selomostra39Como o diretor Miguel Gomes explica com uma narração logo no começo do primeiro volume de As Mil e Uma Noites, queria fazer um filme bonito, e que ao mesmo tempo retratasse o atual momento de Portugal. A tarefa, que lhe parecia impossível, foi cumprida com louvor com sua trilogia, uma das principais atrações da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Gomes se baseia livremente no clássico de origem árabe para construir a estrutura de sua obra. Todas as histórias apresentadas na tela dialogam de alguma forma com a crise econômica e social que desde 2013 assola seu País, ainda sofrendo com as consequências do programa de “austeridade” financeira.

Seria essa crise o rei cruel, e estamos todos, como Sherazade, criando subterfúgios para sobreviver neste mundo por mais um dia? É uma interpretação possível.

As três partes de As Mil e Uma Noites misturam a crueza de um documentário no registro, com um realismo fantástico, onde animais podem falar, sereias saem de dentro de baleias, e o grão-vizir dá voltas em uma roda gigante.

Dividida em filmes diferentes, e, dentro destes filmes, em pequenos contos, a trilogia tem uma certa irregularidade no andamento, como é natural em projetos com este perfil, mas mantém a coesão conceitual de sua proposta: narrar histórias de diferentes partes de Portugal com uma olhar sensível, revelando uma riqueza que não se mede em dinheiro.

O Volume 1 – O Inquieto é o mais contundente dos três, pelo conto que satiriza um encontro entre políticos para decidir os rumos da economia local, e pelo último, O Banho dos Magníficos.

Este mostra um homem em busca de apoio para manter um ritual tradicional de sua cidade, feito todo 1º de janeiro. Em seu escritório improvisado, ele recebe homens de meia-idade que contam histórias de desemprego e desesperança, mas seguem dispostos a renovar o espírito com a chegada do novo ano.

Escolhido pelos lusitanos para representá-los na disputa do Oscar de filme estrangeiro, o Volume 2 – O Desolado tem seu grande momento no capítulo As Lágrimas da Juíza, metáfora para a crise social e de valores. Nele, uma magistrada chora ao ver a sequência de acusações entre homens (e outros seres, como uma vaca), num mundo onde ninguém é inocente.

Não há espaço nem para o eterno melhor do amigo do homem, como atestam as mudanças de destino de Dixie, o cão que protagoniza o conto que fecha esta segunda parte.

Quem tiver fôlego para encarar ainda o Volume 3 – O Encantado verá uma divertida história sobre as origens de Sherazade – que inclui um romance com um rapper chamado Elvis – e um extenso relato sobre um campeonato de pássaros cantores, este com suporte excessivo de letreiros que prejudicam o ritmo do filme.

Ao final das mais de seis horas de As Mil e Uma Noites, há um retrato singular de Portugal, e mais uma prova do talento de Miguel Gomes, realizador que acredita no lirismo como uma das formas de aplacar os efeitos da crise.

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Nossa Opinião

8.0
Dividida em filmes diferentes, e, dentro destes filmes, em pequenos contos, a trilogia tem uma certa irregularidade no andamento, como é natural em projetos com este perfil, mas mantém a coesão conceitual de sua proposta: narrar histórias de diferentes partes de Portugal com uma olhar sensível, revelando uma riqueza que não se mede em dinheiro.
Volume 1 - O Inquieto 9.0
Volume 2 - O Desolado 8.0
Volume 3 - O Encantado 7.0