A decisão dos programadores do Festival de Cannes 2016 de encerrar a mostra competitiva com Elle, novo longa de Paul Verhoeven não poderia ter sido mais acertada. Em dia que a maratona cinéfila, tanto para críticos quanto júri e público, já se tornou exaustiva, surgiu um drama de alta voltagem, capaz de sacudir os ânimos e fazer surgir uma nova candidata forte à Palma de Ouro de Melhor Atriz: a francesa Isabelle Huppert.

Elle é um drama, um suspense, talvez até um thriller, carregado de humor, do mais ligeiro ao mais sofisticado e irônico. E muito disso se deve à performance de Huppert, que está luminosa sob a direção de Verhoeven.

Vencedora de duas Palmas prévias, Violette Nozière (de 1978, dirigido por Claude Chabrol) e A Professora de Piano (de 2001, com direção de Michael Haneke), ela pode tirar o prêmio de melhor atuação feminina desta edição das duas favoritas Sônia Braga e a alemã Sandra Hüller, de Toni Ederman.

No longa do diretor de sucessos como Instinto Selvagem, Robocop e Vingador do Futuro, Huppert é Michèlle, uma executiva de sucesso à frente de uma empresa que cria videogames. Filha de um homem que, quando ela tinha 10 anos, após um surto psicótico, matou várias crianças do bairro onde moravam e incitou-a a por fogo em sua própria casa, Michèlle é uma mulher calculista, sarcástica e que sabe manipular muito bem as pessoas.

No entanto, apesar do histórico da personagem induzir que sua personalidade é, em um exercício de fatalismo e psicologismo, fruto dos traumas que passou na infância, tanto o autor do romance em que o filme é baseado (‘Oh…’, do francês Phillpe Djian) negam qualquer exercício de lógica e interpretação aristotélica do caráter de Michèlle.

“O filme é o retrato de uma mulher, mas também é um thriller. E é um thriller dentro dela também, pois a gente não sabe exatamente o que ela sente. Na vida é assim muitas vezes”, comentou Huppert sobre sua personagem. “Este filme é um suspense, mas também tem humor, tem drama. Na verdade, é um híbrido. Como eu. Eu deveria ser só americano, mas eu me sinto francês”, comentou o diretor, que nasceu na Holanda, onde começou sua carreira no cinema antes de se tornar um dos grandes nomes atuais de Hollywood.

A propósito, era nos Estados Unidos que Elle se passaria inicialmente. Mas por conta das dificuldades de financiamento e de se encontrar uma atriz que aceitasse passar por tudo que Michèlle passa, o produtor Saïd Ben Said (também coprodutor do brasileiro Aquarius, que concorre à Palma de Ouro) sugeriu que Verhoeven rodasse Elle em Paris. “Não poderia ter sido mais acertada a decisão. Afinal, no livro a história se passa na França e nos EUA nenhuma atriz iria topar fazer tudo que a Isabelle faz. E a França me deu ela de presente”, comentou o diretor.

O ‘tudo’ que Michèlle passa e faz começa com um estupro que ela sofre, quando um estranho mascarado invade sua casa. É a partir desde primeiro momento do longa que Verhoeven e o roteirista Davis Birke começam a destruir todos os pré-conceitos do público sobre a reação de uma mulher violentada, sobre as providências que ela toma após o trauma (na verdade, ela segue a vida como se nada, ou quase, tivesse acontecido) e sobre o desenrolar da história.

Questionada se ela temia a reação das pessoas sobre seu papel e a forma como Michèlle lida com o fato, Huppert provou porque é uma das mais corajosas atrizes de sua geração: “Na verdade não me preocupo. Para começar, a história não deve ser levada pelo viés realista. Não é uma história sobre uma mulher que é estuprada. É mais para ser vista como um conto, uma fantasia. E não é algo que necessariamente acontece, mas sim que a gente gostaria que acontecesse mas não pode confessar”, declarou Huppert.

Paul Verhoeven dirige a atriz francesa na cena que abre, abrupta e magistralmente, o longa
Paul Verhoeven dirige a atriz francesa na cena que abre, abrupta e magistralmente, o longa

Verhoeven concordou e observou que, quando se assiste a Elle, é assim que se deve levá-lo. “É esta mulher em particular e não todas as mulheres. Há um jogo perverso nesta relação entre ela e as pessoas. Há muitas nuances e ambiguidades”, acrescentou o diretor.

De fato. Uma das maiores forças do filme é justamente a ausência do politicamente correto, da moral e da humanidade ambígua de Michèlle e de todos à sua volta. Não há heróis. E nem mesmo vilões exatamente em ‘branco e preto’. “Seu pai era um homem bom, mas que cometeu um grande erro”, diz a mãe de Michèlle, ao insistir pela enésima vez que ela o visite na prisão, o que ela jamais fez durante décadas.

“Perdemos o contato com a gente mesmo, as pessoas de verdade, e acho que nossas histórias são muito mais interessantes que as de super-heróis”, argumentou o diretor. Para ele, mais que fazer filmes para ganhar milhões nas bilheterias, o importante é contar histórias que o interessem, que incomodem o espectador no melhor sentido deste incômodo que Elle causa, capaz de fazer o público rir, sentir nojo, pena, raiva. Enfim, de fato embarcar na jornada de sua protagonista.

Mas engana-se quem pensa que há alguma típica ‘jornada do herói’ na trajetória de Michèlle. E isso é também raro e ousado. “É uma tragédia, uma comédia e também suspense. Mas não vejam evolução no personagem. Não acredito nesta ideia americana de que os personagens e as pessoas evoluem. Acho que as pessoas permanecem iguais a vida toda. Eu ainda sou o mesmo menino que era aos seis anos e fazia coisas que incomodavam meus amigos”, brincou, muito verdadeiramente, Verhoeven. De fato, se por incomodar o diretor entende realizar mais filmes como Elle, que ele continue incomodando muito em seus futuros longas.

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