O maior, mais badalado e prestigiado festival de cinema do mundo comemora 70 anos em 2017 e exibe nesta quarta o novo filme de Arnaud Desplechin, Les Fantômes D’Ismael, na gala de abertura. Será uma edição histórica, que ocorre de 17 a 28 de maio, do festival criado em 1938 para rivalizar com o então dominado pelo nazi-fascismo Festival de Veneza, que só conseguiu de fato ser realizado depois da Segunda Guerra Mundial, em 1947.

Nos anos 50, Cannes viveu sua década de ouro e viu, ao longo das décadas, seu caráter quase turístico se tornar a meca da cinefilia mundial e, a partir daí, também o epicentro dos encontros entre produtores, compradores, distribuidores, curadores e afins, todos em buscas de grandes filmes. Hoje, mais do que tudo, Cannes não é um festival só para jornalistas e críticos (que de fato conseguem ver muitos filmes, mas que pouco frequentam os tantos coquetéis e festas ao longo da Croisette, a avenida à beira-mar da cidade).

Cannes é um festival para (quase) todos. Dos que vão para fazer negócios no despojado, mas badalado Petit Majestic (um simpático bar na rua paralela à Croisette, onde muitos acordos e encontros já aconteceram). Dos que vão para desfilar no tapete vermelho de uma ou outra gala do Palais des Festivals. Dos que vão mostrar e vender seus filmes no Marché du Filme. Dos que participam das mostras paralelas, e muitas vezes mais ousadas que a seleção oficial, Quinzena dos Realizadores e Semana da Crítica. Enfim, apesar de praticamente exclusiva para os profissionais do cinema (ainda que haja sessões abertas aos público), Cannes é um festival democrático.

E para celebrar, prova que o jogo nunca está ganho e celebra também as novidades do mundo do audiovisual. Cannes não só preparou pequenos mimos para os cinéfilos como lançamentos de livros, duas masterclasses especiais de Clint Eastwood e Afonso Cuaron, mas também traz uma seleção oficial que foge do visto nos últimos anos, quando não só em competição quanto em sessões hors-concours Hollywood fazia mais barulho na Riviera Francesa que até mesmo os ganhadores da Palma.

Este ano, salvo Nicole Kidman que chega para exibir quatro trabalhos – O Estranho que Amamos, de Sofia Coppola, Como Conversar com Estranhos (How to Talk to Girls at Parties), de John Cameron Mitchell, e The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos e a segunda temporada de Top of The Lake – poucas grandes estrelas do cinemão vão competir à Palma ou estar tão presente na Croisette.

Provando que é sempre tempo e lugar de se experimentar, Cannes sinaliza para a vigorosa produção da TV atual e para o on demand e traz uma sessão especial com os dois primeiros episódios da aguardada nova temporada de Twin Peaks, do mestre David Lynch, e da já citada Top of the Lake, de Jane Campion (única mulher a levar uma Palma para casa, por O Piano, em 1993).

Já a Netflix chega e causa na Croisette com duas produções: Okja, do sul-coreano Bong Joon-ho, e The Meyerowitz Stories, do americano Noah Baumbach.O motivo da ‘causa’ é que, por conta da não intenção do canal on demand em lançar os dois longas nas salas de cinema da França, a organização, que tem Thierry Frémaux e Pierre Lescure à frente, redefiniram as regras e a partir de 2018 todo filme que concorrer na seleção oficial de Cannes terá que ser lançado em cinema no país.

Para botar o pé de vez no futuro, o festival exibe a produção 3D de Alejandro Gonzalez Iñarritu, Carne e Areia. “É um filme maravilhoso. Vocês vão poder comprovar”, afirmou Frémaux.

A competição oficial conta ainda com nomes fortes como Michael Haneke (duas vezes Palma de Ouro, por A Fita Branca e Amor), com Happy End (em se tratando do diretor austríaco, o título, Final Feliz, só pode ser uma grande ironia), Todd Haynes, com Wonderstruck, François Ozon, com L’amant Double, Naomi Kawase, com Hikari (Radiance) e a já citada Sofia Coppola, com o Estranho que nós Amamos, entre outros.

Espectativa grande para o que o grego Yorgos Lanthimos, um dos mais geniais cineastas da atualidade, traz com The Killing of a Sacred Deer. Lanthimos, que concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro por O Lagosta, já levou o prêmio principal da mostra Un Certain Regard em 2009 pelo insólito Dente Canino.

Cena de ‘Gabriel e a Montanha’, de Fellipe Gamarano Barbosa.

O Brasil, assim como os demais latinos, fica fora da disputa pela Palma de Ouro este ano. Mas o País está bem representado na Semana da Crítica, uma das competições paralelas de Cannes (ao lado da Quinzena dos Realizadores), com o longa Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa, e com Kleber Medonça Filho (de Aquarius, que concorreu à Palma em 2016 e, entre protestos e aplausos, trouxe de volta à Croisette a genial Sônia Braga) presidindo o júri da seleção.

Já quem preside o júri oficial do Festival é Pedro Almodóvar, que fez uma passagem sem grande estardalhaço em 2016 com Julieta. O cineasta espanhol vai ter a companhia de Will Smith, da diretora alemã Maren Ade (que competiu em 2016 com o ótimo Toni Erdmann, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), a atriz amerina Jessica Chastain, a atriz e produtora chinesa Fan Bingbing, a atriz, roteirista diretora e cantora francesa Agnès Jaoui, o cineasta sul-coreano Park Chan-wook (de Old Boy e A Criada, que concorreu à Palma em 2016), o diretor italiano Paolo Sorrentino (figura muito grata de Cannes, que levou o Prêmio do Júri por Il Divo em 2008 e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por A Grande Beleza) e o compositor francês Gabriel Yared.

Na mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar), que destaca novos cineastas e formas mais livres de se contar uma história no cinema, é Uma Thurman quem preside o júri. Uma das atrizes mais queridas de Cannes, ela começou a carreira aos 17 em Ligações Perigosas de Stephen Frears, integrou o júri oficial em 2011 (presidido por Robert de Niro) e desfilou várias vezes pelo tapete vermelho do Palais des Festivals com Quentin Tarantino: com Kill Bill (volumes 1 & 2) e com Pulp Fiction, que levou a Palma em 1994.

A quinzena cinéfila está só começando e o TelaTela acompanha dia-a-dia esta edição especial.

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