O caso foi tão bizarro que só poderia virar filme. E livro. Em 2011, o escritor João Paulo Cuenca morava num apartamento dois andares acima de um restaurante. Ouvia tudo que acontecia lá até altas horas, sem sossego.

Numa noite, envolveu-se em uma discussão com o pessoal do estabelecimento e, após uma troca de xingamentos pela janela, tacou a primeira coisa que estava à sua frente: um saco cheio de correspondências. Foi retaliado com arremessos de ovos. O caso foi registrado na delegacia.

Três dias depois, recebeu um telefonema de um inspetor policial, que dava a notícia de que outra ocorrência constava no banco de dados com seu nome. “Aqui está escrito que você está morto”, dizia a voz do outro lado da linha.

A surreal frase seria capaz de mexer com os nervos de qualquer um. Com alguém que vive de boas histórias então, parecia um convite a uma espiral de reflexões, crises de identidade e divagações simbólicas que acabaram virando o meta-documentário A Morte de J.P. Cuenca, que chega aos cinemas agora, após passagens pelo Festival do Rio e Mostra de São Paulo.

“Na época estava escrevendo um livro que era uma espécie de romance distópico sobre o Rio de Janeiro na década de 2020. Ali eu preconizava a decadência da cidade, do Brasil… Escrevia sobre o Morro do Vidigal sendo invadido por franceses, que transformavam aquilo numa Mykonos”, conta Cuenca, em entrevista exclusiva.

O tema que rondava sua mente e o inusitado acontecimento rimaram para ele, principalmente quando descobriu que o homem que havia se apropriado de seu documento fora encontrado morto num edifício invadido: “O filme surge deste cruzamento de o cara ter usado a minha identidade para morrer num lugar em que a identidade da cidade está tão sob questão”.

Cuenca se refere ao empreendimento Soul da Lapa (trocadilho infame), um condomínio de alto padrão que estava sendo erguido no local, uma das áreas mais tradicionais da cidade, hoje submetida a um processo de suposta modernização. “É a Lapa que quer virar Nova York”.

Por isso, o cenário é fundamental no filme, sua primeira experiência como autor cinematográfico. Os prédios em construção e a oposição entre um passado mal resolvido e o sonho de pertencer a outro mundo formam um jogo de espelhos, às vezes tortos, colocados em cena com a intenção de causar uma sensação de vertigem e deslocamento no espectador, o mesmo que seu personagem sentiu diante da situação surreal de tomar conhecimento da própria morte.

Vale dizer que A Morte de J.P. Cuenca é uma reconstituição ficcionalizada dos dias que se seguiram àquela revelação. O próprio protagonista criado pelo escritor (e interpretado por ele próprio) é uma versão um tanto quanto debochada de si mesmo, “patético, perdido”, como define.

“Esse flerte com a morte me deu liberdade para me colocar neste lugar de alguém que não tem muita coisa para esconder”, confessa. “Tem um desapego a certo jogo de aparências que o Rio de Janeiro te pede”.

Não à toa, a epígrafe do livro Descobri que Estava Morto, romance que serve de complemento e lançado simultaneamente ao filme pelo selo Tusquets, da Editora Planeta, é uma frase de Brás Cubas: “A franqueza é a primeira virtude de um defunto”.

Em contraponto a este sujeito fragilizado, há no filme uma figura feminina forte e misteriosa, vivida por Ana Flavia Cavalcanti. Quase como um espectro, esta mulher aparece no encalço de Cuenca, um pouco como a própria morte, ou a chave para o mistério da trama.

A escolha de uma atriz negra, que numa das cenas mais simbólicas do longa aparece vagando nua pelas ruas do centro carioca, na área do Cais do Porto, onde já esteve localizado o maior entreposto de escravos do mundo, não foi por acaso. “Muitos ainda estão enterrados ali. Toda vez que fazem uma obra naquela região, encontram osso. No centro do Rio inteiro é assim”, explica.

“Eu queria muito que essa mulher representasse este poltergeist. Este passado escravocrata que o Brasil não consegue encarar. Ao contrário, ele enterra”.

Repleto de significados abertos a interpretações, A Morte de J.P. Cuenca também tem um sarcasmo que oxigena o filme, à medida em que este anti-herói tenta explicar os acontecimentos a outras pessoas ou para pra pensar pela primeira vez em procedimentos que precisam ser realizados quando sua hora realmente chegar, como a escolha de um caixão.

Assim, absurdo e existencialista, o filme é algo bastante original. “Eu fiquei com vontade de fazer um filme que se passasse naquele lugar e contasse aquilo”, justifica o autor, falando sobre o que o motivou a experimentar também com o campo das imagens desta vez. “Tem uma coisa sobre essa história, que eu só consigo colocar as pessoas dentro dessa experiência através do cinema”.

Na entrevista, João Paulo Cuenca dá mais detalhes sobre o filme e ainda fala sobre os desafios da esquerda no atual cenário político do Brasil. Vale a pena ouvir a íntegra, de 38 minutos, disponível abaixo:

Comentários

comentários