selomostra39“Eu nunca tinha pensado que esse tinha sido meu primeiro contato, e tão importante para minha formação. Mas foi logo na primeira infância, com os filmes que meu pai fazia com sua câmera 8MM, que era como a de cinema, com filme mesmo”, relembrou o cineasta Cao Hamburger no seu depoimento ao Memórias do Cinema Brasileiro da 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

“Pensando sobre essa experiência, percebo que foi bem completo, pois eu e meus irmãos éramos os personagens dos filmes do meu pai. A gente já desenvolvia uma relação com a câmera, já atuava. Além disso, havia a experiência de ver o filme, do que se filmou”, explicou ele, que é diretor de filmes como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2005), que foi premiado mundialmente e representou o Brasil no Festival de Berlim 2007, além de uma das séries de maior sucesso da recente história da TV brasileira, Castelo Rá-Tim-Bum (1997).

“Minha formação está intimamente ligada ao cinema, mas também à televisão. A gente cresceu junto com a TV. Como veículo de massa, o auge dela começa com minha geração. Eu assisti muita televisão. Minha formação da imagem em movimento vem também muito da TV”, explicou Cao.

O diretor  lembra que os primeiros programas que lembra eram os das séries para crianças e dos seriados do Batman. “Eu chegava da escola, jogava tudo pra cima para poder assistir aos seriados. Até hoje eu sou muito ligado à TV assim como ao cinema. Começou junto a minha relação com estes dois veículos.”

Quando Cao começou a trabalhar com o cinema, ele já tinha uma relação com a TV, nos anos 80, havia um grande preconceito ‘da turma do cinema” contra a “turma da TV”. “Tive um pouco que vencer a resistência dos meus colegas para convencê-los de que trabalhar com TV e cinema não era uma heresia e que uma coisa poderia completar a outra.”

Já sobre suas referências cinematográficas, Cao recordou que o primeiro filme a que assistiu no cinema foi Mogli (1967) , da Disney. “Vi em um cinema gigantesco que havia no Conjunto Nacional, o Cine Astor, onde hoje é a Livraria Cultura. Não existe mais cinema assim em São Paulo.”

O que chamou atenção do ainda menino Cao foi a capacidade da história ser longa, bem contada e a competência de Walt Disney em realizar um filme inteligente em que não se menosprezava a inteligência da criança e que se tornou referência mundial. “Ele começou a fazer longas com a fórmula que até hoje é  feito, para a família inteira, que a criança vai rir e que o adulto também vai ter interesse. Esses filmes da Pixar de hoje seguem a mesma fórmula do que Disney fazia há 50 anos”

É esta fórmula que influenciou muito o diretor a trabalhar com produtos para o público infantil, pois além de Castelo, ele atualmente exibe na TV a série Que Monstro te Mordeu (experiência transmídia que foi ao ar na TV Cultura, agora é exibida na TV Rá-Tim-Bum e no YouTube).

Cena do filme checo 'Um Dia Um Gato', que revelou um cinema não tão linear como o da Disney ao jovem Cao
Cena do filme checo ‘Um Dia Um Gato’, que revelou um cinema não tão linear como o da Disney ao jovem Cao

 

 

 

Já entre os filmes que marcaram a infância do cineasta, mas que seguem uma fórmula não tão linear como a da Disney, está o checo Um Dia Um Gato (1963), de Vojtech Jasný.

“É o oposto da Disney, que tem fantasia, humor, música, mas a narrativa é clássica. Já Um Dia Um Gato me traz uma lembrança muito forte porque é psicodélico, que tem um gato que usa um óculos, que dá a ele o poder de ver a personalidade das pessoas”, rememorou o cineasta. “A narrativa é meio esquisita. Me deu a experiência de que o mundo era complexo, não tão fácil como nos filmes da Disney, mas interessante e meio mágico.”

Lembrar dos filmes que marcaram sua infância de certa forma me ajudaram Cao a entender o porquê de seu gosto por assistir e filmar diversas histórias e diversos temas e formatos. “Eu gosto de tudo, sou fácil de gostar. Este meu jeito vem um pouco daí. Eu aprecio a beleza de Disney e de Um Dia um Gato. Me sinto livre para gostar. Não tenho muitas amarras para gostar de um certo tipo de filme ou de outro.”

Vem desta liberdade o fato de Cao ver em Stanley Kubrick um dos cineastas que mais admira. “Ele teve isso. Fez um filme de cada gênero, de comédia a terror, passando por guerra e ficção científica. Tudo que ele fez foi genial e o melhor de cada gênero. E ele gostava justamente de fazer um gênero diferente de outro. Talvez por isso que eu o admire tanto.”

Eclético, Cao tem uma formação diversa e democrática e diz: sou uma colcha de retalhos amoral. Vi muitas novelas e muitas cenas me vêm à mente quando eu filme. Programas de humor, como os do Chico Anysio. Ao mesmo tempo, fui muito a cineclubes na adolescência, vi muitos filmes da Nouvelle Vague”, relata.

O diretor conta que também viu muitos filmes do diretor sueco Ingmar Bergman, de Werner Herzog, de Wim Wenders. “Não entendia nada, talvez não estivesse pronto, mas via mesmo assim. Era um bom contraponto para esta minha tendência de ser pop e popular”, diz ele, que do cinema europeu também foi profundamente marcado por outro longa checo, Trens Estreitamente Vigiados (1966), de Jirí Menzel.

O filme 'Trens Estreitamente Vigiados', de Jiri Menzel
O filme ‘Trens Estreitamente Vigiados’, de Jiri Menzel

Apesar de sua formação diversa e do interessa no cinema de arte, Charlie Chaplin e Buster Keaton também são dois cineastas que não saem da memória de Cao.

“Chaplin é imbatível. É o cara do cinema, que inventou quase tudo. E Keaton tem um outro tipo de genialidade, nunca ri, mas faz comédia, é muito interessante”, contou o cineasta, que também é diretor da série para a HBO Filhos do Carnaval e do longa Xingu.

Apesar de tantas referencias que formaram o caráter de cinéfilo e cineasta de Cao, um deles é especial. “Ele é o cara que tem o maior domínio da linguagem cinematográfica do mundo. Quando eu estava começando a minha carreira, ele estava lançando os grandes filmes dele”, relatou o diretor.

et1

Estes filmes eram Tubarão (1975), Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e ET – O Extraterrestre (1982). “São três obras-primas, de um jeito de filmar que a gente nunca tinha visto, revolucionário. Tubarão é o pai de todos os blockbusters, que também inovou na forma de ser distribuído mundialmente”, informou o diretor, que também é fã de Sergio Leone e considera Era Uma Vez na América (1984) um dos grandes filmes da história do cinema, “capaz de unir a estética do cinema a uma história fortíssima.”

Para ele, além dos três longas terem sido três obras-primas, tinham a mesma qualidade que as obras de Alfred Hitchcock também tinham. “Adoro Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, que são muito autorais. Mas Spielberg é genial. Esses três filmes que acabei de citar tinham muita qualidade cinematográfica e também eram populares”, diz Cao.

“ET tem uma marca pessoal muito grande, dos valores da classe média americana, da infância do próprio diretor. Ele foi certamente um dos que mais me influenciaram, muito também por trazer personagens com crianças. É um pouco do que busco nos meus filmes, apesar de ser quase uma utopia fazer no mesmo modelo no Brasil, principalmente por questões de custos”, conclui Cao.

Comentários

comentários