Nossa Opinião

8.5
O filme tinha elementos de sobra para ser sombrio. Mas Asia Argento equilibra o tom com doçura e uma certa inocência, através dos olhos de sua pequena protagonista, de forma irresistível.
Nota 8.5

Cada frame de Incompreendida é uma explosão kitsch na tela. Desde as cores exageradas, aos objetos de cena, a direção de arte que se aproveita dos anos 80, os diálogos melodramáticos e as atuações exageradas dos atores, tudo é feito de forma fiel ao estilo. É uma proposta que certamente não agradará a todos, mas extremamente bem executada pela autora, a italiana Asia Argento.

Famosa no mundo da arte alternativa por sua atitude rock n’roll, Asia, que também se arrisca de vez em quando como atriz, escritora e cantora, explora as memórias de sua infância neste que é seu terceiro longa, exibido na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes em 2014.

Se a protagonista do filme, Aria (nome real de batismo da diretora), é filha de um astro de cinema, o pai da cineasta é o mestre do terror Dario Argento. Este é um fato público, mas não dá para saber – e nem vem ao caso – o quanto de Incompreendida é realidade reconstituída ou ficção. O filme nem precisa desta muleta.

Aos nove anos, Aria (Giulia Salerno) vive em um ambiente caótico, sem se sentir acolhida nem pelo pai (Gabriel Garko), nem pela mãe (Charlotte Gainsbourg). Dentro do conceito do filme, os dois adultos são caricaturas: o galã afetado e supersticioso, sempre com um ditado popular impagável na ponta da língua, e a mulher festeira e com uma queda por substâncias ilícitas.

Quando acontece o divórcio, Aria vive literalmente sendo empurrada da casa da mãe para a do pai, e vice-versa. Apesar disso, a menina tenta tocar sua vida normalmente, se agarrando como pode ao que tem nas mãos: a melhor amiga, o talento para a escrita e, principalmente, com o gato preto que adotou. A identificação entre ela e o felino, ambos marginalizados e acostumados com a rejeição, é clara.

O filme tinha elementos de sobra para ser sombrio: há pais abusivos, vícios em drogas, neuroses de todos os tipos. Mas Asia Argento equilibra o tom com doçura e uma certa inocência, através dos olhos de sua pequena protagonista, de forma irresistível.

Incompreendida faria uma boa sessão dupla com o recente Califórnia, de Marina Person. Fica a dica para que algum cineclubista faça isso acontecer.

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