e seu amante se entregam à luxúria enquanto todos dedicam-se à gula – o que culmina num final em que ambas as coisas se misturam, mas não da maneira como seria de se esperar.

Um Copo de Cólera

A adaptação da obra Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar, feita por Aluizio Abranches traz cenas tórridas entre Júlia Lemmertz e Alexandre Borges. Após uma vida de ativismo, ele se refugia numa chácara, onde vive um caso com a jornalista politizada vivida por sua então mulher. Marcado por cenas tórridas, o encontro entre os dois é interrompido por uma colônia de saúvas que fazem um rombo em uma cerca viva, trazendo à tona lados sombrios dos personagens.

As Idades de Lulu

Após anos de negligência, Lulu se envolve aos 15 anos com um amigo mais velho da família, encontro que marcará para sempre sua vida. Pelos anos que se seguem, ela segue nutrindo desejo por esse homem até que ele retorna, retomando um jogo erótico-afetivo iniciado ainda na infância. Com Pablo, Lulu habita um mundo à parte, idealizado e de desejos proibidos, que se vê ameaçado à medida em que ela envelhece. O papel rendeu um prêmio Goya à atriz María Barranco, e o filme é baseado no romance Las Edades de Lulu, de Almudena Grandes.

Os Sonhadores

O clima fervilhante da França em 1968 é o pano de fundo da história de um intercambista norte-americano que conhece um casal de gêmeos em uma de suas idas à Cinemateca. Ao passar uma temporada na casa da família, envolve-se no atípico relacionamento dos irmãos e, sempre tendo como pano de fundo o cinema, se vê envolvido numa intrincada rede de jogos eróticos e psicológicos. O filme, dirigido por Bernardo Bertolucci, é baseado no romance Os Inocentes Sagrados, de Gilbert Adair.

Desejo e Perigo

O longa de Ang Lee é baseado no romance Se, jie, de Eileen Chang. Levemente inspirado em fatos reais passados durante a ocupação japonesa de Xangai, apresenta estudante universitários que conspiram para assassinar um recrutador do governo. Uma bela jovem é enviada para uma missão, e assim tem início um jogo de poder e sedução. A história de amor e morte, com cenas explícitas, rendeu a segunda vitória do diretor no Festival de Veneza.

A Bela da Tarde


A lindíssima Catherine Deneuve dá vida à personagem da novela Belle de Jour, de Joseph Kessel. Em um belo filme de Luis Buñuel, ela vive uma jovem de classe média que não se satisfaz com a vida sexual quase nula que mantém com o marido. A coisa começa a mudar quando ela passa a trabalhar à tarde durante a semana trabalhando como prostituta enquanto o marido está no escritório.

*O Último Tango em Paris não foi incluído nesta lista por conta da recente declaração feita pelo diretor Bernardo Bertolucci de que algumas cenas foram feitas sem o consentimento da atriz Maria Schneider.

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