A Promessa poderia ser apenas um drama romântico com a tragédia da guerra como pano de fundo, daqueles que o cinema se acostumou a fazer ao longo dos anos. Mas sua história para além das telas é reveladora de uma ferida ainda aberta e dolorida na região da fronteira entre Turquia e Armênia.

Durante a Primeira Guerra Mundial, entre 1915 e 1917, milhares de armenos foram perseguidos e mortos pelo Império Otomano, no primeiro caso de genocídio do século XX. A Turquia refuta o termo de forma veemente, mesmo este tido como consenso entre historiadores, reconhecido pelas Nações Unidas e o Parlamento Europeu.

O filme dirigido por Terry George (que já tinha feito um longa sobre outro genocídio, o do povo Tutsi na África, em Hotel Ruanda) é o primeiro em que Hollywood coloca a mão na questão. Oscar Isaac faz Mikael Boghosian, boticário que pretende abrir um consultório em sua modesta vila. Para isso, vai até Constantinopla estudar medicina e lá começa a sentir na pele a tensão entre turcos e armenos, seus conterrâneos.

O roteiro arma então um triângulo amoroso entre o gentil protagonista, a professora infantil Ana (Charlotte Le Bon), com quem divide as raízes, e o jornalista norte-americano Chris Meyers (Christian Bale), correspondente de guerra boêmio e destemido. Não demora muito para a Guerra interferir na trama, e A Promessa não se furta das imagens de sofrimento e tragédias que se abatem aos personagens.

Pelos diálogos expositivos e narrativa novelesca, a obra não faria muito estardalhaço nos cinemas, mas um grupo de trolls da internet ajudou a chamar atenção para o assunto.

Logo após a estreia no Festival de Toronto, em setembro do ano passado, a página do filme no IMDB recebeu mais de 55 mil visitas de usuários que avaliaram o filme com apenas uma estrela, a mais baixa na cotação do site de cinema mais acessado do mundo. O número representava não os espectadores, mas gente que nem havia assistido ao longa e mesmo assim achava um absurdo que ele defendesse a tese, já comprovada, de que o aconteceu ali foi um genocídio. Como resposta, houve quem deu dez estrelas, a cotação máxima, também sem assistir.

Mais sério do que isso, porém, foram as notícias de que a equipe de A Promessa sofreu pressão de autoridades turcas durante sua produção, financiada por Kirk Kerkorian, empresário de Hollywood e dono de cassinos, filho de imigrantes armênios, que antes de morrer aos 98 anos, em 2015, deixou US$ 100 milhões para bancar o filme.

O ator espanhol Daniel Giménez Cacho, que interpreta um padre armênio, afirmou ao New York Times ter sido contactado por um embaixador turco, disposto a lhe convencer que o genocídio nunca aconteceu. As filmagens, que tiveram locações em Portugal, Espanha e Malta, foram feitas sem alarde e com segurança reforçada. A campanha de marketing foi discreta, para evitar retaliações.

Disposto a mostrar também o seu suposto “outro lado da narrativa”, o governo da Turquia investiu em The Ottoman Lieutenant, coprodução do país com os Estados Unidos. O personagem principal é um militar turco de bom coração que ajuda a salvar milhares de armênios, o que corrobora o discurso oficial local, segundo o qual as atrocidades cometidas na época foram apenas consequência de uma guerra civil generalizada que fez vítimas dos dois lados.

The Ottoman Lieutenant não tem previsão de estreia no Brasil, mas a crítica internacional achou difícil levá-lo a sério: nos EUA, onde o filme foi lançado em março, as resenhas foram unanimemente negativas. A nota do público no IMDB, porém, é de 8.8. Seria um caso clássico de opiniões opostas entre jornalistas e espectadores ou trabalho dos mesmos trolls que difamaram A Promessa no mesmo site em 2016?

Uma coisa é certa: na batalha pelo imaginário popular, o cinema ainda é das armas mais poderosas.

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