Nossa Opinião

7.0
É menos interessado em um diálogo entre os dois lados do que em servir como representação de sua ideologia. Ainda assim, a reflexão é necessária.
Nota 7.0

Muito mais do que meros veículos de locomoção, bicicletas viraram hoje um símbolo de uma rediscussão do espaço público e da mobilidade urbana como estão postos em tempos atuais. O documentário ‘Bikes vs Cars’, do sueco Fredrik Gertten, coloca mais lenha na fogueira.

Grande parte do filme se passa em São Paulo, prova de que a capital paulista é um dos epicentros mundiais do debate. Aline Cavalcante, ativista da causa, é a personagem que guia o espectador apresentando uma cidade perigosa e mal planejada para os ciclistas, mas que aos poucos vai ganhando cada vez mais “tapetes vermelhos”, a forma com que se refere às faixas exclusivas que surgem na cidade, viabilizando sua movimentação. A urbanista Raquel Rolnik, professora da USP, também é uma das entrevistas.

Enquanto isso, motoristas entediados aparecem sentados em longos engarrafamentos de até três horas, expondo uma ironia: nunca tanta gente teve condições de comprar um carro, mas quem usa carro nunca andou tão lentamente pela cidade.

O documentário, que ainda passa por Los Angeles, Bogotá, Toronto e Copenhague, questiona os interesses por trás das indústria do automóvel e petróleo, que investem dinheiro pesado em seus produtos e precisam que eles sejam consumidos. Uma lógica que, segundo Gertten, está fadada ao esgotamento e aí sim, quem sabe, veremos uma mudança que irá popularizar de vez os transportes alternativos.

Ao assumir uma postura de confronto, denunciada pelo título, ‘Bikes vs Carros’ coloca como inimigo os amantes de carros antigos numa exposição nos Estados Unidos, um vendedor de concessionária em São Paulo, um taxista dinamarquês e o ex-prefeito de Toronto, Rob Ford. Suas aparições são usadas quase como alívio cômico, já que são retratados com um olhar jocoso, transformando-os em seres de ideias patéticas dentro da narrativa do documentário. “Não tenho nada contra ciclistas, tenho amigos ciclistas que são até simpáticos”, diz o taxista gringo.

Neste “nós” x “eles”, o filme de Gertten parece menos interessado em um diálogo entre os dois lados do que em servir como representação de sua ideologia. Ainda assim, a reflexão é necessária.

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