Nossa Opinião

7.0
Mitchell tem muitos méritos nas opções que fez para construir o clima de suspense. Mas alguns pontos da história realmente não fazem sentido
Nota 7.0

Numa longa entrevista que deu ao site de entretenimento Vulture, Quentin Tarantino mostrou uma língua mais afiada do que nunca. Entre outras coisas, falou mal de True Detective, (achou chato desde o primeiro episódio da primeira temporada), dos críticos de TV (que, segundo ele, “sempre escrevem depois de assistir apenas aos pilotos”), fez juras de amor aos filmes de Almodóvar (‘“não tem o respeito que merece nos Estados Unidos”) e nomeou ele próprio e David O. Russell como os melhores diretores de atores do cinema atual.

Quando perguntado sobre quais produções recentes chamaram sua atenção, o diretor, que costuma lançar seu Top 10 dos favoritos do ano a cada dezembro, disse que não tem tido tempo de ver muita coisa, já que está rodando The Hateful Eight, com estreia marcada nos EUA para o o dia de natal.

No entanto, gastou alguns minutos para falar de Corrente do Mal, filme de David Robert Mitchell que acaba de chegar ao Brasil, depois de passagens pelos festivais de Sundance e Cannes, fato bastante incomum para um longa de terror.

“É a melhor premissa que eu vi num filme do gênero há muito tempo”, diz ele. “É um daqueles filmes que são tão bons que você começa a ficar bravo por não ser ótimo. O fato dele não ter chegado neste nível me deixa não apenas desapontado, mas quase que um pouco nervoso”.

Para o autor de clássicos como Pulp Fiction e Bastardos Inglórios, sobram furos no roteiro de Mitchell, “que não respeita as regras que cria no começo da trama”.

Corrente do Mal é a história de Jay (Maika Monroe), jovem de 19 anos que mora no subúrbio de Detroit e recém começou a sair com um rapaz novo no bairro, Hugh (Jake Weary). Após perder a virgindade com ele, vem a revelação. A garota está agora condenada a uma maldição e será perseguida por misteriosas aparições, que só quem está “contagiado” vê.

Tais aparições tem sempre o mesmo modus operandi: são zumbis que se arrastam lentamente e, em linha reta, na direção da vítima. A única maneira de se livrar é transando com outra pessoa e, assim, passar a maldição para frente. Porém, se a criatura conseguir matar o amaldiçoado, parte para o responsável pela transmissão, fechando assim o ciclo da corrente que dá título ao filme.

Mitchell tem muitos méritos nas opções que fez para construir o clima de suspense. Contrariando as convenções banalizadas desde os anos 80 com as franquias de Freddy Kruger, Jason ou da turma de Pânico, batizadas de slaher movies, o ritmo é lento. A edição não é nada apelativa e poucas imagens gráficas de violência ou sangue aparecem.

Os planos, em sua maioria, são abertos, colocando os personagens em imensos espaços abertos, onde o perigo pode vir de qualquer lado. Segundo Mitchell, uma das inspirações para esta decupagem foi Paris, Texas, o cult de Win Wenders.

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As qualidades certamente não passaram batidas por Tarantino. O que ele questiona são alguns pontos da história que não fazem sentido, e ele tem razão.

Logo no começo do filme, por exemplo, Jay e Hugh estão sentados no cinema, olhando as pessoas entrarem na sala, instantes antes da sessão. De repente, Hugh fala sobre uma mulher de vestido amarelo, mas Jay, ainda antes de pegar a maldição, diz que não a vê. Ele então percebe que se trata de uma criatura do mal e disfarçadamente, pede para irem embora.

“Ela está na porta do cinema, sorrindo para ele, e ele não nota de imediato? Você pensaria que ele, mais do que ninguém, notaria essas coisas o quanto antes. Nós [o público] as notamos entre os figurantes”, reclamou Tarantino.

“O filme faz esse tipo de coisa toda hora. Não segue as regras que cria. Tipo, okay, você pode atirar na cabeça dos vilões, mas isso só funciona por dez segundos? Isso não faz sentido. O que é isso? E então, de repente [mais perto do clímax do filme], as criaturas ficam agressivas e começam a jogar objetos nas pessoas? Elas estão fazendo estratégias? Isso nunca fez parte da trama antes”, continuou.

O diretor criticado não demorou para se pronunciar, via Twitter: “Olá QT, por que nós não nos encontramos para uma cerveja e falamos destes apontamentos? Eu também tenho alguns que fiz para você”.

Combustível de sobra para fãs dos dois lados, embora o próprio Mitchell tenha escrito no dia seguinte que é admirador de Tarantino e sua resposta foi em tom de brincadeira, não desrespeito.

Se foi mesmo, o autor de Corrente do Mal pode ir para essa cerveja com o peito aberto. Quem sabe aprenderá uma coisa ou duas de alguém que já tem o nome eternizado no Olimpo do cinema. Potencial, ao menos, já mostrou que tem.

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