botaooscarJá há quem compare Cinco Graças, que estreou no último Festival de Cannes e é hoje um dos concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro, com As Virgens Suicidas, o primeiro longa de Sofia Coppola na direção. Mas as semelhanças vão só até a página dois.

Enquanto Sofia apresentou a adolescência de cinco meninas com uma visão melancólica e um tanto quanto cínica – traços que se tornariam marcantes em sua filmografia, como os trabalhos posteriores comprovaram -, a diretora turca Deniz Gamze Ergüven, também estreante, apresenta um registro menos idealizado e mais próximo do realismo sobre um quinteto de irmãs órfãs, criadas com rigidez pela avó e pelo tio num pequeno vilarejo.

Nossa Opinião

8.0
A câmera de Deniz acompanha tudo de perto, numa linguagem que se aproxima do documental e aceita inclusive uma ou outra mudança de foco repentina na imagem. No lugar do rigor estético, a pulsação de algo cheio de vida, como suas protagonistas.
Nota 8.0

Deniz é natural da Turquia, mas foi criada desde pequena na França, país que representa no Oscar. O distanciamento ajudou a criar uma visão crítica sobre a cultura de sua terra natal, principalmente em relação ao tratamento dado às mulheres. Cinco Graças é, portanto, mais uma obra importante para a discussão do empoderamento feminino, assunto que ganha cada vez mais força nas manifestações culturais ao redor do mundo.

Vale lembrar que, a propósito, o longa é o único a ser dirigido por uma mulher que conseguiu uma indicação ao Oscar deste ano, contando todas as categorias dedicadas às obras de ficção.

Ao longo do filme, Sonay (İlayda Akdoğan), Selma (Tuğba Sunguroğlu), Ece (Elit İşcan), Nur (Doga Zeynep Doguslu) e a caçula Lale (Güneş Şensoy) são repreendidas por brincar com garotos na praia e pelo comportamento “despudorado”. Na verdade, não estão fazendo nada além de sorrir e aproveitar alegremente aquele verão, ainda sem saber que seria o último que passariam juntas.

As represálias impostas pelo tio (Ayberk Pekcan), figura que representa o machismo dominante, vão da instalação de grades nas portas e janelas de casa até o arranjo apressado de casamentos para as meninas, o que considera uma tentativa de “endireitá-las” e também de isolá-las uma das outras, diminuindo o ímpeto hormonal. Assim, uma a uma, elas são apresentadas para famílias da região, como mercadorias em promoção.

A câmera de Deniz acompanha tudo de perto, numa linguagem que se aproxima do documental e aceita inclusive uma ou outra mudança de foco repentina na imagem. No lugar do rigor estético, a pulsação de algo cheio de vida, como suas protagonistas.

Embora haja alguns respiros, como a sequência da aventura das irmãs para ir a um jogo de futebol, a atmosfera opressiva vai tomando conta do filme, com consequências cada vez mais trágicas, e desemboca num clímax angustiante, como um grito de libertação que não pode mais ser contido.

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