Depois de mais de vinte anos de um imbróglio que parecia interminável, Chatô – O Rei do Brasil finalmente chegou aos cinemas na quinta, 19 de novembro. Por mais que o diretor (também corroterista, produtor e, agora, distribuidor) Guilherme Fontes insista na tecla de que é hora de avaliar o longa por si só, o próprio não consegue se desvincilhar do que imagina ter sido uma batalha pessoal, ao incluir no desfecho um letreiro em que agradece a todos que o apoiaram diante do processo de “censura” que diz ter sofrido.

A frase que encerra seu filme soa não apenas como bravata, mas uma tentativa risível de reescrever seu papel na história do cinema nacional, como mártir.

Perguntado sobre o assunto pelo Adoro Cinema, em entrevista em vídeo disponível no site, Fontes diz ter sido censurado pela imprensa e pelo governo, pela marcação cerrada que a produção recebeu na hora de prestar contas. Em entrevista ao UOL, o cineasta seguiu na mesma toada, ao dizer ter sido alvo de perseguição: “O sistema, a Ancine, o MinC precisavam de um bode expiatório para criar regras e leis num mercado muito prostituído. Eles me usaram, e era fácil me usar porque sou um ator conhecido”.

Vale a ressalva de que não são poucas as pessoas no meio que acham que, num País ainda dependente de uma política pública que fomente a indústria audiovisual, o caso Chatô tenha dado munição a quem não concorde com os incentivos do Estado às produções culturais, ao mesmo tempo em que deixou clara a necessidade de uma maior regulamentação no processo e o rigor na prestação de contas, o que passa longe de uma tentativa de censura.

No mesmo dia, estreou por aqui Táxi Teerã, o novo filme de Jafar Panahi. Seria uma obra que não tem nada a ver com a cinebiografia megalomaníaca de Assis Chateaubriand, se Guilherme Fontes não tivesse reclamado para si o mesmo status do diretor iraniano, este sim vítima de uma censura ostensiva por parte das autoridades locais.

As sanções a Panahi vêm de longa data. No início, em meados da década de 90, seus filmes, que questionavam alguns aspectos da sociedade de seu País, eram proibidos no Irã. A partir de então, constam em seu currículo prisões pelas críticas que fez, além de uma sentença de não poder sair do território iraniano nem filmar por 20 anos, desde dezembro de 2010.

À essa altura, com trabalhos premiados como O Balão Branco (Camera D’Or em Cannes – 1995), O Círculo (Leão de Ouro em Veneza – 2000) e Fora do Jogo (Urso de Prata em Berlim – 2006), o diretor poderia ter se contentado com sua posição de mártir. Mas este realizador apaixonado vai além, e ainda dá um jeito de conseguir produzir.

Em 2011, Isto Não é Um Filme, longa que filmou na própria casa, tentando recriar o que seria seu próximo trabalho caso não tivesse de lidar com a proibição ao mesmo tempo em que discute a linguagem cinematográfica, foi contrabandeado rumo à Cannes num pendrive, dentro de um bolo.

Táxi Teerã, vencedor do Urso de Ouro, o prêmio principal, na última edição do Festival de Berilm tem Jafar Panahi como um taxista que roda a capital do Irã e, por meio de suas conversas com os passageiros, traça um panorama contemporâneo da cidade. Impedido de dar entrevistas ou promover suas obras, ele deixa que seus trabalhos falem por si: numa das cenas, sua sobrinha explica didaticamente o que é visto no país como um filme “exibível”, apresentando uma lista de restrições que, caso fosse seguida, resultaria num cinema completamente anódino.

Enquanto isso, qual é a grande transgressão que Chatô representa e poderia justificar a perseguição da qual Guilherme Fontes se diz vítima? Feito com o propósito declarado de ser um “Cidadão Kane tupiniquim”, o filme adota um tom farsesco onde todos os (muitos) exageros são permitidos, já que trata-se de um grande delírio do protagonista.

Mas o delírio ainda maior parece ser o de seu diretor, disposto a nos fazer crer que é uma espécie de Dom Quixote, enquanto tenta explicar à centena de veículos que o procuraram recentemente um caso que, em vez de esclarecido, fica mais nebuloso a cada declaração sua.

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