Diferentemente do clichê que a linguagem audiovisual adota quando fala de personagens jovens e gays, Beira-Mar não tem cores carregadas, música dançante ou ritmo de edição acelerado. Em muitos sentidos, é o oposto disso: a história se desenrola de forma deliberadamente lenta, na paisagem fria de uma pequena cidade no litoral gaúcho.

A escolha por fugir destes esteriótipos norteou os diretores e roteiristas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon desde o início do projeto. “A gente não quis criar uma representação idealizada, super rápida, colorida ou frenética. As nossas juventudes não foram assim, e acredito que a da maioria das pessoas não é”, define Matzembacher, em entrevista exclusiva concedida ao TelaTela, durante a passagem do filme pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Sensível às questões LGBTQ, a dupla organiza anualmente no Rio Grande do Sul o CLOSE, Festival de Cinema da Diversidade Sexual (que em 2015 acontece entre os dias 24 e 29 de novembro, em Porto Alegre), e pretende continuar tratando o tema, que já aparecia em seus curtas, nos próximos longas, como Garoto Neon, atualmente em fase de desenvolvimento de roteiro.

“Há toda uma juventude que acaba sendo diariamente agredida moralmente e psicologicamente. O Beira-Mar foi, entre outras coisas, uma tentativa de fazer um pequeno afago nessa juventude para que eles se mantenham na luta, se mantenham otimistas”, diz Reolon.

Simples e intimista, a obra esteve numa mostra dedicada aos novos talentos na edição deste ano do Festival de Berlim, ganhou elogios da crítica internacional, rodou pelo mundo e recentemente chegou ao circuito comercial brasileiro.

TelaTela – Além de ter feito um filme que aborda o universo gay, vocês são ativistas desta causa, responsáveis inclusive por um festival anual dedicado à esta temática. Como vocês vêm a questão neste momento quem que há muita discussão sobre o assunto no Brasil?

Marcio Reolon – Eu acho que a gente vive um momento confuso no País. Por mais que a gente sinta que, socialmente, há mais abertura e que as pessoas estão ficando mais conscientes das questões LGBTQ, a gente acompanha em alguns segmentos da sociedade um crescimento do conservadorismo que é muito assustador. E aí tem toda uma juventude que acaba sendo diariamente agredida moralmente e psicologicamente.

O Beira-Mar foi, entre outras coisas, uma tentativa de fazer um pequeno afago nessa juventude para que eles se mantenham na luta, se mantenham otimistas. A longo prazo as coisas melhoram.

Filipe Matzembacher – A gente quer buscar manifestações mais diversas da existência desses jovens. O cinema, em geral, só tende a crescer quanto mais representações existirem. E no caso, acho super importante ter diversos olhares sobre as questões LGBTQ. Isso foi um desejo nosso.

MR – Assim como é importante a existência de representações mais dramáticos dessa questão, abordando os aspectos mais negativos, acho também importante trazer um otimismo e uma visão mais positiva sobre essa situação. A opção por um personagem se revelar gay e outro encarar com naturalidade foi uma escolha consciente, quase uma afirmação política.

TT – Durante o Festival de Berlim vocês disseram ter feito o filme propositadamente com a idade próxima aos protagonistas, para não caírem num sentimento de nostalgia ou melancolia em relação à juventude. Foi isso mesmo?

FM – Quando a gente era adolescente, sempre tivemos muita dificuldade em encontrar filmes que encarassem a juventude com mais seriedade, de maneira mais direta mesmo. A gente, quando começou a desenvolver o Beira-Mar, queria falar sobre juventude e queria tentar ter essa conexão mais direta. Não criar uma representação idealizada, super rápida, colorida ou frenética. As nossas juventudes não foram assim, e acredito que a da maioria das pessoas não é.

É uma época de muita dúvida, de muita incerteza. Tu não sabe onde é que está, pra onde vai, está se formando. Então a gente tinha muito essa vontade de fazer o filme o mais próximo dos personagens, pra tentar deixar isso de alguma forma registrado.

TT – No cenário de hoje, em que o Brasil começa a consolidar uma indústria audiovisual mais sólida, num momento de muita discussão social sobre diversos assuntos, qual é a função do cinema, na opinião de vocês?

FM – Eu acredito muito que quanto mais olhares plurais para o Brasil, quanto mais a gente enxergar o País e as pessoas que vivem aqui de formas diferentes, mais a gente vai conseguir construir uma realidade mais justa com todo mundo. O cinema brasileiro tá começando a realmente aumentar sua produção e estão começando a surgir esses olhares.

MR – É muito fundamental essa função do cinema de complexificar o ser humano e humanizá-lo, de forma a evitar essas bipolarizações que ocorrem, de definições muito abruptas com relação ao outro. O cinema tem um papel importante nisso, e acho que muitos filmes têm conseguido fazer isso de uma maneira muito bonita.

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