Três longas brasileiros muito distintos entre si, mas cada um representando faces do novíssimo cinema nacional, ganharam destaque na mostra Panorama do  Festival de Berlim 2016.

Enquanto Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert levou a cineasta, premiada pelo público da Berlinale em 2015 por Que Horas Ela Volta?, de volta ao palco onde a carreira marcante de seu longa anterior começou, e o experiente Marcos Prado (que dirigiu Estamira e levou, como produtor, o Urso de Ouro 2008 por Tropa de Elite) exibiu seu documentário Curumim na capital alemã, a dupla Fábio Baldo e Sérgio Andrade fazia sua estreia em Berlim e  era só expectativa diante da recepção que o público e os jurados teriam quando vissem o primeiro longa da dupla: Antes o Tempo Não Acabava.

Ao longo da semana, Mãe Só Há Uma e Curumim tiveram recepções positivas e surpreendentes na Berlinale. Com seus estilos e temas, cada um apontou para novos caminhos do cinema que o Brasil vem produzindo e ganhando espaço nos festivais internacionais. O mesmo ocorreu com Antes o Tempo Não Acabava. De olho na produção que foge ao eixo Rio-São Paulo, a comissão de seleção da Berlinale escolheu o representante da cena amazonense do audiovisual brasileiro para discutir a questão do indígena urbano, que transita entre suas raízes ancestrais e a vida nas grandes cidades.

“Os índios que filmaram com a gente, diziam que ‘quando se traz uma cobra do Japão, ela nunca vai deixar de ser cobra. A gente índio também é isso. Se eu venho lá da fronteira com a Colômbia e vou para Manaus, eu continuo índio. Não vou virar branco’. E isso está, não por acaso, no filme”, comenta Sérgio sobre o longa. A première de Antes O Tempo Não Acabava para o público de Berlim ocorreu na quinta-feira, dia 18, e lotou o imenso Zoo Palast.

“A sessão estava lotada. Não vimos ninguém se retirar. Foi aplaudidíssima. E Anderson Tikuna ovacionado. Muito emocionante mesmo”, contaram os diretores ao TelaTela.

Até quinta, o longa, uma bem sucedida coprodução das brasileiras Rio Tarumã Filmes (de Sérgio Andrade) e 3 Moinhos Produções (de Ana Alice de Morais) com a alemã Autentika Films (do brasileiro radicado na Alemanha Paulo de Carvalho e de Gudula Meinzolt), havia tido somente sessões de mercado, para compradores e distribuidores internacionais, e para imprensa. Nesta sexta, dia 19, tem sua segunda sessão para público e no sábado, 20, sua terceira.

Anderson Tikuna é ator e personagem real do longa que retrata a juventude indígena dividida entre os rituais ancestrais e a vida moderna
Anderson Tikuna é ator e personagem real do longa que retrata a juventude indígena dividida entre os rituais ancestrais e a vida moderna

 

Em busca de sua identidade e de sua sexualidade – O filme conta a história de Anderson (interpretado pelo ator Anderson Tikuna), um jovem indígena que deixa sua aldeia na fronteira com a Colômbia para descobrir na metropolitana Manaus, incrustrada em plena selva amazônica, não só sua identidade multifacetada mas também sua sexualidade, é um farol do cinema que o norte do Brasil vem cada vez mais produzindo e que ganha atenção no exterior e merece também olhar atento do próprio brasileiro.

“A experiência no festival foi inacreditável, maravilhosa. O dia inteiro (da première para o público), na verdade. Ganhamos uma press conference que fica por um ano disponível no site da Berlinale”, comentou Sérgio, que é manuara, que já assinou um longa anteriormente, o elogiado A Floresta de Jonathas (2012), que viajou para mais de 30 festivais no Brasil e no mundo, além dos curtas Criminosos e Um Rio Entre Nós.

Já Baldo é paulista e assinou curtas como Caos (2010), Da Origem (2011), É Tudo Lágrima (2013) e Geru (2014), que foram selecionados por diversos festivais brasileiros e internacionais, tais como Clermont-Ferrand, na França.
Foi no festival francês, aliás, o mais importante de curtas do mundo, que Sergio e Fábio se conheceram. Desde então a vontade de dirigir um longa em parceria só cresceu. E deu certo. “A gente se complementa. Eu tenho um início do pensamento de uma coisa e ele completa. Às vezes é ele quem começa e eu continuo. No set foi muito este espírito também”, comenta Sérgio. “É difícil achar parcerias assim, que funcionam muito bem”, continua Fábio.

Quando nasceu a ideia de Antes o Tempo não Acabava, surgiu também a chance de finalmente dirigir um longa a quatro mãos. “Além disso, eu também era produtor de Antes, além de diretor. O Fábio veio preencher uma lacuna de enfatizar muito a direção. Foi uma simbiose muito boa”, explica Sérgio, que se apaixonou pelo cinema ainda menino, quando foi escalado para fazer figuração no clássico Fitzcarraldo (1982) de Werner Herzog, aos 13.

“Colocaram um fraque, uma cartola em mim e nos meus amigos e fomos lá fazer figuração. A casa do meu pai é do lado do teatro (a ópera de Manaus). Hoje é um restaurante, mas eu nasci e cresci naquela casa. Vi o set do Werner Herzog, com Klaus Kinski, Claudia Cardinale e eu entrei naquilo. Ali nasceu minha paixão por cinema”, relembra o diretor. “Quando a gente foi com o Floresta de Jonathas para a Alemanha, a gente contava esta história e eles amavam.

Anderson Tikuna deixa sua aldeia na fronteira com a Colômbia para descobrir em Manaus não só sua identidade, mas também sua sexualidade
Anderson Tikuna deixa sua aldeia na fronteira com a Colômbia para descobrir em Manaus não só sua identidade, mas também sua sexualidade

A hora e a vez do Homem do Norte – No entanto, há muitas outras histórias que Sérgio, e outros jovens cineastas do norte brasileiro, querem contar. Com o longa, a dupla revela mais um ponto da produção de cinema do norte do Brasil e das histórias até então pouco reveladas em filmes de ficção dirigidos por cineastas locais. “Além disso, há o protagonismo do homem do norte e, principalmente o índio como o do nosso filme, que está em uma zona intermediária, que transita entre o que ele foi de nativo da floresta e o homem urbano que ele pretende ser e que está se tornando”, observa Sérgio.

“É uma zona híbrida muito interessante. O cinema brasileiro já privilegiou muito o homem do sudeste, depois veio o homem do nordeste com os cangaceiros… agora houve o Recife, com os filmes mais atuais. Até o sul, com os homens dos Pampas, mas a gente não vê o homem do norte muito presente. A não ser documentários que acabam falando de algo muito estereotipado, folclórico. A gente realmente não vê filmes de ficção com o homem da Amazônia, com o homem do norte”, completou o manuara.

Sobre a ideia de contar a história dos indígenas urbanos, de Anderson, a parceria e sobre Berlim, os diretores conversaram com o TelaTela:

Há poucas histórias e filmes brasileiros que contam histórias dos indígenas brasileiros que transitam entre suas tradições e a modernidade, como Iracema (1974), de Jorge Bodanasky, mas o indígena como protagonista de sua própria história, na ficção, mais atuais se resumem a Tainá, não?

Sérgio: Exatamente. Além do nosso, que lança este olhar para este personagem tão especial e ao mesmo tempo tão comum do norte do Brasil, há alguns projetos sendo gestados, como A Febre, da cineasta Maya Darin, que ela vai filmar em Manaus. Parece ser muito bom. Ela foi selecionada pelo programa Cinefondation de Cannes e pelo fundo Huber Bals. E é muito bom Berlim lançar este olhar para o nosso filme.

Fabio: Acho que a curadoria de Berlim procura olhares diferentes sobre estas questões hoje em dia. Pense na quantidade de filmes que devem chegar ao festival e que tratam disso por meio de estereótipos.

SérgioAntes o Tempo não Acabava não faz muitas concessões para explicar nada. Isso é bom para o público da Panorama, que é sempre muito atento e questionador.

Os diretores Fábio Baldo e Sérgio Andrade em frente ao Berlinale Palast
Os diretores Fábio Baldo e Sérgio Andrade em frente ao Berlinale Palast

A diretora Marcela Boreli, do longa Taego Ãwa, sobre os indígenas conhecidos pelos brancos como Ava-Canoeiros, comentou no Festival de Tiradentes, em janeiro, que o Brasil tem que aprender a viver com o índio urbano, que o fato de viver na cidade não o faz deixar de ser indígena. Concordam?

Fábio: Sim. Exatamente. Mas percebo que alguns que fazem esta mudança também não se identificam mais como indígenas. Eles enxergam o indígena como sendo o outro e não eles, como se abandonassem suas identidades. O filme é um pouco sobre esta dicotomia de um personagem que está ligado a um passado cheio de tradições e ritos e um mundo novo que se abre neste ambiente urbano, cheio de vida.

Sérgio: Muito por isso o indígena que finalmente ganha espaço no cinema é também porque eles perderam um pouco a voz nos últimos anos. As políticas públicas para a questão dos índios são muito fracas. Então, acho que o cinema acaba de certa forma tendo a incumbência de dar voz a essa gente que tem uma mentalidade que não pode ser encarada apenas como a de ‘alguém que compõe uma floresta’, um ser apenas silvícola. Não. Eles têm uma cultura, uma forma de pensar. Acho que por isso tudo queremos mostrar o que acontece com o indígena, seja do Mato Grosso, como o Felipe Bragança filmou há pouco, seja o Taego Ãwa, seja a gente em Manaus. Nós temos esta função agora.

A ideia é sempre a de humanizar o personagem e revelar as nuances que há em cada comunidade, em cada indivíduo?

Fábio: Sim. É ir para além do exotismo e dos estereótipos, e nunca tratá-lo como um objeto. Isso está impregnado na forma como conduzimos a narrativa, tentando enxergar tudo através do olhar do Anderson, e assumindo também muito da nossa visão pessoal sobre as questões indígenas atuais. No fundo, não há um comprometimento antropológico ou etnográfico, a ficção que criamos parte muito da nossa observação acerca da movimentação dos índios em contextos urbanos. Acho que neste sentido conseguimos um filme bastante único.

Sérgio: No Brasil, não se sabe que existe esta realidade, esta parte da Amazônia que é agrícola, intermediária entre a floresta e a cidade, que é rural. É muito distante do sudeste. Sentia isso desde o Floresta de Jonathas, quando a gente falava de uma juventude que nasce nesse meio e que não está inserida no contexto cultural e normativo brasileiro. É muito bacana poder fazer isso. Desde o Cachoeira (2010), o curta, venho querendo trabalhar com isso. E o Fabio se juntou a isso, pois ele também tem a vontade muito grande de revelar esta dualidade do Brasil, que é muito forte.

Sérgio, como foi trabalhar uma questão tão local, ainda que universal, pois estamos falando da descoberta da individualidade, da identidade, com um diretor paulista?

Foi ótimo. O Fábio realmente gosta de Manaus, da realidade, das pessoas. Não é só questão de trabalho. É de se envolver e mergulhar com a gente na história. Há coisas de lá que a gente não consegue entender. E é por isso que a gente faz filme. Para tentar entender. Eu faria milhões de filmes lá.

E é um Brasil tão fascinante. E as outras regiões do País ainda precisam descobrir.

Sim. Exatamente. E estar em Berlim chama esta atenção para a gente, para estas histórias. É muito bom. A própria Manaus, cujo nome vem da tribo dos Manaós, que foram dizimados. A cidade nasceu em cima de um cemitério indígena.

Fabio: Manaus é uma cidade que, apesar de estar dentro, dá um pouco as costas para a floresta. E, ao mesmo tempo, sente-se muito intensa a energia e a presença da floresta.

Longa é falado em diversos idiomas indígenas e será exibido no Brasil também com legendas
Longa é falado em diversos idiomas indígenas e será exibido no Brasil também com legendas

Vocês costumam dizer que Antes é quase um filme estrangeiro, pois há a quatro idiomas indígenas: ticuna, saterê, inhaguetu e tariano, diferentes sendo falados. Como foi dirigir em outro idioma?

Fábio: Foi interessante, um desafio. A gente acabou misturando bastante as etnias. O filme, no sentido dos diálogos, é quase como se fosse um filme estrangeiro. Isso porque a gente usa bastante idiomas misturados. Cada um fala em seu idioma e a gente fica até confuso sobre o que está acontecendo, pois tínhamos confiança no roteiro, que eles já conheciam e um certo descontrole sobre como era dito. Os atores são destas etnias. Anderson é mesmo ticuna. É um filme com legendas.

Sérgio: A gente não sabia exatamente como era dito, mas sabia que eles tinham um roteiro com as falas. Dentro do contexto todo, o que eles falam está no roteito. E eles entre eles falavam cada um em sua língua. Porque sabiam que a história unia todas os idiomas. Na história, o Anderson é filho de um saterê com uma ticuna. E eles, os índios urbanos, se chama de parentes. Dizem “me parente é tucano…”.

Esta mistura é outra característica que a gente, urbano, não conhece.

Sérgio: Sim. Esta miscigenação faz parte da cultura deles. E o que nasce desta mistura é muito interessante. Há outras coisas, como, a adesão de muitos índios urbanos estão se convertendo às igrejas evangélicas. A gente vê um povo aderindo a uma empresa de fé, que também acontece com os brancos. Mas parece que com o índio fica mais deslocado. No caso do Anderson, é mais uma questão existencial mesmo. É mais uma questão de identidade com as tradições da etnia dele e o novo mundo que ele encontra na vida urbana.

Fábio: A construção do personagem é dicotômica. Ele está sempre tendendo para um lado e para o outro, de tradição e movimento urbano.

Sérgio: A busca dele é sempre em busca de uma confusão, mas em torno da liberdade, de querer estar livre. De querer estar em um ponto razoável entre os dois mundos em que ele transita. Ele quer se sentir índio,mas, ao mesmo tempo, ser do tempo dele. E ter o que o mundo dos brancos pode dar.

A descoberta da identidade sexual de Anderson também é uma questão que dá mais uma camada de complexidade ao filme, não?

Sérgio: Sim. Há também a questão sexual. O filme fala da diversidade sexual. O personagem, além de buscar sua identidade cultural, busca sua identidade sexual. É muita coisa. E caiu tão bem no Anderson Tikuna, o ator. Ele foi talhado para o papel. O Anderson tinha feito uma ponta, tocando guitarra na floresta. Ele está comigo desde o Cachoeira, em que tinha uma presença expressiva. A gente foi escrevendo o roteiro pensando nele. Ele era o personagem.

Fábio: A gente buscou outros atores, fez testes. Mas no final das contas vimos que o Anderson era o nosso personagem.

 

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