Peppe Siffredi e Raphael Bottino começaram a pensar em fazer um documentário sobre a cubana Yoani Sánchez em 2010. Crítica ferrenha do regime Castrista, ela chamava atenção do mundo com seu blog, Geração Y, escrito diretamente de Havana, mesmo com as restrições de acesso a internet vigentes no país.

Por anos, esperaram que a blogueira conseguisse sair da Ilha e vir para o Brasil, mas todas as tentativas acabavam com o visto negado. Apenas em 2013, após a revogação da lei que obrigava todos os cidadãos de Cuba a pedir autorização oficial para viajar ao exterior, é que A Viagem de Yoani realmente ganhou vida.

O registro de sua passagem por terras brasileiras, em fevereiro daquele ano, cresceu em importância à medida que cada aparição pública dela gerava ondas de protestos. “As pessoas estavam ensandecidas, correndo atrás dela. Percebemos que para nós, enquanto cineastas, aquilo era muito mais interessante”, diz Bottino, em entrevista ao TelaTela.

Desta forma, o documentário tem o mérito de detectar um momento de furor político que antecipou as manifestações de 2013 e 2015. Algumas cenas são bastante simbólicas neste sentido. Há, por um lado, Eduardo Suplicy saindo de sua persona serena e pedindo, aos berros, que manifestantes radicais de esquerda ouçam o que Yoani tem a dizer, num debate que ocorreu em Feira de Santana, na Bahia.

Já em sua parada seguinte, no Congresso Nacional, a cubana é recebida e saudada com ares de heroína pelo deputado Jair Bolsonaro. Tudo sem dar nenhuma impressão de mal-estar ao estar sendo usada, por alguém famoso pelos comentários intolerantes contra mulheres e homossexuais, como prova viva dos “terrores” praticados pelo regime de Fidel.

A tensão alcança o ponto máximo em São Paulo, quando manifestações contra e a favor da blogueira tomaram a fachada da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, onde ela participava de outro debate – evento que precisou ser interrompido quando os manifestantes entraram no auditório.

“As pessoas estavam ali defendendo, ou atacando, um lugar que Cuba ocupa num imaginário. Você se posicionar a favor ou contra a Yoani, no Brasil, acaba sendo encarado como uma forma de você dizer quem você é e quais são as suas crenças. De que lado você está, dentro desse maniqueísmo brasileiro atual”, reflete Siffredi.

É nítida a preocupação do documentário em tentar se manter neutro na discussão, deixando a conclusão para o espectador. Se Yoani tem bastante tempo na tela, também é dado espaço para as acusações de que ela é financiada pelos Estados Unidos, e são exibidos trechos de desenhos animados veiculados na TV cubana que pintam a blogueira como grande vilã.

A própria personagem central começa sua viagem achando tudo lindo, elogiando estar num lugar onde todos – até aqueles que tentavam a silenciar – podiam manifestar suas opiniões em alto e bom som. No final, ela mesma parece cansada da situação, e chega a abandonar uma entrevista aos diretores. Comparando-os a oficiais do governo de Cuba, provavelmente por fazerem perguntas que considerou incômodas, ela simplesmente levanta da sua cadeira e sai, deixando realizadores e público sem respostas para o enigma que é sua personalidade.

Filme pronto em mãos, Siffredi e Bottino têm agora o desafio de vencer a resistência de quem não quer nem ouvir falar no nome de Yoani Sánchez. Qualquer menção ao documentário na internet, por exemplo, é recebida com uma enxurrada de opiniões negativas, insinuações sobre seus reais objetivos e perguntas sobre quem estaria por trás daquilo.

Na grande maioria das vezes, são teses de quem nem se deu ao trabalho de ver ou pesquisar sobre a obra. Por isso, os cineastas lançaram a campanha “Veja antes de julgar”.

“Mesmo que essa mulher seja uma vendida e mentirosa, deixa ela falar e desconstrói o discurso, no melhor estilo Sócrates. Por quê calar uma pessoa?”, defende Siffredi.

Por instigar uma infinidade de discussões, por apresentar uma das figuras mais controversas da sociedade contemporânea e, principalmente, por ser um grande filme, muitas vezes até vibrante em sua narrativa, A Viagem de Yoani merece uma chance. Mesmo se a blogueira não te representa.

No momento ‘A Viagem de Yoani’ está disponível com exclusividade na plataforma iTunes, em mais de 30 países: http://apple.co/1EDqrTr

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