botaooscarCharlie Kaufman é um dos autores mais cultuados do cinema independente norte-americano recente. Roteiros como Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança (que lhe valeu o Oscar) têm sua assinatura e ajudaram a formar uma geração de cinéfilos dispostos a entrar em seu mundo de ideias tão originais quanto bizarras: um portal que leva ao cérebro de um celebrado ator, uma empresa que apaga memórias… Tudo é permitido e, o que é melhor, tudo faz sentido dentro dos universos que constrói.

Era de se imaginar que a grife Kaufman fosse suficiente para garantir o sinal verde para qualquer produção. Mas ultimamente não tem sido bem assim. Nos sete anos que separam Sinedóque, Nova York (sua estreia na direção) e Anomalisa, o roteirista viu uma sucessão de portas fechadas para cada novo projeto que tentou emplacar.

Entre estes, estava o musical Frank or Francis, sobre a rivalidade entre um cineasta e seu crítico mais ferrenho, que chegou a ter gente como Jack Black, Steve Carell e Nicolas Cage escalados no elenco e não pôde ir à frente por restrições no orçamento.

Ele também chegou a desenvolver a base de uma série para a HBO, posteriormente recusada por ser pouco convencional. Tentou levar a mesma premissa a outros canais, além do Netflix e da Amazon, mas ninguém quis comprar. Uma situação angustiante, bastante similar às vividas pelos personagens que inventa.

Nossa Opinião

8.5
Pode-se dizer que este é o filme mais sombrio de Charlie Kaufman, e ver algo tão complexo ser tratado na forma de animação em stop-motion, que adiciona um elemento robótico aos personagens, ajuda a dar ar ainda mais inusitado e impactante.
Nota 8.5

Anomalisa, sua volta por cima, começou a tomar forma no teatro. Kaufman foi convidado pelo compositor Carter Burnwell (responsável pela trilha de Quero Ser John Malkovich e Adaptação) a participar de uma experiência. O desafio era criar um texto que seria interpretado por atores que não seriam vistos pelo público, mas apenas ouvidos. Quase como uma rádio novela ao vivo. As apresentações foram um sucesso.

Esta gênese explica muito do conceito, que só foi transformado em filme após a insistência do especialista em animação Duke Johnson (co-diretor) e uma campanha de financiamento coletivo no site Kickstarter.

Na trama, Michael Stone (voz do britânico David Thwellis) é um especialista em atendimento ao consumidor que viaja até a cidade de Cincinatti, onde dará uma palestra. O sujeito está tão entediado, não apenas com aquele quarto de hotel, mas com a vida em geral, que para ele todas os cidadãos do mundo falam do mesmo jeito e, inclusive, têm a mesma voz.

Não importa se são sua mulher, seu filho, o taxista ou o recepcionista do hotel. Todos são iguais e, por isso, não geram nele nada que não seja um muxoxo. Em um ato desesperado, Michael corre pela madrugada no corredor batendo de porta em porta, em busca de algo que possa lhe tirar da apatia. E é aí que conhece Lisa (dublada graciosamente por Jennifer Jason Leigh, uma atriz cujo merecido redescobrimento continua também em Os Oito Odiados).

Kaufman sabe explorar como poucos as neuroses do homem classe média-padrão contemporâneo. O protagonista de Anomalisa, por exemplo, é bem sucedido na carreira e aparenta ter um casamento estável, mas nem por isso está livre de ser atormentado pelo vazio existencial.

Ironicamente, Michael escreve livros e é pago para falar sobre como tratar indivíduos de acordo com suas personalidades, embora ele próprio pouco veja esta tal individualidade nas pessoas que cruzam seu caminho. É o típico solitário na multidão.

“As coisas podem dar certo, esta é a lição”, diz a ele Lisa, numa cena supostamente romântica. “Às vezes não há lição, e esta é uma lição por si só”, é a resposta, que encaminha um desfecho nada redentor, mas sim altamente depressivo – pode-se dizer que este é o filme mais sombrio de Charlie Kaufman, e ver algo tão complexo ser tratado na forma de animação em stop-motion, que adiciona um elemento robótico aos personagens, ajuda a dar ar ainda mais inusitado e impactante.

A recepção da crítica tem sido das melhores que o autor já teve. Anomalisa levou o prêmio do júri no último festival de Veneza e uma indicação ao Oscar de melhor animação, onde concorre, entre outros, com o brasileiro O Menino e O Mundo e o virtual vencedor, Divertida Mente. O reconhecimento certamente não diminuirá o ímpeto inquieto de Kaufman. Mas se abrir caminho para que um próximo trabalho não demore tanto a se concretizar, o mundo do cinema agradece.

anomalisa

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