CinemaFestival de Cannes 2017

Com ‘Good Time’, Robert Pattinson entra para a briga pela Palma em Cannes

Mesmo depois de ter protagonizado longas completamente diferentes da saga que o consagrou (no caso, a franquia Crepúsculo) Robert Pattinson vai sempre ter que enfrentar os que o chamam de “o galã de Twilight“. Mas, pode acreditar, Pattinson cresceu. E provou isso mais uma vez no Festival de Cannes 2017. E a sensação de quem assistiu a Good Time na sessão da quinta-feira foi a de que não só o ator amadureceu como Noodles ganhou um neto. Sim, o personagem de Robert De Niro no soberbo Era uma Vez na América, que Sergio Leone dirigiu em 1984. E mais, temos a sensação de que Travis (que também De Niro vive em Taxi Driver, de Martin Scorsese) ganhou um filho.

Na verdade, quem ganhou foi Cannes, que tem com Good Time um dos melhores longas da mostra competitiva 2017. Ao lado dos russos Loveless (Sem Amor), Krotkaya (Uma Mulher Delicada) e do francês 120 Batimentos por Minuto, o longa de Benny e Josh é um dos fortes candidatos à Palma.

Cru, tenso e visceral na forma de acompanhar a longa jornada frenética noite adentro de seu protagonista, Good Time retrata o lado B da Nova York atual com a honestidade e o ‘eu sei bem do que estou falando’ raro de se ver no cinema. Esta honestidade narrativa sobre este universo há tempos não se via. E é impossível não lembrar de Travis, David ou do L.T. de Vício Frenético. Mesmo que o Bad Lieutenant do longa de Abel Ferrara seja um policial vivido por Harvey Keitel, o calvário dos que vivem nas sombras da metrópole une Connie a todos seus ancestrais do cinema.

Neste lado B da cidade, Robert Pattinson é um jovem tão perdido quanto inconsequente, que faz com que Nick, seu irmão portador de problemas mentais (vivido por Benny Safdie) assalte um banco com ele. O plano, claro, dá errado e Nick vai preso. E assim começa a epopeia de Connie para livrar o irmão da cadeia, e da morte, uma vez que Nick não vai resistir em meio a maior violência do que já foi submetido desde a infância, regada ao tratamento violento da avô.

À imprensa de Cannes, Josh e Benny fazem questão de negar que a grande referência para construir o universo de Good Time foram os filmes ou os cineastas acima (nem mesmo John Cassavetes). “A inspiração do filme vem da vida real, minha amizade com Buddt Duress (que vive o recém-saído da prisão Ray no filme), de gente que vive esta realidade”, comentou Josh.

Faz sentido. Realmente a crueza com que retratam este universo beira o documental, ainda que a trilha sonora seja praticamente onipresente e que a fotografia assinada por Sean Price Williams seja meticulosamente trabalhada. Em vez de glamurizar ou dar um tom artificial à trama, estes elementos criam uma atmosfera que nos faz mergulhar nesta longa noite com Connie. Por outro lado, os diretores tem consciência que Good Time também é um filme de gênero. “Foi um grande desafio para a gente dirigir um filme de género, no caso, o thriller”, comentou Benny, que com o irmão rodou em 2014 o longa Heaven Knows What, lançado no Brasil com o título genérico Amor, Drogas e Nova York.

Outro aspecto que nos ajuda a embarcar na jornada de Connie é o próprio Pattinson. Seu rosto traduz a angustia de um personagem tao perigoso quanto frágil. “Eu adorei a energia dos filmes deles. Eles são muito autênticos, tem algo de selvagem. Eles são acessíveis, tranquilos. Foi muito bom filmar com eles”, declarou o ator, que literalmente pediu para filmar com os irmãos. Por isso, Josh e Ronald Bronstein escreveram o roteiro já pensando em Pattinson.

“Robert nos procurou e disse que se a gente quisesse ele ia trabalhar até na cozinha do nosso filme. Mas a gente não quis”, brincou Josh. “O que a gente queria é que ele nos trouxesse algo dele, uma relação entre nós muito de igual para igual”, completou o diretor. Descobrir que o processo de criação do roteiro começou muito antes da primeira cena também ajuda a entender porque Good Time tem a consistência de quem sabe a história que esta contando. Benny e Pattinson atuam pouco tempo juntos na trama, mas é o suficiente para que a força entre dois irmãos seja entendida e, se não justifica, explica os atos de Connie.

Para se ter uma ideia do grau de detalhismo, Josh contou que escreveram toda a biografia de Connie, da infância ate a primeira cena do filme. “O mais difícil nem foi escrever o roteiro, mas ficar respondendo para o Robert as perguntas do tipo ‘por que ele come assim?”, ‘por que ele faz isso?’”, comentou o diretor. “O entusiasmo deles é incrível. Não é que eles so escreveram a biografia, mas também no set havia um grau de intensidade, de risco, de coragem que era imenso. Foi único e muito especial”, comentou o ator.

Pattinson fez bem. Com um personagem que, por mais torto que seja, desperta empatia e nos conduz, o melhor a fazer era conhecê-lo. A obstinação do ator pode lhe garantir sua primeira Palma de Ouro. Pattinson tem concorrentes pesados, como o francês Louis Garrel, mas suas chances são reais. E se Good Time não sair da competição com ao menos um Grande Premio do Júri, a equipe presidida por Pedro Almodovar vai ter muito o que responder aos jornalistas ao final da premiação no domingo.

Comentários

comentários