Nossa Opinião

10.0
No momento em que muito se discute a crise do futebol brasileiro, o documentário poético de Eryk Rocha dá uma dica importante: a resposta pode não estar em esquemas táticos, mas sim nos traços mais elementares de um jogo que o Brasil um dia transformou em arte.
Nota 10.0

Eryk Rocha gostaria de ter mostrado ‘Campo de Jogo’ ao uruguaio Eduardo Galeano, autor de ‘Futebol ao Sol e à Sombra’, um dos relatos mais apaixonantes sobre a alma do futebol, algo que, entre muitos outros adjetivos (todos magistralmente apropriados), definiu como “uma terapia de vínculo”. O diretor lamenta não ter tido tempo para mandar seu novo trabalho ao escritor, apesar de haver trocado mensagens com ele pouco antes de sua morte, em abril deste ano.

Certamente teria recebido merecidos elogios, já que seu filme devolve ao esporte mais popular do mundo justamente algo em falta em tempos pós 7 a 1 e de escândalos padrão-FIFA: o estado de comunhão entre jogador, bola, campo e torcida que faz de cada jogo uma narrativa épica, na linha tênue entre o lúdico e o visceral.

Assista abaixo entrevista do TelaTela com o diretor:

Como cenário, Rocha escolheu um campo de terra, onde é disputada a final do campeonato entre comunidades do Rio de Janeiro. Ironicamente, ele fica próximo ao Maracanã, palco da última final da Copa do Mundo, chamado de Arena, como ficaram conhecidos os estádios adaptados ou construídos para o evento. Sem cadeiras, camarotes ou telões, a “arena” de ‘Campo de Jogo’ remete mais aos teatros da Grécia Antiga, cercada de pedras ao redor, onde o público senta para acompanhar a apresentação.

O público é convidado pelo filme a essa “terapia de vínculo”, sendo colocado em campo pela câmera, que entra no jogo como mais um participante, méritos também da fotografia, de Leo Bittencourt, e da montagem, de Roberto Vallone.

Esqueça as transmissões convencionais de futebol, cada vez mais parecidas com os vídeo games. Não há narração em off, nem depoimentos dos personagens. Há somente os sons de respiração, da bola e dos jogadores correndo, os gritos da torcida, o incentivo efusivo do técnico. E a trilha, que costura música clássica a uma percussão marcada por batuques e ritmos africanos, transformando aqueles noventa minutos em um ritual épico, um momento de celebração.

No momento em que muito se discute a crise do futebol brasileiro, o documentário poético de Eryk Rocha dá uma dica importante: a resposta pode não estar em esquemas táticos, mas sim nos traços mais elementares de um jogo que o Brasil um dia transformou em arte.

Enquanto o mundo espera pelo renascimento em campo da seleção que aprendeu a admirar, o filme vai sendo saudado pelo exterior. Passou com elogios por festivais e já tem distribuição garantida na França e nos Estados Unidos, onde entra em cartaz ainda em 2015.

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