40mostra_peqO Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki foi votado como um dos preferidos do público nesta edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A bastante simpática comédia dramática finlandesa narra a história verídica de um boxeador que teve a chance de disputar o cinturão mundial dos pesos-penas, durante o verão de 1962.

Além da habitual rotina de treinos e sacrifícios exigidos durante a preparação para uma ocasião como esta, como a perda de peso para poder lutar numa categoria que não era a sua habitual, o longa mostra a relação de Mäki com sua jovem namorada, Raija. A distância entre os dois durante o período acaba se tornando a principal preocupação de Mäki, então completamente apaixonado pela mulher que viria a ser sua esposa.

É justamente este o tempero romântico que ajuda a destacar a trama, entre tantas vezes que o boxe foi levado às telas. Humilde do primeiro ao último minuto, o personagem central parece um pouco alheio à toda comoção que acontece ao seu redor. Tanto que, às vésperas da luta, foge do treinamento em Helsinki e toma um trem até a cidade do interior onde está Raija, para encontrá-la.

Jarkko Lahti, que faz o carismático protagonista, esteve em São Paulo para apresentar o filme, seu primeiro como protagonista no cinema (antes fez papéis menores em produções escandinavas como o islandês Pardais, vencedor da Mostra-2015, além de se dedicar à companhia de teatro criada por ele) e também a estreia do diretor Juho Kuosmanen. Para um começo, não está nada mal: O Dia Mais Feliz da Vida de Ölli Maki foi o ganhador da seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes deste ano, e agora é o candidato da Finlândia a uma vaga no Oscar.

Durante sua passagem pela cidade, Lahti conversou com o TelaTela:

TelaTela – O filme é inspirado em fatos reais. O quanto do que está na tela é uma reconstituição da realidade?

Jarkko Lahti – Nós nem tivemos que inventar muita coisa. Tudo no filme foi basicamente como realmente aconteceu. É claro que, como não estávamos ali, as falas e as reações dos personagens foram ficcionalizadas, mas os eventos aconteceram daquela forma, historicamente.

Esta é uma história popular na Finlândia?

Não muito. Olli Mäki é famoso entre as pessoas mais velhas, por toda a Finlândia. Mas os mais jovens não se lembram muito dele. Embora eu venha da mesma cidade de Ölli, e lá ele é muito popular.

Há uma certa hesitação no personagem, uma relutância, que faz dele quase um anti-herói. Como foi para você construir este personagem?

Ele é um herói para mim. É um herói em todas as coisas que importam na vida: relacionamentos, as pessoas que você ama, sua família. E ele teve a visão de, mesmo com a chance de uma vida no campo profissional, pode ver que, no final das contas, na vida o que seria mais importante a longo prazo. Ele foi capaz de enxergar para além daquele suposto sucesso. Admiro muito ele por isso.

Ele sempre foi alguém muito verdadeiro consigo mesmo. Ele era um comunista na Finlândia, numa época em que isto não era a escolha mais certa se você fosse pensar apenas na carreira de boxeador. Ele não pôde participar da Olimpíada de Roma, em 1960, por causa de suas opiniões políticas, mesmo sendo o então campeão europeu em sua categoria. Ele era um dos melhores boxeadores que tínhamos, e houve uma pressão para que ele competisse, mas não houve jeito. Acredito que tenha sido devastador para ele. Acho que isto foi o fez ele largar o boxe amador (de onde são os atletas olímpicos) e se tornar um profissional. Foi muito decepcionante, eles não deixarem Olli viver o sonho de disputar os Jogos Olímpicos.

E ele já assistiu ao filme?

Sim, tanto ele como a mulher assistiram, acredito que umas sete ou oito vezes já (risos). Eles amaram o filme, e certamente para mim foi a reação mais importante. Eu poderia aguentar qualquer opinião que viesse da imprensa, desde que soubesse que eles tinham aprovado. Porque senti que a única responsabilidade que tinha, enquanto ator, era com eles, que eu honrasse sua história. Isso aconteceu, e hoje somos amigos.

Você é fã de boxe?

Sou. Mas não tinha nenhuma experiência anterior como boxeador. Durante a preparação, tive a oportunidade de treinar por quatro anos e meio para o papel. Eu tinha que saber como era estar no ringue, então cheguei a fazer lutas oficiais nas mesmas categorias que o personagem, perdi peso. Foi um mundo novo que se abriu para mim, e a comunidade finlandesa de boxe me recebeu muito bem e reconheceu meu esforço. Espero continuar treinando, mas não vou voltar a competir. Estou muito velho para isso (risos).

O cinema está cheio de filmes sobre este esporte em particular. O que faz do boxe tão cinematográfico, para você?

Como você disse, simplesmente é muito cinematográfico! Por algum motivo é algo muito fascinante de se ver através de uma lente. Não consigo explicar exatamente, mas é dramático, claro. É como uma metáfora da vida: você sozinho no ringue com um oponente, você tem que tomar conta de si mesmo e passar por muita coisa, mesmo antes de chegar àquela situação. É principalmente sobre competir com você mesmo.

Tem algum filme de boxe que seja o seu preferido?

Eu gosto muito de filmes como Touro Indomável e Menina de Ouro, mas durante a preparação não quis ver filmes de boxe para não sentir nenhum tipo de pressão ao ver outros atores fazendo estes personagens. Mas antes disso, e depois do filme, vi bastante. Daniel Day-Lewis em O Lutador é um que acho muito bom.

Na época em que se passa o filme, ainda era possível para um atleta de primeira linha levar uma vida prosaica, comum. Hoje os atletas são popstars, seria difícil pensar que uma situação como a do filme se repetisse nos dias atuais…

Concordo. Mas tenho que dizer que, na Finlândia, o boxe era um esporte muito mais popular nos anos 60 do que hoje em dia, era uma mania nacional. Só consigo imaginar como deve ter sido para o Ölli andar naquele corredor e entrar no Estádio Olímpico de Helsinki lotado, com 30 mil pessoas torcendo por este cara franzino de 60 e poucos quilos. Hoje em dia é difícil vender ingressos para lutas até de pesos-pesados no país.

Não sei ao certo porque a coisa ficou assim. Talvez porque antes nem todo mundo tinha televisão, então gostavam de se reunir em eventos esportivos. Então, neste sentido, era um acontecimento maior. Mas você tem razão, não era algo tão comercial, não havia virado um negócio. De alguma forma, era uma época mais inocente.

O que você pode nos contar sobre o cenário do cinema na Finlândia?

Nós estamos numa boa fase. Temos um certo hype dos filmes finlandeses no nosso próprio país, temos uma nova geração muito boa de cineastas e temos conseguido reconhecimento internacional no momento. É um ótimo momento. Os filmes comerciais também estão indo muito bem de público.

O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki é candidato a uma vaga ao Oscar. O quanto uma possível indicação é importante para você?

Certamente é importante. Assim como vir aqui pra Mostra de São Paulo, ou nossa participação em Cannes, é importante, tudo isso ajuda a atrair atenção para o filme. Mas nós não fazemos os filmes por causa dos prêmios. Fazemos porque é algo que amamos e queremos desenvolver a nós mesmos por meio deste trabalho, isso é o mais importante.

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