Ainda que a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2016 para I, Daniel Blake, de Ken Loach, seja positiva, o júri revelou com sua escolha que, em vez de ousadia, premiou a trajetória do veterano cineasta britânico e a força social e política do longa. Mas inovadora mesmo teria sido a escolha do alemão Toni Erdmann para receber o grande prêmio do festival.

Dirigido pela alemã Maren Ade, de 40 anos, o longa conta a história de um pai alemão, um cara comum que vive no interior, diante da pessoa gananciosa e desconectada com suas emoções que sua filha se tornou. Ela (interpretada pela alemã Sandra Hüller, outra forte concorrente à melhor atuação feminina) vive em Bucareste, na Romênia, trabalha para uma grande empresa e vive o mundo corporativo.

Preocupado com a filha, Toni decide ir visitá-la sem avisar. Absolutamente deslocado do mundo de ternos, tailleurs, festas e encontros de trabalho, em que as relações são superficiais e ninguém é o que parece ser, Toni vira um pesadelo tão cômico quanto trágico na vida da filha.

Toni Erdmann pode parecer descompromissado a uma primeira olhada, escondido atrás das risadas que arranca da plateia, que o aplaudiu em cena aberta em várias sessões, mas traz de pano de fundo a mesma crítica de Loach a uma sociedade que massacra as pessoas em prol de uma pretensa ideia de progresso e felicidade.

Ao ignorar o filme, Cannes perde a chance de fazer história e dar a primeira Palma de Ouro individual a uma diretora. Jane Campion levou em 1993 por O Piano, mas a dividiu com Chen Kaige, de Adeus Minha Concubina. Há 23 anos uma mulher não leva o maior prêmio da Croisette.

E, se depender do júri deste ano, a questão não é importante. Não mais que se tratar de ter bons filmes para se premiar. “Sem citar nenhum específico, todos os filmes foram julgados de acordo com sua qualidade. Não me lembro de nenhum filme que discutimos sobre porque a diretora era uma mulher ou não. Fazer cinema é fazer cinema. Mas concordo. Havia filmes extremamente incríveis dirigidos por mulheres e grandes performances de mulheres e homens também”, respondeu o ator Mads Mikkelsen, quando o júri foi questionado o porquê de não premiar Toni Erdmann e a perda da oportunidade de dar a Maren sua Palma.

“A resposta para esta pergunta será a mesma dentro de 100 anos. A gente acredita que as pessoas foram escolhidas para vir para Cannes não porque são mulheres ou homens, mas sim porque são ótimos diretores”, completou o ator. Já George Miller, presidente do Júri nesta edição, observou: “Cinema é cinema. Não é porque é dirigido por uma mulher ou não”, disse o cineasta, que foi aclamado por fazer de Furiosa (Charlize Theron) a heroína de Mad Max – Estrada da Fúria.

“A nossa decisão foi a de criar uma pintura, a gente a coloriu com muitas cores. Discutimos muito e misturamos muito as tintas de algo que é muito invocativo com algo que foi feito com muita paixão”, concluiu o diretor australiano, que, à frente do júri, premiou outra diretora, a inglesa Andrea Arnold, com o Prêmio do Júri por American Honey, outro longa que também esteve entre os mais cotados para receber a Palma de Ouro, reconhecimento principal do Festival. Em tempo, a francesa Nicole Garcia também concorria à Palma por Mal de Pierres, mas saiu sem prêmios da 69a. edição do festival.

Resta a torcida para que o júri de Cannes 2017 aprecie novas, diversas e ousadas, cores.

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