É verdade que não é a primeira vez que a Netflix levanta o tema do racismo. O documentário A 13ª Emenda, dirigido por Ava DuVernay e disponível desde outubro de 2016, mostra as ligações históricas entre escravidão e o sistema prisional nos Estados Unidos e foi até indicado ao Oscar deste ano.

Mas Dear White People, que entrou no ar no dia 29 de abril, é uma série de ficção que mantém o dedo na ferida das tensões raciais e faz isso como uma das melhores comédias lançadas recentemente. A origem é o longa-metragem homônimo de 2014, escrito e dirigido por Justin Siemens, também criador da adaptação.

Seu humor ácido, que alterna entre o dedo em riste contra uma sociedade sistematicamente opressora e gags puramente visuais, é o trunfo para colocar lenha numa fogueira que só tem visto as labaredas crescerem diante de guinadas à direita em diversos pontos do mundo contemporâneo.

O cenário é a fictícia faculdade Winchester, uma das mais concorridas do país. Neste microcosmo da sociedade norte-americana, há os arquétipos que a cultura pop se acostumou a nos vender: os atletas descerebrados, os nerds, a garotada popular. Porém, estes são propositadamente relegados a coadjuvantes e quase invisíveis, numa inversão de jogo. A ação é centrada na casa que abriga os estudantes negros, que ao contrário de uma massa heterogênea, apresenta jovens totalmente diferentes entre si, cada um lidando com questões pessoais diversas. Nem a cor da pele é um denominador comum, já que Samantha (Logan Browning), uma das protagonistas, tem um tom mais claro, o que já faz com que a sociedade a trate diferente de, por exemplo, Reggie (Marque Richardson).

Ambos, porém, se aproximam na maneira com a qual acham que as questões referentes ao preconceito deve ser enfrentado: com manifestações e discursos combativos que denunciem comportamentos prejudiciais. Não por acaso, Samantha é locutora de um programa na rádio universitária que bate diariamente na tecla. Já a patricinha Coco (Antoinette Robertson) e Troy (Brandon P Bell), candidato a presidente da união estudantil, defendem uma postura mais conciliatória.

Generalizações passam longe de Dear White People, que espelha em seu espectro ideológico questões remanescentes dos discursos de Martin Luther King e Malcolm X, que, apesar de defender os mesmos ideais, também discordavam na abordagem – mais sobre isto pode ser encontrado no fundamental documentário Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck, também indicado ao Oscar 2017.

A trama dos dez episódios da primeira temporada tem como ponto de partida uma festa na faculdade onde brancos se fantasiam de personalidade negras, a chamada “blackface”. A situação está longe de ser apenas ficcional e no Brasil mesmo a prática é comum, basta pegar exemplos de blocos de carnaval onde fantasias como “nega maluca” ou “negão bem dotado” pipocaram, foram fotografadas e celebradas antes de virarem alvo de debates nas redes sociais.

A série mostra não apenas o desconforto da comunidade negra de Winchester, mas também as tentativas atrapalhadas de justificar o ato por parte dos organizadores. Samantha registra tudo com sua câmera, não à toa empunhada como se fosse uma arma, e pouco importa o fato de que foi ela quem mandou o convite de uma festa que seria cancelada quando os organizadores perceberam que poderia pegar mal: o simples fato da ideia ser concebível já é um problema.

Temas como apropriação cultural e violência policial também aparecem na sequência, esta última num episódio pungente, dirigido por Barry Jenkins (o mesmo de Moonlight: Sob a Luz do Luar), no qual um dos alunos é tratado de forma desproporcionalmente truculenta por um dos guardas do campus, numa cena que deixa personagens e públicos prendendo a respiração.

É justamente porque a figura de um policial representa ameaça para muitos, e não segurança para todos, que Dear White People ainda é fundamental.

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