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As primeiras memórias cinematográficas do psicanalista, escritor e colunista Contardo Calligaris, o segundo convidado do Memórias do Cinema da 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, estão intimamente ligadas às memórias de pós – Segunda Guerra e aos filmes que chegaram à Europa no período.

Nascido em 1948 em Milão, ele passou a infância em uma cidade que havia sido duramente bombardeada durante o conflito. O menino Contardo ia aos cinemas reformados com o avô, que o levava quase sempre ao tradicional Cinema Pacini, que existia desde 1937.

“Quando eu nasci, muitos cinemas haviam sido bombardeados e estavam sendo reformados. Do cinema Pacini, um cinema de ‘terceira visão’ (que recebia os filmes depois de passarem pelos cinemas mais centrais), de bairro, que tinha cadeiras de madeira, sessões mais baratas”, relembrou Contardo.

“Eu me lembro de que, como tinha intervalo nos filmes porque era preciso trocar as bobinas dos filmes, tinha sempre um moça que passava vendendo balas e outras coisas. E havia duas cortinas, em vez de uma porta, que a gente tinha de empurrar para entrar na sala de cinema”, lembrou Contardo, que também é roteirista e diretor geral da série Psi, da HBO.

Em toda a minha infância não existia televisão, computador… O espaço do sonho era só a literatura e o cinema
Contardo ressaltou que Milão era uma cidade bombardeada, com muitos escombros. E continuou sendo assim até a segunda metade dos anos 50 e explicou que, até o fim do Neorrealismo e o início da comédia italiana, esta foi a infância de quem nasceu no pós-Guerra.

“É importante saber disso para entender o tipo de relação que eu tive com o cinema, principalmente o Pacini. Em toda a minha infância não existia televisão, computador… O espaço do sonho era só a literatura e o cinema. A TV só chegou na Itália em 1954. Um televisor só entrou na minha casa em 1962.”

Cena de 'Os Brutos Também Amam', de George Stevens
Cena de ‘Os Brutos Também Amam’, de George Stevens

O psicanalista contou que é difícil se lembrar exatamente de qual foi o primeiro filme que viu na vida, mas que quase certamente foi um filme estrangeiro. “Não é pouca coisa o primeiro filme que a gente viu, sobretudo se a gente, como eu, não teve nenhum acesso à TV. É um momento absolutamente mágico.”

Do cinema italiano que chegavam ao Cinema Pacini, “só havia aquelas comédias italianas absolutamente indiferentes, bem opostas ao Neorrealismo. Qualquer tipo de cinema que pudesse me transmitir a impressão de que os italianos, dos quais eu fazia parte, tinham a capacidade, e a possibilidade, de ter um comportamento digno diante do horror que o fascismo tinha sido, foi perdido”, relatou o colunista do jornal Folha de S.Paulo.

Em toda a minha infância não existia televisão, computador… O espaço do sonho era só a literatura e o cinema
Contardo lembrou que só muito mais tarde descobriu os mestres do Neorealismo, que revelou a partir de meados dos anos 40 diretores como Roberto Rosselini, Luchino Visconti, Vittorio de Sica. “O que chegava no Cinema Pacini era a típica comédia italiana. Era algo insuportável para mim. O que vejo neles é a transformação em farsa do que eu considero uma farsa tremenda”, disse.

“Mesmo Ettore Scola, que eu adoro, não me agrada com Brutti, Sporchi e Cattivi (Feios, sujos e malvados, de 1976), pois este tipo de filme me dá a sensação de uma falha moral insuportável”, revela Contardo.

“Eu odiava a ideia da caricatura cômica da Itália da época do fascismo, período que levo muito a sério. Eu fui embora da Itália porque acho que nunca consegui aceitar um país que acho que seriamente tramou a morte do meu pai, que era um partiggiano. Tenho uma dificuldade de identificação.”

Enquanto não tomava contato com o neorrealismo italiano e com mestres como Pier Paolo Pasolini, que o influenciaram já quando jovem adulto, Contardo assistia majoritariamente filmes norte-americanos.

“Fui ter uma ideia do cinema que poderia tornar a vida da gente minimamente épica, de se dar uma história que realmente valesse a pena, no western americano, nos filmes de guerra e até mesmo nos filmes de gangsteres americanos.”

Um longa que o marcou profundamente, no início dos anos 50, foi Os Brutos Também Amam (Shane em inglês, de 1954), de George Stevens.

“Em italiano se chama Il Cavaliere della Valle Solitari. Suspeito que este seja talvez o primeiro filme que eu vi e que esteja entre uma das razões principais de porque eu saí de casa tão sendo e me mantive sempre longe”, narra Contardo. “Porque o herói, o cara que vai embora, é o que vai ser amado para sempre. Este truque funciona”, brinca ele.

A antológica cena da dança com a serpente em 'As Duas Faces do Dr. Jekyll'
A antológica cena da dança com a serpente em ‘As Duas Faces do Dr. Jekyll’

Outro longa decisivo para sua formação, já nos anos 60 foi As Duas Faces do Dr. Jekyll (1960, de Terence Fisher). “Eu tinha 12 anos. Vi algumas imagens desse filme e decidi que era o suprassumo do erotismo. A cena mais erótica era a em que o Dr. Jekyll vai a uma boate. Há um espetáculo e uma mulher dança eroticamente com uma serpente. Era um negócio realmente espetacular”, contou o escritor.

Contardo revela que, na época, achou o filme espetacular, mas que nunca mais o havia revisto. Foi somente para falar no Memórias do Cinema que ele reviu e descobriu que “o filme é péssimo”.

“Do ponto de vista cinematográfico. Os atores são péssimos, a direção é ruim. Preste atenção que não estou falando de grandes filmes. Geralmente os filmes e livros que mais marcam a gente são os ruins”, observou.

Geralmente os filmes e livros que mais marcam a gente são os ruins
Para ele, assim como para todos os espectadores, há sempre algo a mais que nos interessa ao assistir um filme. “Entendi que, fora a dançarina, o que era interessante, e diferente do que acontece no conto original, Dr. Jekyll e Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), o personagem do mal é bonito e o personagem do bem é feio. Outra coisa interessante é que a mulher do Dr. Jekyll é infernal, ela o trai, rouba dinheiro dele. Deste ponto de vista, da moral comum, é uma história heterodoxa”, analisou.

No caso de As Duas Faces do Dr. Jekyll é a natureza humana que seduziu o psicanalista. “O que me marcou é que toda fala do Jekyll com a mulher é que ele diz que ‘somos todos duas pessoas em uma’. Este filme me marcou a ponto de motivar uma grande parte do meu interesse profissional pela psicologia clínica e pela psicanálise. Ainda mais porque o que acontece é que muito rapidamente Jekyll não controla mais os momentos em que se transforma em Hyde.”

Um último filme que também foi crucial para a decisão de Contardo de se tornar psicanalista foi O Planeta Proibido (de Fred M. Wilcox, 1956). “Este filme resiste. Revi há pouco e continua ótimo. É sobre uma nave espacial que se perde em um planeta. Somente um professor e sua filha sobreviveram. E tem também o robô Robby, que ficou muito famoso e virou até brinquedo”, comenta.

“Quando chega o resgate, o capitão da equipe se interessa pela filha do professor. É aí que aparece um monstro, que havia assassinado todos da equipe da nave. Ele nada mais é do que uma materialização do ciúme do pai da moça. Assim que alguém a deseja, o ‘incrível Hulk’ aparece como energia pura. Há uma cena incrível, que me marcou. O monstro vai esquentando a parede de aço de um lugar e que eles se refugia. E o pai grita para o monstro parar, porque o monstro era ele. Isso me impactou demais.”

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