Nos mais de 45 anos em que Ariani Friedl vive nos Estados Unidos, a diretora da Mostra Brazilian Film Series – Chicago (ou a Mostra VII, pois neste ano completa sete anos) sempre que conta a um norte-americano que é brasileira ouve respostas animadas como: “Não diga “que maravilha!, eu tenho que ir ao Brasil ou eu já fui, eu gosto muito!”

“Há sempre aquela ideia que o americano tem do país, que é um lugar idílico. Talvez a mesma ideia que nós, brasileiros, tínhamos quando viemos para cá, de que a América é um paraíso”, conta a diretora, que chegou a São Paulo nesta semana para a segunda edição brasileira da Mostra Chicago, que ocorre até dia 30 de novembro e exibe na capital paulista um parte dos filmes longas e curtas que foram atração não só nas principais universidades, cinemas cult de Chicago e de outras cidades do estado de Illinois, como Urbana e Indianápolis. Assim como nos EUA, em São Paulo a Mostra VII – São Paulo tem sessões gratuitas; e as exibições ocorrem diariamente no Espaço Itaú Rua Augusta e na Matilha Cultural em vários horários.

A programação este ano destaca as mulheres e o esporte. Isso se traduz na seleção dos 26 filmes (14 longas e 12 curtas) e de nomes como Tizuka Yamazaki, Marina Person, Sandra Kogut, além da comédia Mulheres no Poder) e de Do Pó da Terra) e de Nise – O Coração da Loucura), além do documentário Paratodos, que destaca os atletas paraolímpicos nacionais. Para completar, Marina Person, a cineasta americana Susana Darwin e a reportagem do TelaTela participaram de um debate sobre as mulheres e o cinema.

Ariani Friedl e a cineasta Sandra Kogut na noite do encerramento da edição Chicago da Mostra VII
Ariani Friedl e a cineasta Sandra Kogut na noite do encerramento da edição Chicago da Mostra VII

Apesar das diferenças geográficas e culturais que separam os dois países, o conceito que une as duas edições da Mostra VII é o mesmo: levar o cinema brasileiro a públicos que querem ir além dos estereótipos. “Os americanos, e não só eles, mas os brasileiros fora do Brasil e outras comunidades, precisam ver outras coisas do cinema brasileiro, além daqueles que são vistos uma duas vezes por ano nos EUA, comerciais”, comenta Ariani, que teve a ideia de criar a Mostra quando ainda comandava o departamento de Relações Internacionais da Universidade de Illinois em Chicago. Foi nesta universidade que ela estudou Ciências Políticas e Estudos Latino-Americanos alguns anos depois de chegar na cidade americana, mesmo já sendo formada no Brasil em Música pela Universidade do Rio Grande do Sul.

“Faço parte do conselho de seleção do Festival de Cinema Latino de Chicago. Em geral vêm três ou quatro filmes brasileiros por ano. Ao longo dos anos, conheci diversos cineastas e sempre conversamos sobre a dificuldade de mostrar o cinema brasileiro. Não só o comercial, que ainda vem e é aceito pelo público, mas cinema brasileiro ótimo, com temas muito bons, e que muito raramente é visto, a não ser nos festivais”, conta Ariani, que criou a Mostra e que a dirige com a energia de quem conta com um orçamento enxuto e parceiros e voluntários apaixonados pela causa.

'Nise - O Coração da Loucura', que ganhou o Prêmio do Público, na edição Chicago da Mostra VII
‘Nise – O Coração da Loucura’, que ganhou o Prêmio do Público, na edição Chicago da Mostra VII

Americanos de olho no Brasil – A julgar pela recepção da Mostra, que o TelaTela acompanhou em início de novembro, em plena semana de eleições e protestos em Chicago diante da vitória de Donald Trump, o festival só tem a crescer tanto nos EUA quanto no Brasil. “Na primeira edição, passamos só curtas e um longa. No segundo ano, decidimos introduzir mais longas e convidar outras universidades. Tivemos cinco no segundo ano. E daí pra frente foi assim. É como uma bola de neve que vai rolando”, relembra, orgulhosa, a diretora da Mostra, revelando que nos últimos três festivais, outras universidades americanas pediram para fazer parte do festival. “Além das universidades do estado de Illinois, não só em Chicago, mas também as de Indiana, recebemos pedidos de Wisconsin, Minessotta, de Washington, no Missouri. Os filmes são muito bons para serem discutidos em sala de aula, com os alunos.”

Brasil Real – De fato. Além dos longas selecionados interessarem aos espectador, nacional e internacional, que quer conhecer mais das questões sociais e culturais do Brasil, a linguagem cinematográfica dos longas exibidos revela narrativas mais clássicas como Encantados), Nise – O Coração da Loucura) e Paratodos) quanto ousadas, como Campo de Jogo) (de Erik Rocha), Campo Grande) e Do Pó da Terra).
Para Ariani e para a comissão de seleção da Mostra, a é crucial exibir filmes que mostram o Brasil real. “Um Brasil de hoje e, ao mesmo tempo, contar um pouco da história do Brasil, que muitas pessoas não conhecem. Então trazemos filmes relacionados com a nossa história, a nossa política. Há muitos filmes muito bons sobre a política, que as pessoas aqui não conhecem. Outros filmes relacionados com o meio-ambiente, que realmente é muito importante”, explica Ariani.

Em Urbana-Champaign, interior de Illinois, público infantil assiste a 'Turma da Mônica' e participa de atividades
Em Urbana-Champaign, interior de Illinois, público infantil assiste a ‘Turma da Mônica’ e participa de atividades

Mas nem só de problemáticas se faz o festival. “Queremos também trazer coisas boas, lindas, filmes relacionados com a nossa poesia, nossa literatura, com a dança… Não só samba, mas outras formas de dança. Um dos primeiros filmes que passei foi sobre o Villa-Lobos. E mostrar outras partes do Brasil, que não é só favela, não é só pobreza. E as pessoas às vezes não se dão conta disso.”

Nesta toada, a seleção 2016 contou, além dos já citados, com Cássia, de Paulo Henrique Fontenelle/i>, Mulheres no Poder, de Gustavo Acioli, Encantados de Tizuka Yamazaki, Paratodos, de Marcelo Mesquita, Dó Pó da Terra, de Maurício Nahas, Nise – O Coração da Loucura, de Roberto Berliner, Califórnia, de Marina Person, Samba&Jazz, de Jefferson Mello, Campo Grande, de Sandra Kogut, entre vários outros. Destes, os sete últimos integram a mostra paulistana e são mais uma chance aos brasileiros de assistirem as produções na tela grande.

O olhar do público infantil também ganha atenção. Pensando já na formação de público, Turma da Mônica ganhou exibição com direito a conotação de histórias e atividades para as crianças no Spurlock Museum, na cidade de Urbana-Champaign, no interior de Illinois.

Para Ariani, além da qualidade cinematográfica dos filmes, outro quesito muito importante é poder abordar temas sociais que digam respeito não só ao Brasil mas também aos Estados Unidos. “Na verdade, ao mundo inteiro. E que a humanidade em geral tem que pensar nestes temas, e abranger e falar e discutir e encontrar soluções. Eu acho, na verdade, que este é o sucesso da Mostra, que está super conhecida.”

Importante a observação de Ariani de que o interesse internacional pelo Brasil como destino de negócios diminuiu nos últimos dois anos, mas o interesse cultural tem aumentado. Há cerca de quatro, cinco anos estavam interessadíssimos no Brasil, em investir no Brasil.”

Um exemplo disso é o número americanos que queriam aprender português. “Os jovens que trabalhavam em diferentes companhias vieram aprender português porque as empresas, que estavam expandindo para o Brasil, queriam que aprendessem. Isso decaiu um pouco nos últimos anos por causa da nossa política, da nossa economia e outros assuntos”, explica Ariani. O interesse de investir no Brasil decaiu, mas o de saber sobre o Brasil não decaiu. Pelo contrário. Estes filmes que nós mostramos, que são diferentes de muitos outros, despertaram mais interesse ainda, pelo contexto deles”, completa.

Olhares que se cruzam – Ariani tem razão sobre o sucesso da Mostra nos EUA. Ainda que haja um bom espaço a ser conquistado, o interesse do público americano nas sessões que o TelaTela acompanhou é genuíno. Desde o encantamento ao se descobrir que uma escola de samba começa sua história, e seu trabalho, muito antes do desfile na Sapucaí até a surpresa de perceber as similaridades com o tão americano jazz, passando pela experiência de viver a experiência dos primeiros amores pelo olhar de uma garota e não o de um garoto, “como tantas vezes vi no cinema americano.”

Até a relação com o sexo e a nudez foi tema de debate e após as exibições de Califórnia, que contaram com a presença da diretora Marina Person. “Esta questão é muito interessante, pois revela como cada país lida com o assunto. A meu ver, os brasileiros encaram com mais naturalidade o fato de mostrar o corpo. Não só no cinema. Mas tudo é uma questão de perspectiva, pois para os brasileiros alguns filmes europeus também revelam demais quando se trata de cenas de sexo”, ponderou Marina, quando questionada sobre umas das cenas mais importantes de seu longa.

Sala lotada na abertura da edição paulista da Mostra VII, com a sessão de 'Encantados'
Sala lotada na abertura da edição paulista da Mostra VII, com a sessão de ‘Encantados’

Já Sandra Kogut, que encerrou a edição americana do festival com o longa Campo Grande, ouviu perguntas sobre a relação das crianças do filme com a personagem principal e a mãe que os deixa com a antiga patroa da mãe e desaparece. “É um Rio não turístico, que existe, claro, mas que a gente não está acostumado a ver nem no cinema e nem quando viaja como turista para lá. E é um dos filmes mais lindos que já vi”, comentou um emocionado espectador ao final da sessão.

Para Kogut, a diversidade da plateia é um dos destaques da Mostra. “Às vezes a gente vai em projeções de cinema brasileiro no exterior em que só tem brasileiros. Aqui não. A minha impressão é que estava bem misturado, tinha muita gente local que estava interessada no Brasil. E também estava interessado em cinema. O legal é isso, quando vai juntando, as pessoas vão chegando de lugares diferentes e os olhares se cruzam. Isso é importante”, comentou a cineasta ao TelaTela.

Descobertas como as do público de Chicago também têm surpreendido os brasileiros que têm lotado as sessões paulistanas. “Em algumas, completamente lotadas, a gente coloca cadeiras extras e até em algumas o público é maior do que a sala é capaz de receber. Ao mesmo tempo que é uma tristeza ver parte do público não poder entrar, é ótimo ter a certeza de que o brasileiro também quer descobrir mais de seu cinema”, comemora Ariani.

Confira a programação das próximas sessões da Mostra Brazilian Film Series – São Paulo

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA
Rua Augusta, 1470/1475
Horário: 19:30h

Até 30 de novembro 2016
ENTRADA GRATUITA
Retirada de ingressos a partir das 18:30h

DIA 28/11 (*) SEGUNDA – SALA 4
PARATODOS
2016 | 106 min | Documentário | Diretor: Marcelo Mesquita
Classificação indicativa: 10 anos

DIA 29/11 (*) TERÇA – SALA 4
DO PÓ DA TERRA
2016 | 80 min | Documentário | Diretor: Maurício Nahas
Classificação indicativa: livre

DIA 30/11 (*) QUARTA – SALA 3
CALIFÓRNIA
2015 | 90 min | Drama | Diretor: Marina Person
Classificação indicativa: 14 anos
(*) Bate-papo entre convidados e público após a sessão

CINE MATILHA
Rua Rego Freitas, 542 – Centro

DIA 29/11 TERÇA

16h – CALIFÓRNIA
2015 | 90 min | Drama | Diretor: Marina Person
18h – Programa de Curtas 1

20h – NISE: O CORAÇÃO DA LOUCURA
2015 | 108 min | Drama | Director: Roberto Beliner

DIA 30/11 QUARTA
16h – CAMPO GRANDE
2015 | 109 min | Drama | Diretor: Sandra Kogut

18h – Programa de Curtas 2
20h – DO PÓ DA TERRA
2016 | 80 min | Documentário | Diretor: Maurício Nahas

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