Se King Kong sempre foi tido como um dos monstros mais temidos do cinema, o novo Kong: Ilha da Caveira arrisca dar uma nova perspectiva ao mito. Tendo como pano de fundo um mundo, mais especificamente os Estados Unidos, ainda na ressaca do Guerra do Vietnã, o filme dispara petardos na mentalidade imperialista norte-americana e transforma o gorila gigante numa alegoria das vítimas de um exército que teima em colocar o nariz onde não é chamado.

No roteiro escrito por Dan Gilroy, Max Borenstein e Derek Connolly, a partir de uma premissa de John Gatins, somos transportados para o exato momento em que o presidente Richard Nixon anuncia a retirada das tropas do território vietnamita, em 1973.

Parte destes militares é então deslocada para a missão idealizada pela equipe do pesquisador Bill Randa (John Goodman), interessado por um local misterioso que pode até ser fonte de novos recursos naturais. “Se nós não agirmos logos, os russos podem o fazer antes de nós”, é o argumento definitivo na hora de garantir o aval do governo norte-americano.

Samuel L. Jackson encarna o Tenente Preston Packard. Inconformado com o desfecho do confronto no Vietnã, ele encara a jornada como uma segunda chance da qual não irá admitir uma nova derrota. Com sangue nos olhos desde o primeiro confronto com Kong, Packard não hesita em elegê-lo como seu inimigo e uma ameaça à segurança mundial. Ao destacar uma figura assim como vilão, o longa toma a clara decisão de reprovar a postura que tem sido a tônica das forças armadas dos EUA desde sempre.

Do outro lado do espectro, o mercenário britânico James Conrad (Tom Hiddleston) e a fotojornalista pacifista Mason Weaver (Brie Larson) representam a visão identificada com os valores progressistas. Para os dois logo fica claro que as ações de Kong são reações naturais a alguém que se viu invadido de uma hora para outra por gente sem o menor tato. E, como no Vietnã, o conhecimento do espaço lhe dá toda a vantagem no confronto.

O diretor Jordan Vogt-Roberts desde o começo do projeto declarou que a maior referência para o filme seria Apocalypse Now. As referências visuais são claras, com helicópteros voando com o sol nascente ao fundo e outras cenas que logo virão à mente do cinéfilo iniciado. Mas não é só isso. Roberts pegou emprestado do clássico de Francis Ford Coppola um certo tom de ceticismo em relação à qualquer assunto bélico, e tomou a decisão acertada de dar ao trato com os personagens o mesmo peso das cenas de ação.

O cineasta e seus roteiristas também chutaram para longe o arquétipo de A Bela e a Fera, que sempre rondou a mitologia de King Kong. A fotógrafa interpretada por Brie Larson está longe de ser uma mocinha indefesa, e sua conexão com o gorila é muito mais de empatia do que qualquer sentimento romântico, de ambas as partes.

É lógico que, ainda assim, como se trata de um blockbuster de um grande estúdio com a obrigação compulsória de fazer milhões e milhões em bilheteria ao redor do planeta, Kong: Ilha da Caveira coloca o espetáculo visual em primeiro lugar – e este é realizado com bastante competência, diga-se de passagem. Porém, quando até um filme desse porte vem com um discurso político explícito, é porque há alguma coisa importante acontecendo.

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