Imperfeito e belo. Assim como a natureza de Fernando de Noronha, onde a história se passa, que ora é verde e acolhedora no inverno chuvoso do nordeste brasileiro, ora é opaca e árida no verão escaldante, Sangue Azul é um filme de cinema. Por mais óbvia que a afirmação possa soar, é um circo de cinema montado na ousadia de contar uma história de amor impossível, do retorno à terra (ou à ilha natal), destino e fantasia, que é feito o novo longa do diretor pernambucano Lírio Ferreira.

O longa é estrelado por Daniel de Oliveira, que vive Zolah (ou Pedro). O garoto foi dado pela mãe (Sandra Corveloni) ao dono de circo Kaleb (Paulo Cesar Pereio) aos 10 anos, para que deixasse a Ilha em que vivia com ela e a irmã gêmea (Caroline Abras). Vinte anos depois ele volta, já feito homem-bala do circo Netuno, mas ainda com medo do mar e com uma paixão incontrolável pela própria irmã, que se tornou mergulhadora. É esta paixão mitológica que o diretor conta com seu filme rigoroso, mas leve, em que quanto mais fundo se mergulha, mais profundo também é o azul e seus símbolos.

O longa estreou em 4 de junho, mas continua em cartaz e, com sorte, vai tirar muitos espectadores da inércia estilística. Torcendo para que seu filme vença a ‘maldição da primeira semana’ (quando os números de bilheteria são decisivos para se continuar ou não em cartaz), Lírio Ferreira conclama: “Eu digo aos exibidores e também aos espectadores: ‘Dê uma olhadinha com afeto para o filme. Para que ele fique mais tempo em cartaz e possa ser visto por mais gente”. Pedido mais do que justo. Ao tratar de temas como incesto, sonhos, medos, sexo, drogas, de forma natural e ao mesmo tempo poética, Sangue Azul é uma cor forte e necessária na atual cinematografia brasileira.

Sobre o filme, a atual caretice da sociedade brasileira, sexo no cinema, liberdade artística e o atual momento do cinema nacional, o diretor falou ao TelaTela.

Ainda que tenha características de outros filmes seus, pode-se dizer que Sangue Azul é um filme muito diferente na sua trajetória, não?

Sim. E não. Sim porque em geral as pessoas se acostumam a identificar a obra de um diretor e achar que ele vai de fato fazer sempre o mesmo filme. De certa forma, isso é verdade. Mas também por outro lado, convencionou-se dizer que filme nacional é gênero. Assim fica complicado olhar para nossos filmes.

Se filme nacional tem de ser comédia para dar certo, tem de ser ‘filme bacana que vai para festival’ ou tem de ser ‘filme favela’. Começamos a ter subgêneros até. E, na verdade, se Sangue Azul se passasse na Ilha de Madagascar com dois tunisianos e uma trupe de circo russa, isso não faria muita diferença na história principal. É um filme universal, que mexe com sonho, fantasia, amor.

 

Esta escolha de temas universais, quase mitológicos, simbólicos, é consciente?

De novo, sim e não. Sim porque são histórias que construo em parceria com os roteiristas com quem trabalho, como o Sérgio Oliveira e o Fellipe Barbosa. Tudo faz sentido para nós no roteiro. Foi muito bom trabalhar com essa semiótica, este simbolismo das coisas. Algumas pessoas percebem, outras acham que é um exercício estilístico. Mas, para mim, tudo faz sentido.

Um sentido que não necessariamente eu tenha que explicitar, que uma reticência no roteiro vai fazer mais sentido mais para frente. Desde uma placa de carro, que tem uma mensagem em suas iniciais, até o fato de ser um circo em uma ilha, do circo ser uma ilha que se move. É uma ilha sobre uma ilha. Eu sou fã de Orson Welles, eu gosto de Rosebud. Tudo esbarra na psicologia e no estado mental dos personagens.

E do espectador também, não? Cada um entende o circo de uma forma particular. Como nasceu a ideia de unir tantos temas diversos em Sangue Azul, como o circo, o amor entre dois irmãos, o retorno à terra natal?

Há neste filme, como já comentei, intersecções com outros filmes meus, como a questão da volta a seu lugar, a presença da paisagem, o uso de frases que têm um tom não realista. Isso já existia em Baile Perfumado, que era ficção, mas, por ter um pé na realidade, era mais controlado.

Em Árido Movie isso também havia e agora em Sangue Azul há muito mais. Há um tom onírico, um final mitológico. Nada contra filmes realistas e naturalistas.

Há uma tendência do cinema mundial, sobretudo do olhar europeu sobre a cinematografia sul-americana, asiática, do Leste Europeu, do Oriente Médio.

Acho lindos esses filmes. Talvez eu venha até a fazer um filme realista, mas minha praia agora é Fernando de Noronha. Gosto de tratar de outros temas, mas acho que as pessoas ficam com o pé atrás muitas vezes. Estrangeiros já me disseram: ‘O filme é muito lindo, mas pena que é falado em português’. Como se só o David Lynch pudesse falar de sonhos e coisas mitológicas.

A gente que é do Terceiro Mundo não pode falar de cinema, de uma arte que está se oxigenando através do circo. A gente tem que falar de realidade porque é o que está batendo no Terceiro Mundo. Mas eu gosto de ousar.

Em uma metáfora até óbvia, posso afirmar que há vários mergulhos nessa história.

Sim. O azul é a cor que mergulha mais fundo. Eu mergulhei com a equipe, com os atores. Por que o mar é azul? É o céu que reflete o mar ou vice-versa? A gente vai mergulhando e o vermelho, o amarelo vão desaparecendo… O que vai ficando é o azul… Até tudo ficar escuro. Sangue Azul é a superfície, é a profundidade, é Iemanjá, é a relação entre os irmãos. Não sei. O que não há neste filme é uma verdade absoluta.

Por conta disso, o filme trata de temas polêmicos como incesto, alcoolismo, drogas, sem culpa. E isso instiga o espectador.

Exato. O longa não assume culpa de nada. O julgamento não me pertence e nem a verdade absoluta. Acho que as pessoas saem sensibilizadas mesmo do filme. Tenho ficado muito feliz.

O sexo também é um ingrediente crucial de Sangue Azul. Em um momento em que o Brasil se revela muito conservador, essa é uma tomada de posição?

O Brasil está muito mais careta. Pessoas que reclamam de um filme em que duas meninas se lambem ( Azul é a Cor Mais Quente). Outro dia vi em O Globo que o CD do Jonas Sá, cuja capa é a virilha de uma ‘boceta’, que é bonito, passou seis meses procurando uma gráfica para imprimir porque ninguém queria.

Tudo porque tem uma ‘boceta’ na capa. E no nosso cartaz, os alemães queriam tirar a cena de sexo do cartaz. Me lembro que na década de 70, havia tanto filme bom com cena de sexo no cartaz. E a gente ia ver e não só por isso. É de uma caretice o mundo hoje.

Você teme a rejeição à cena de sexo entre os personagens de Milhem Cortaz e Rômulo Braga?

Pois esse é um tema que me intriga, e quero saber mais das reações que acontecerem. Quando Wagner Moura fez Praia do Futuro, houve quem saísse indignado do cinema porque o Capitão Nascimento, o super-herói desta geração que defende a diminuição da maioridade penal, que bate panela para uma coisa mas não bate para outra, este grande herói que chega, mata e esmurra o bandido como é que pode dar o c… Não pode! No Sangue Azul, o Soldado Fábio (Milhem Cortaz) dá o c… também. Pode ter gente que fique indignada com isso! O Irandhir Santos, quando fez um homossexual em Tatuagem (de Hilton Lacerda), que no Tropa de Elite faz o deputado que defende os direitos humanos, ninguém reclamou que ele deu o c… Aí tudo bem. Já o herói não pode dar o c…

O sexo, em Sangue Azul, é como a natureza que cerca os personagens, livre e espontânea.

Sim. É libertário porque é natural, da natureza. A relação entre as pessoas vai no mesmo curso. É apenas natural que as pessoas façam sexo, como é na vida. E é natural e normal que o homem mais forte do mundo, o Inox (Milhem Cortaz), seja homossexual. Para acabar com esta caretice toda. Assim como falamos de droga, pois a droga da ilha é o álcool. Assim como é no cinema também. Vamos falar de tudo isso, de uma maneira natural, sem jogar para debaixo do tapete. Cinema é diversão para muitos, mas também pode ser algo que vá mais além.

Por que falar do amor por meio da paixão entre dois irmãos?

O filme fala de várias impossibilidades. A distância, a condição social, o grau de parentesco, como acabou sendo, a dificuldade de amar tanto que se torna difícil expressar esse amor. Não sei a hora em que me deu o estalo. Foi já em Noronha, numa manhã…

Mas posso dizer que o cinema é uma arte de irmãos, nasceu já com os irmãos Lumière. Até na leitura cinematográfica, é um amor de irmãos. As ideias foram vindo aos poucos, como ter o Ruy Guerra e o Pereio (Paulo Cesar), dois deuses do cinema, que completaram 50 anos que trabalharam juntos em Os Fuzis (1964).

Evocar o circo é uma forma de falar do momento de transição que estamos passando?

Sim. Eu sou formado em jornalismo, já joguei futebol, já fui surfista, mas decidi fazer cinema. E quando decidi isso, veio o Collor e acabou com tudo. E aí veio a Retomada… E agora a questão que se coloca é a do formato. Quentin Tarantino falou ano passado que o cinema ia acabar com a morte da película. Será?

É como o circo, que tantas vezes quase acabou, mas se reinventou, se oxigenou para sobreviver. Talvez seja esse o caso do cinema. Vai ter de se reinventar para continuar existindo daqui 50 anos, com a velocidade tecnológica com que as coisas estão acontecendo.

E por que o circo (um ilha que se move) sobre uma ilha?

Porque numa ilha tudo se concentra. Não há como sair rápido. Não tem barco para o circo ir embora logo, eles não têm para onde correr. É debaixo d’água que Zolah estaria mais protegido, mas tem medo. Não há para onde ir, tem de converger para dentro da história, da ilha, que é um vulcão. É um paraíso, mas também há a força do mar cercando tudo.

No entanto, esse não é um paraíso fácil. É selvagem.

Sim. É para nos lembrar do tamanho que temos diante daquilo tudo. Tem gente que pira e não aguenta três dias. No Nordeste tem duas estações: chuva e sem chuva. No inverno ela é mais verde, de março a setembro.

No verão, estação seca, a ilha assume mais a característica do sertão, de seca, fica marrom. Para mim, esta aridez interessava mais. Foi um desafio para a produção, pois essa é a alta temporada turística e tudo fica mais caro. Mas valeu a pena.

E seu casting, também heterogêneo, mas que tem uma liga incrível quando junto.

Desde 2007, quando nasceu a ideia do filme, queria que fosse uma ilha. Eu nunca tinha ido a Noronha com o surf. E ela foi a escolhida. O cinema me levou a Noronha. E tudo foi me levando aos atores. Também desde o início eu queria o Ruy Guerra, depois o Daniel de Oliveira entrou, o Rômulo Braga, o Milhem Cortaz, a Sandra Corveloni.

Antecipei a chegada deles à ilha para que sua atmosfera fosse impregnando nos atores. É de fato um circo de cinema. Pois chegamos à ilha como uma trupe de circo, armamos nosso circo dez dias antes de começar a filmar, trabalhamos no local. Esse foi o grande laboratório real do filme.

Por que começar preto e branco e depois se tornar colorido?

A ideia inicial é uma preocupação de não entregar a beleza logo de primeira, pois o belo pode ser algo tão incrível que pode até enjoar ou se tornar banal. Queria manter o enigma da beleza. O filme tinha de surpreender, começar sem cor mesmo e, aí sim, só a partir de doses homeopáticas, a cor e a beleza explodirem com sua fúria. Isso foi muito mais fácil para a fotografia do que para o som, pois o vento era onipresente na ilha. Integrar a natureza aos poucos, explodindo tanto na imagem quanto no som, ao final.

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