Emplacar um filme no Oscar obviamente não é tarefa fácil. E todos os anos, quando começa a famigerada ‘Corrida rumo às estatuetas’, tem início também uma série de dúvidas dos ‘mortais’ sobre quais são os caminhos que levam à Academia de Hollywood.

Pois bem. No caso dos filmes que concorrem a uma das cinco vagas a finalista ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o caminho é um pouco diferente do que o que percorre os filmes americanos e os que competem nas outras categorias, como melhor curta, melhor documentário, melhor animação (nesses categorias, filmes estrangeiros também podem competir, mas, via de regra, acabam dominadas pelos americanos).

Vale lembrar que nas categorias ditas principais, como melhor filme, melhor atriz, ator, roteiro, fotografia, entre outras, é possível que um filme estrangeiro concorra. Prova disso é que Amor, do austríaco Michael Haneke, por exemplo, concorreu em 2013 aos títulos de melhor filme, diretor, roteiro original e atriz. E levou o de melhor filme estrangeiro, pois foi indicado pela França para a vaga.

E aí é que entra a primeira condição primordial. Além do que poderia ser chamado de ‘passo número zero’, que é fazer um ‘filme de Oscar’, seja lá o que isso signifique, é preciso também ser indicado por uma comissão oficial de seu país para disputar uma das indicações da categoria de melhor produção estrangeira.

O Brasil ao longo dos anos

oanoemquemeuspaisNo caso do Brasil, uma comissão organizada pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), com nomes que mudam a cada ano, vota pelo filme que representará o País na lista dos mais de 70 longas que concorrem às dez vagas de pré-finalistas, cuja lista é em geral divulgada em novembro ou dezembro de cada ano.

Para relembrar os últimos anos, em 2012, o escolhido para representar o Brasil foi O Palhaço, de Selton Mello, produzido por Vania Catani. Em 2013, foi a vez de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho e, em 2014, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro.

Desde 1999, quando Central do Brasil concorreu a melhor filme estrangeiro e a melhor atriz (Fernanda Montenegro), o País não figura na lista dos cinco finalistas da categoria.

Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, foi o último longa nacional a concorrer a um Oscar. O filme disputou nas categorias de melhor diretor, melhor montagem, melhor roteiro adaptado e melhor fotografia em 2004.

O longa tinha sido escolhido pelo Brasil em 2003, mas foi solenemente esnobado pelos votantes da Academia. Graças ao lobby dos irmãos Weistein, que apostaram no filme nos EUA, Cidade de Deus voltou em grande estilo e concorreu em quatro categorias: melhor diretor (Fernando Meirelles), melhor edição (Daniel Rezende), melhor roteiro adaptado (Bráulio Mantovani) e melhor fotografia (César Charlone). Não levou nenhuma estatueta para casa, mas a revanche foi um dos momentos mais memoráveis da trajetória do Brasil no Oscar.

 Campanha e corrida na fase semifinal

De volta à campanha, caso o país seja incluído entre os pré-finalistas, assim que a lista for divulgada, será hora de começar a correr atrás de votos. Há todo um protocolo a ser seguido, que em geral conta com ações promocionais, sessões para votantes, imprensa e formadores de opinião, anúncios em revistas especializadas. No caso do Brasil, o candidato, que neste ano é Que Horas ela Volta?, de Anna Muylaert, conta com o apoio oficial do Ministério da Cultura/SAV, da Ancine, do Ministério das Relações Exteriores, Cinema do Brasil/Apex e Embratur.

O apoio é bem vindo e necessário. Afinal, não é fácil bater os candidatos de países campeões da categoria, como Itália, Argentina, França… Tudo é válido, desde que dentro das regras da Academia, para convencer o produtor Mark Johnson (vencedor do Oscar de melhor filme por Rain Man, entre outros feitos) de que nosso ‘player’ merece uma disputada ‘consideration’.

A propósito, há 14 anos Johson comanda o comitê da Acadamia que elege o melhor filme estrangeiro. Ele e sua equipe checam se os candidatos estão em condições de competir e acompanham todo o processo de campanha por uma indicação até a tão sonhada premiação.  Quando os ‘mortais’ se perguntam “mas quem vota no filme estrangeiro? Quem manda nisso?”, podem saber que um dos grandes mentores das escolhas é Johnson.

Convencer a ele e aos votantes da categoria de que o filme merece atenção é tarefa árdua. Além da mobilização da opinião pública, é preciso, antes de mais nada, caso isso ainda não tenha ocorrido, exibir o longa em uma sala americana por pelo menos uma semana. Mesmo que seja em uma sala pequena e em outra cidade que não em Los Angeles, como Nova York, por exemplo.

Reta final        

thehunt.jpgCumprida esta etapa, é hora de chamar a atenção da opinião especializada para sua produção. Para isso, anúncios em revistas especializadas, como a Variety, pedem: For your consideration (foto).

Além disso, é aconselhável organizar sessões especiais, com debates, presença dos realizadores, imprensa, convidados VIPs, ainda que não seja obrigatório. Tudo isso para, ao chamar atenção para o filme, despertar interesse nos membros da Academia, que podem ficar curiosos e não perder as sessões oficiais que são realizadas de cada filme.

Ter a imprensa americana e internacional a seu lado não é garantia de ter conquistado a Academia. Haja vista que muitas vezes os filmes estrangeiros que ganham o Globo de Ouro (o prêmio da imprensa estrangeira de Hollywood) não levam o Oscar para casa.

Mesmo assim, ter os principais críticos a seu lado ajuda. Se depender disso, Que Horas Ela Volta? larga com vantagem nesta corrida. O longa recebeu, além do prêmio no Festival de Sundance (melhor atriz para Regina Casé e Camila Márdila), críticas altamente positivas e sugestões de ‘vai pro trono’ do Oscar de veículos como Variety, Indie Wire, Hollywood Reporter, entre outros.

Há relatos de que um membro importante do comitê presidido por Jonshon quer muito a presença do filme de Anna Muylaert entre os cinco finalistas. Agora, é a vez de a diretora e os produtores Fabiano Gullane e Caio Gullane seguirem os mandamentos da boa candidatura e completarem os últimos passos desta corrida.

A propósito, depois de todo protocolo cumprido, é a vez de rezar, torcer, carregar um amuleto e torcer muito. E, claro, no dia 14 de janeiro de 2016, assistir à cerimônia de anúncio dos vencedores pela TV.

A experiência pode ser estressante, mas é, no mínimo, divertida. Este ano, por exemplo, a dupla de realizadores suecos, o diretor  Ruben Östlund e o produtor Erik Hemmendorff, de Força Maior, gravou um vídeo assistindo à nomeação em um quarto de hotel de Nova York.

A expectativa em torno do longa era grande e as chances de uma indicação também. Mas o filme não ficou entre os finalistas. Apesar da decepção, os engenhosos diretor e produtor fizeram uma verdadeira performance de choro e revolta que, para quem assistiu ao filme, fazia óbvia referencia ao roteiro.

A brincadeira, é claro, viralizou e, apesar de sair sem convite para a festa, o filme conseguiu chamar até mais atenção que outros que foram finalistas. Prova de que no Oscar, tudo é válido. Afinal, como bem disse Anna Muylaert, a nomeação é ótima, mas bom mesmo é chegar a seu público.

Caso Que Horas Ela Volta? esteja entre os finalistas, a corrida continua, os encontros, as sessões, o lobby, a mobilização da opinião pública e tudo o mais. As etapas se repetem, mas tudo se acirra e as expectativas só aumentam. E o trabalho, e a torcida, só terminam dia 23 de fevereiro de 2016, quando os votos se encerram.

Detalhe curioso. Na ‘cartilha’ da Academia sobre ‘como proceder’ em caso de indicação, há regras que não se aplicam às categorias de fllme estrangeiro, curtas e documentários. Mas uma das que se aplicam é categórica: companhias de cinema não devem enviar aos membros (os votantes) uma cópia do filme (o que ocorre em outras categorias), a não ser que o filme em questão esteja competindo em outras categorias.

Isso leva a crer que os votantes da categoria devem comparecer às sessões que a própria Academia organiza, sempre muito discretas, para que os membros possam assistir no cinema (o formato sempre considerado ideal pela organização do Oscar) aos estrangeiros concorrentes. Ou, então, como já citado, a alguma das sessões que tenham sido promovidas anteriormente pelas equipes de cada país.

Depois da nomeação, é aguardar a cerimônia de entrega 28 de fevereiro, no Dolby Theatre, no Hollywood & Highland Center. Como se diz em ingles, fingers crossed! Dedos cruzados!

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