Um grupo de amigos decide passar um fim de semana em uma casa no campo. Tudo vai bem até que fatos estranhos começam a acontecer. É então que cada um deles é assassinado brutalmente, com direito a sangue, crueldade e muitos sustos.

Esta seria a premissa de um autêntico slasher film americano, ou seja, o filme de terror na linha de Sexta-feira 13, Brinquedo Assassino, A Hora do Pesadelo, Pânico. Mas, no caso, a casa de campo fica em Paranaíba, no Mato Grosso do Sul, a mocinha nem de perto lembra as ‘artificiais’ donzelas americanas e a trilha sonora, embalada por uma das personagens que adora o melhor do brega romântico brasileiro, conta com clássicos como Meu Amor, Meu Bem, Ma Femme, de Reginaldo Rossi, além de sucessos de Carlos Alexandre, e Frankyto Lopes. Para completar, um palhaço desses de praça do interior, que faz shows em troca de algum dinheiro, atende pelo nome de Cangaço (Francisco Gaspar em uma performance surpreendente).

Assim é Condado Macabro, primeiro longa-metragem de Marcos DeBrito e André de Campos Mello, que teve sua première em São Paulo no 10º Festival de Cinema Latino Americano e tem estreia em circuito comercial marcada para novembro, é uma ótima oportunidade de se conferir o que de mais novo e ousado o terror brasileiro tem produzido.

Com atores tarimbados no elenco, como o já citado Francisco Gaspar, Paulo Vespúcio (o investigador), Leonardo Miggiorin (Theo), Bia Gallo (a mocinha Lena) e Rafael Raposo (o irritante Beto), Condado Macabro segue a receita básica dos clássicos do gênero. Tem o amigo que faz piada de mau gosto o tempo todo, tem o palhaço do mal (quem nunca teve calafrios ao ver Pennywise em It ou o Captain Spaulding de The Devil’s Rejects?), o psicopata mascarado, a serra elétrica, reviravoltas e, claro, muito sangue jorrando.

'Condado Macabro' tem a receita do terror clássico combinados com ingredientes brasileiros como as locações em Mato Grosso do Sul, o humor, trilha sonora com direito a pérolas do 'brega romântico' de cantores como Reginaldo Rossi.
‘Condado Macabro’ tem a receita do terror clássico combinados com ingredientes brasileiros como as locações em Mato Grosso do Sul, o humor, trilha sonora com direito a pérolas do ‘brega romântico’ de cantores como Reginaldo Rossi.

Mas o que poderia ser apontado como mero amálgama de referências, no caso de Condado Macabro é uma manipulação engenhosa da receita do terror com o típico humor brasileiro. Na verdade, o longa homenageia e ironiza o próprio gênero. E nisso está sua maior qualidade. “O Brasil tem ótimos diretores de terror, como o Rodrigo Aragão (de A Noite do Chupacabras, 2011, e Mar Negro, 2013) e o Dennison Ramalho (do ótimo Amor só de Mãe). Eles fazem um tipo de terror que eu gosto, sério, pesado. Mas talvez nosso público não esteja muito acostumado ainda. Eu, como realizador, estou tentando ir aos poucos e usando humor nos meus trabalhos”, conta o Marcos DeBrito ao TelaTela.

O diretor pondera, no entanto, que apesar do humor, seu filme não é um ‘terrir’, gênero que o diretor Ivan Cardoso consagrou com longas como As Sete Vampiras. “É o ‘humor da morte’. Um personagem que morre do coração, o personagem chato, que, como aconteceu no Fantaspoa (maior festival de filmes fantásticos da América Latina, ocorrido em maio)  todo mundo torce na verdade para morrer logo. Essa interação do público com o filme é muito bacana”, conta o diretor.

A Sessão Especial ‘Terror Latino’ e a busca por um lugar no mercado nacional

Foi pensando no público que a comissão de seleção do Festival Latino selecionou diversas produções do gênero para esta edição. Além de Condado Macabro, o novo longa de Rodrigo Aragão, Joel Caetano, Petter Baiestorf e José Mojica Marins , As Fábulas Negras, tem sessão neste sábado, às 17 horas, também no Memorial da América Latina, e o curta Nua Por Dentro do Couro, de Lucas Sá, será exibido às 21h, na Cinemateca Brasileira. Já na terça, é a vez de encarar o terror de Natureza Morta, do argentino Gabriel Griecco, às 19h20, no CineSesc.

O fato de o festival dedicar um programa especial a esta vertente  é prova de que o terror e o suspense, ainda que lentamente, crescem no País e no continente. Para citar outras produções, em 2014 estrearam os longas Isolados, de Tomás Portella, e Quando Eu Era Vivo, de Marco Dutra. Já neste ano, O Amuleto, de Jeferson De, entrou em cartaz, além de diversos outros longas estarem em produção. “Há outros filmes em fase de desenvolvimento. O próprio Dennison prepara seu próximo longa, que será falado em inglês. Eu estou também com outro projeto, que vai ser uma versão do mito do Saci com ingredientes fantásticos e, ao mesmo tempo, adultos e realistas”, conta DeBrito.

Cena do longa 'As Fábulas Negras', dirigido por Rodrigo Aragão (de “A Noite do Chupacabras”, 2011, e “Mar Negro”, 2013), Petter Baiestorf (de “Eles Comem Sua Carne”, 1996, e “ Raiva”, 2001), Joel Caetano e José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão.
Cena do longa ‘As Fábulas Negras’, dirigido por Rodrigo Aragão (de “A Noite do Chupacabras”, 2011, e “Mar Negro”, 2013), Petter Baiestorf (de “Eles Comem Sua Carne”, 1996, e “ Raiva”, 2001), Joel Caetano e José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão.

De acordo com o diretor, para que o terror nacional se consolide como a comédia, ainda é preciso conquistar mais espaço tanto para obter financiamento quanto participações em festivais e atenção do público. “O público brasileiro assiste sim muita produção americana. Mas quando um brasileiro faz algo do gênero, tem muita gente que, mesmo sem ver, critica e diz que a gente só sabe copiar”, comenta DeBrito. “E filmes que vão para festivais internacionais tem mais respaldo por aqui. É preciso ter um diferencial, de ser mais reconhecido. Para mim, o grande atrativo de Condado é ter uma história interessante e bons atores”, defende o diretor, que já garantiu para novembro a estreia de seu primeiro longa em 40 salas comerciais do País.

“Mesmo assim, sou bem realista. Tanto nós quanto nossa distribuidora, a Elite Filmes, sabemos que é importante considerar a carreira no vídeo on demand. E não só nos cinemas. Acho que o gênero vai crescer cada vez mais por aqui, mas para que haja uma produção contínua, alguém tem que acertar. Eu estou tentando. Mas se não for eu, alguém vai acertar uma hora”, analisa ele, que compara este acerto do terror nacional ao do gênero ‘violência urbana’ aberto por longas como Cidade de Deus e Tropa de Elite. “Quando esses filmes foram sucesso, aí sim veio uma sequência de longas do mesmo gênero. Isso vai acontecer com o terror. E aí acho que vamos nos consolidar no mercado.”

Da produção Independente à estreia com 40 cópias

Se o terror brasileiro ainda assusta patrocinadores e selecionadores de festivais, as saídas para se produzir têm sido a criatividade e o trabalho em equipe. Condado Macabro foi produzido com verba própria e esquema de parceria de toda a equipe. “Usamos R$ 20 mil reais para levar as pessoas para o Mato Grosso do Sul, onde fica a casa em que filmamos, e gastos com alimentação, entre outros. E todos, equipe e elenco, são coprodutores do longa”, explica DeBrito. “Todos têm direito a suas porcentagens sobre  a renda do  filme. Nossa expectativa é chegar e passar de 40 mil pessoas. Se passarmos disso, já vai ser lucro. Nossos estudos de mercado mostraram que quando o filme for para o mercado digital, vai pagar seus custos”, completa ele.

Se o esquema de filmagem foi o mais autêntico ‘guerrilha’, para a finalização, Condado Macabro contou com o prêmio de R$ 290 mil concedido pelo  Edital ProAC (Programa de Ação Cultural). “Então contratamos uma equipe profissional para cuidar dos efeitos especiais, a trilha sonora foi feita nos Estados Unidos, investimos na dublagem, em estúdio de som. Agora estamos pleiteando R$ 200mil do Fundo Setorial. Mas se a gente não conseguisse, terminaríamos do mesmo jeito. Ao todo, diria que o filme teve o custo de R$ 500mil”, detalhar o diretor e produtor.

Para DeBrito, ter a parceria de todos dos membros da equipe foi crucial. “Pense que nosso set tinha quatro pessoas na equipe técnica. Eu priorizava o trabalho com os atores, os enquadramentos, a cena em si. E o André, que tem muita experiência com o documentário, cuidava da fotografia, de outras questões técnicas. A gente co-dirigiu e montou o filme juntos. Foi um trabalho que deu muito certo. Mas seria ótimo ter mais gente”, comenta ele.

A parceria e a co-criação também se estendeu aos atores. Francisco Gaspar, por exemplo, não só cuidou de seu personagem, como da claquete e ajudou na produção de cena. Beto Brito, que vive o vilão Jonas, quando não estava atuando cuidava do registro dos bastidores e do apoio técnico. Bia Gallo, a Lena, é também assistente de direção. Já Olívia de Brito, além de ser a amiga fã do ‘romántico brega’, é assistente de produção.

Francisco Gaspar, o horror cômico do Palhaço Cangaço

Francisco Gaspar é Cangaço, palhaço do longa que une elementos clássicos do slasher movie
Francisco Gaspar é Cangaço, palhaço do longa que une elementos clássicos do slasher movie

Para Francisco Gaspar, embarcar em um projeto colaborativo como este foi a chance de criar em conjunto e apostar na valorização da produção nacional. “Estou fazendo papeis que jamais pensei que faria. Fiz filme de guerra, o A Estrada 47. E detesto guerra. E fiz filme de terror, que eu odeio e adoro. Porque sentir medo é gostoso. Estou até revendo clássicos do horror. Mas o que mais me encantou foi fazer um filme de terror nosso, falando do nosso universo”, comenta Francisco. “Sexta-Feira 13, por exemplo, adoro. Tenho pavor do filme. Mas é um universo muito distante. Nossa ideia era fazer um filme nosso, falando da nossa realidade. Por mais que seja só diversão, mas que seja com a nossa cara”, completa o ator, que já foi parceiro de DeBrito em diversos trabalhos. “Ganhei o Kikito de Melhor Ator em curta em Gramado por Overdose Digital, que o Marcos escreveu para mim. E ele escreveu o Condado para eu fazer também. É uma parceria muito longa e muito bacana.”

Para dar a cara do palhaço brasileiro a Cangaço, Francisco criou o figurino do personagem e incorporou símbolos da cultura nacional. “Das roupas ao chapéu de cangaceiro, pensei muito nas figuras que formaram meu imaginário. Fui testando maquiagens para a máscara até que o Marcos aprovou a que usamos no filme. Foi uma dinâmica de co-criação como no teatro. Foi muito bom”, relembra ele.

Já para definir a dinâmica cômica entre Cangaço e seu parceiro, o palhaço Bola Oito (Fernando de Paula), Francisco se inspirou na dupla O Gordo e o Magro. “Invertemos, na verdade, porque no original o Gordo é o mau humorado e o Magro é mais ingênuo, engraçado. No nosso caso, o Cangaço é o Cérebro da dupla, o mais maquiavélico. Eles me fascinavam muito na infância e eu trago comigo até hoje”, revela o ator.

Mas, em vez de trazer a ingenuidade de Stan Laurel (o Magro), Cangaço está muito mais para Pennywise (de It) e Captain Spaulding (de The Devil’s Rejects) “Ele é um palhaço de rua, mas não é um artista, nem delicado e nem sensível. Ele é um bandido. Ele quer roubar e não divertir. Ao mesmo tempo, ele tem uma comicidade, que se revela mais no interrogatório”, explica Francisco, que, ao contrário de muita gente, nunca teve medo de palhaço. “Trouxe um pouco de referência da minha infância, mas entendi melhor esse pavor de palhaço de adulto, quando comecei a ver mais filmes de terror. Escuto até hoje o timbre do palhaço gritando na minha rua quando era menino e adoro essa lembrança”, diz o ator, que, diz sempre ganhar  “personagens muito ferozes” de DeBrito. “Foi assim em Overdose Digital e em Condado. Eles são muito maiores do que eu. O Marcos disse que, quando me viu como o soldado de A Estrada 47, ficou impressionado. Disse que eu era até bonzinho”, conclui  Francisco.

Confira  todos os destaques aterrorizantes do 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo

As Fábulas Negras

A produção capixaba As Fábulas Negras marca o encontro antológico de quatro dos nomes mais importantes do terror brasileiro: Rodrigo Aragão (de A Noite do Chupacabras, 2011, e Mar Negro, 2013), Petter Baiestorf (de Eles Comem Sua Carne, 1996, e Raiva, 2001), Joel Caetano e José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão. O filme focaliza um grupo de crianças que embarca numa aventura macabra povoada com personagens do imaginário popular do país – lobisomem, bruxa, fantasma, monstro e saci.

Quando: Sábado, dia 1 de agosto, às 17 horas, no  Memorial da América Latina / Tenda Petrobras para o Cinema Latino-Americano

 

Nua por Dentro do Couro

O curta de Lucas Sá se passa em um condomínio habitacional, onde residem uma mulher rancorosa e solitária e uma garota alegre. Esta, após sofrer uma infecção no olho esquerdo, com necessidade de cirurgia, descobre que é portadora do vírus HIV. Para disfarçar as marcas na cirurgia, suas amigas decidem desenhar o formato de um olho para ela usar no rosto. Estrelado por Gilda Nomacce (de Trabalhar Cansa), o filme foi selecionado para os festivais de Brasília, Vitória, Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, Internacional de Curtas-Metragens de Belo Horizonte e Goiânia Mostra Curtas.

Quando: Sábado, dia 1 de agosto, às 21 horas, na Cinemateca Brasileira

 

Condado Macabro

Dirigido por Marcos DeBrito e André de Campos Mello, revela uma casa alugada por cinco jovens que se transforma no palco de uma chacina. Um palhaço suspeito é encontrado todo ensanguentado na cena do crime e precisa provar sua inocência para o investigador da pequena cidade. Sem evidências para prendê-lo, o policial entra no jogo ardiloso do acusado. No elenco estão Francisco Gaspar, Paulo Vespúcio, Leonardo Miggiorin, Bia Gallo e Rafael Raposo.

Quando: Sábado, 1 de agosto, às 21h no Memorial da América Latina | Quinta, 6 de agosto, às 16h, no Cinusp – Cidade Universitária

Natureza Morta

Estreia do argentino Gabriel Grieco, adiciona registros cômicos ao gênero terror. Em uma cidade da Argentina, o país dos churrascos, pessoas ligadas à indústria de gado começam a desaparecer. Uma jornalista dá início à investigação e, em breve, vai descobrir um segredo obscuro. Inédito em São Paulo, o filme se auto-define como o primeiro do gênero “terror vegano” do mundo.

Quando: Dia 4 de agosto, terça, às 19h20, no CineSesc.

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