Nossa Opinião

8.0
Série é um jogo elaborado de estética e insanidade que cria cenas perturbadoramente deliciosas
Média 8.0

Poucas séries de TV no ar hoje têm nos oferecido tamanho talento como Hannibal com o incomparável ator dinamarquês Mads Mikkelsen. Se nada mais valer, é o protagonista de A Caça, excelente drama pelo qual Mikkelsen recebeu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. No longa, ele é um professor de ensino infantil que passa a sofrer perseguições quando é acusado por uma garotinha de ter abusado dela sexualmente.

Agora, ele dá nova roupagem a um dos vilões mais fascinantes da cultura pop, estrelando banquetes sádicos em que oferece carne humana a candidatos incautos, e às próprias vítimas por vezes. Tudo em plena televisão. Um jogo elaborado de estética e insanidade que cria cenas perturbadoramente deliciosas.

Diferentemente do que conhecemos no cinema, Hannibal aparece na primeira temporada da série como um psiquiatra encarregado de ajudar um investigador a serviço do FBI, Will Graham (Hugh Dancy), a livrar-se da tortura que vive ao experimentar visões realistas nas cenas de crime que visita. Ao tentar se tratar da doença de empatia de que padece, Will encontrará justamente o oposto no divã do dr. Hannibal, que tece uma tenebrosa teia para torná-lo cada vez mais dependente de si.

No Brasil

A terceira temporada estreia no canal AXN na sexta-feria, 3 de julho, às 22h.

Se a relação entre os dois dá o tom nas duas primeiras temporadas, a terceira nos permite começar a se aprofundar na psique de um psicopata tão sexy quanto aterrador. Talvez o maior mérito de Mads esteja justamente em não tentar emular o que já conhecemos e foi feito pelo inigualável Anthony Hopkins e trilhar caminho próprio. Seu mais breve olhar traduz uma perversidade que poucas vezes se vê de forma tão genuína na televisão. E pensar que, entre uma cena e outra, ele sai do personagem e dança, à Fred Astaire, pelo set, fazendo juz ao figurino sempre cuidadosamente composto.

Mais do que o protagonista de moral duvidosa em que toda boa série aposta desde Família Soprano e Breaking Bad, temos um mocinho cuja palpável vilania entorpece o espectador. Já não é mais possível colcoar Will e Hannibal em pontas opostas de alguma régua moral que separe o Bem do Mal. Seria inimaginável pensar que certas cenas teriam qualquer chance de serem filmadas e exibidas por um programa de televisão, não fosse o fato de que é a exatamente isso que estamos assistindo.

Apesar do grande apelo estético e das críticas normalmente bastante positivas que recebe, a série tem seu futuro ameaçado. Nesta semana, o canal norte-americano NBC anunciou que exibiria a terceira temporada na íntegra, mas que não iria encomendar um quarto ano da produção. É verdade que a audiência nos EUA não anda acompanhando as resenhas que a série recebe, mas mesmo esses números vinham apresentando certo crescimento recentemente. O último episódio foi visto por pelo menos 1,7 milhão de espectadores no país.

“Temos muito orgulho de Hannibal ao longo de suas três temporadas. Bryan e seu time de roteiristas e produtores, ao lado de atores incríveis, criaram uma paleta visual para contar uma história sem precedentes na história da televisão – seja a aberta, seja no cabo”, afirmou a rede em comunicado.

Por sua vez, o criador Bryan Fuller respondeu deixando uma fresta aberta, de certa forma. “A NBC nos permitiu talhar uma série de televisão que nenhum outro canal teria coragem de fazer e nos manteve no ar por três temporadas, a despeito da audiência e das imagens de arrepiar os olhos”, disse. Acrescentando: “Hannibal está terminando seu percurso na NBC, mas um canibal faminto sempre pode jantar novamente”.

Vale lembrar que, quando o primeiro ano do drama apresentava problemática semelhante, ele disse em algumas entrevistas que sempre esteve certo de que a série teria mais tempo de vida, deixando no ar a especulação de se haveria, afinal, um outro interessado no produto.

Ele, aliás, só é possível por causa de um acordo entre a NBC e a Gaumont International, que baratearam seus altos custos. Cabe especular agora: se temos mais de uma empresa bancando uma produção, pode ser possível que, se a primeira perdeu o interesse, a segunda pode procurar outros parceiros.

Se até séries bem menos interessantes, como Cougar Town ou Heroes, para ficar só nessas, mereceram uma segunda chance a despeito de tudo, por que não pensar em uma continuação num canal a cabo ou mesmo num serviço sob demanda?

Se isso acontecer, a expectativa é encontrar também uma releitura da agente do FBI Clarice Starling à altura do que Mads fez com o protagonista. Teríamos ainda a oportunidade de conhecer ainda outra adaptação dos livros que deram origem a tudo, já que se espera que este terceiro ano dê conta de boa parte dos acontecimentos do primeiro livro, Dragão Vermelho (que já teve sua própria versão para o cinema em 2002).

Há alguns anos, o concerto de cenas desconcertantes que é Hannibal seria impensável até num canal a cabo americano. Na TV brasileira, que mal da conta do afeto se ele acontece fora de padrões limitadores de sexualidade, e em que séries de canais pagos parecem casadas com a caretice, a distância é ainda maior. Diante disso, perder uma produção como esta seria uma perda grande para qualquer fã de série.

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