Cuba é uma presença forte no imaginário do nosso continente, e está presente com destaque em pelo menos dois filmes da mostra contemporânea, a seção principal do 10º Festival de Cinema Latino Americano, em São Paulo.

Em Las Insoladas, do argentino Gustavo Taretto, a ilha assume o papel de terra prometida, idealizada como um paraíso no qual o grupo de amigas pretende passar uma temporada, longe das obrigações e cobranças do sistema capitalista. A ação ali se passa em meados dos anos 90, ainda na era Fidel Casto, quando a internet começava a engatinhar e Barack Obama era apenas um mero desconhecido do mundo, prestes a assumir o cargo de senador pela primeira vez.

Através, dos brasileiros André Michiles, Diogo Martins e Fábio Bardella, se situa já mais próximo ao momento atual, quando os governos de EUA e Cuba retomam relações diplomáticas. A história do longa-metragem acontece na virada de 2012 para 2013, época em que Raul Castro revogava a lei da “Carta Branca”, que obrigava os habitantes a pedir autorização ao governo antes de viajar ao exterior.

’Através’ no Circuito SpCine

A partir de 26 de novembro no Caixa Belas Artes, Cine Olido e Centro Cultural São Paulo

“Além da dramaturgia, o filme é um documento histórico daquele país e sua população. Nosso olhar sempre esteve muito voltado para aquele meio. Sentíamos a obrigação de registrar aquela Cuba que estava com sua ‘mudança’ anunciada”, revela Fábio. Os três diretores falaram sobre a experiência ao TelaTela.

Da esquerda para direita, os diretores Fábio Bardella, Diogo Martins e André Michiles
Da esquerda para direita, os diretores Fábio Bardella, Diogo Martins e André Michiles

A concepção do projeto veio alguns anos antes, em 2011, quando ele e André Michiles estiveram na ilha para gravar parte do documentário Tudo Por Amor ao Cinema (em cartaz nos cinemas), de Aurélio Michiles, pai do último. Durante a viagem, fizeram um curta documentário experimental, Estação Bahia, que traçava paralelos entre Cuba e Brasil e é uma espécie de embrião para o longa. Uma das diferenças fundamentais é que agora decidiram colocar uma interlocutora na trama, uma atriz-personagem que serve como fio condutor à narrativa.

A abertura é importante para Cuba continuar seu caminho, mas é impossível se abrir para o capitalismo sem aumentar as desigualdades sociais”, André Michiles
A força na tela de Cinthia Paredes, a escolhida, é de fato impressionante. Uma presença cativante desde os primeiros minutos na pele da jovem indecisa entre permanecer no país ou mudar para os Estados Unidos, onde já estão algumas amigas e o namorado. Num registo quase documental, o road movie começa em Havana e toma o trem rumo à “Cuba profunda”, tendo como um dos destinos a cidade portuária de Cienfuegos, onde ela passa o Natal com os avós. É uma viagem pela intimidade não só de Cinthia, mas do próprio país. O filme é belíssimo, e está certamente entre os melhores da programação do Festival.

Os diretores demoraram a achar sua protagonista, mas, durante os testes, quando bateram o olho em Cinthia logo viram algo especial. “Sentimos um potencial, disposição a nos ‘aturar’ e enfrentar a jornada de deslocamentos que cruzou a ilha de oeste a leste. Ela esperava lendo um Granma [jornal oficial do Partido Comunista Cubano] e quando conversou com a gente demonstrou que apesar de muitas críticas em relação ao governo, gostaria de, se pudesse optar, ficar na ilha, ao contrário da maioria da atrizes, que queria sair”, relatam.

Apesar de não viver o dilema de sua personagem, a atriz trouxe muito de sua experiência pessoal. Os avós, que aparecem num dos momentos mais importantes e reveladores do sentimento de parte dos moradores de lá, são de fato os seus.

Como alguém apaixonado por Cuba desde os 13 anos, André Michiles fala sobre as intenções de Através: “Queríamos fazer um filme que não tendesse para nenhum lado, que não fosse mais um filme que mostra como eles se fodem e como querem ir embora da ilha desesperadamente, mas também não fazer um filme tarja branca, um filme institucional do governo”.

Cinthia Paredes, em citação a Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami
Cinthia Paredes, em plano que faz referência a Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

Além do conteúdo político, o filme presta atenção na vida comum dos habitantes de lá, algo que fascina os realizadores. Diogo Martins enumera alguns destes aspectos da paisagem cotidiana local, que permeiam o ambiente da obra: “Em todas as cidades há pouquíssimas construções verticais, muitos parques, praças e prédios históricos, mal conservados é verdade, mas estão lá. Há poucos painéis publicitários, todos do governo e mais bonitos que os nossos e suas marcas, baixo índice de trânsito, muitos pedestres usufruindo das ruas e seus bares e quitandinhas, muitos cinemas”.

“Há o exercício das caronas nos carros e a violência é visivelmente baixa. Não se sente receio em perambular em qualquer canto do país mesmo tarde da noite. Em suma, há um uso real do espaço público, a rua chama e não espanta o morador das cidades. Achei fascinante.”

E após a aproximação, com os Estados Unidos, o que pode mudar? “Em 2001, na primeira viagem que fiz, a quantidade de gente pedindo dinheiro era muito menor do que agora. A abertura é importante para Cuba continuar seu caminho, mas é impossível se abrir para o capitalismo sem aumentar as desigualdades sociais”, diz André.

Fábio vai no mesmo tom: “Acredito que esteticamente as coisas tendam a mudar, novos prédios, novos carros, essa Cuba dos carros dos anos 50, edifícios com aquele ar decadente, porém charmoso, podem sumir ou talvez virem coisa de turista e não mais uma condição de vida”.

“Quando se está lá se percebe que esta dicotomia ‘amar’ ou ‘odiar’ Cuba não se aplica muito – o povo reconhece os benefícios assim como as fragilidades do país, a análise crítica é relativizada. Não lhes pergunte o que será do futuro, não saberão lhe responder, mas sabem que querem arriscar novos caminhos”, acredita Diogo. “Todos sentem lá que as coisas inevitavelmente mudarão e sentíamos isso o tempo todo enquanto filmávamos – e isso era muito estimulante.”

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