Quando um filme trata de questões indígenas, o assunto é sempre complexo e os debates são sempre acalorados. E o Festival de Brasília 2016 tem colaborado tanto para o debate quanto para o calor destas discussões. Depois da consagração de Martírio de Vincent Carelli, do debate sobre o cinema indígena (que se seguiu ao sobre o Cinema Negro), no sábado à tarde, a noite foi a vez de o Cine Brasília ver Antes o Tempo Não Acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo.
No domingo, o debate sobre o longa, que integra a Mostra Competitiva do Festival, foi um dos mais veementes e interessantes do festival.
Isso porque o filme, protagonizado por Anderson Tikuna, em uma comparação simples, mas eficaz, ao ritual de passagem da vida adulta que os meninos da etnia Saterê-Mawe passam (quando devem literalmente vestir luvas repletas de formigas tukandeiras), botou a mão em um formigueiro. E saiu com várias ferroadas. Não necessariamente negativas, mas diversas e ricas para se pensar um filme de ficção (talvez o primeiro) que ousa enfocar um indígena lidando com questões muito particulares de sua subjetividade, de seu lugar como indivíduo em um mundo moderno e contemporâneo em que tudo que é sólido desmancha no ar.
Sejam as tradições de seu povo, que ele questiona, quanto as supostas benesses da vida na cidade grande e no sistema do homem branco capitalista, que ele aspira, mas sem saber ainda muito bem se será esta a melhor escolha para sua vida adulta.

E se existem mais de 350 povos indígenas no Brasil que falam mais de 180 idiomas atualmente, as opiniões sobre os filmes apresentados foram também inúmeras. Antes o Tempo Não Acabava traz Anderson (o personagem tem o mesmo nome do ator Anderson Tikuna), um jovem indígena que deixou sua aldeia na fronteira com a Colômbia para para viver na periferia de Manaus. Assim como a metrópole, que ao mesmo tempo que possui um grande parque industrial está incrustrada em plena selva amazônica, Anderson é a personificação da dicotomia.
A ala da antropologia presente ao debate leu cartas expressando sua opinião e sua preocupação com o impacto do longa sobre um público que desconhece as nuances da cultura indígena e que pode se apreender do filme para confirmar preconceitos e questionou “se os diretores não temem o impacto político do longa em um momento de retrocesso, em que os direitos indígenas estão ameaçados e de que forma o filme contribuiu com o movimento indígena.”
Ao questionamento, o diretor Fábio Baldo, respondeu: “Quando se coloca um índio como protagonista de um filme, a partir reste momento já se gera um ruído social. Trazemos questões que perpassam as condições da política, as noções étnicas, antropológicas… Em nenhum momento a gente está jogando contra os indígenas. Muito pelo contrário. A gente sempre está construindo junto com eles. Todos os personagens indígenas do filme são autores que contribuem e constroem com a gente a trajetória do Anderson.”

Entre a comunidade e a cidade, protagonista se depara com as contradições de cada cultura
Entre a comunidade e a cidade, protagonista se depara com as contradições de cada cultura

Fábio ainda completou que todas as decisões a respeito de questões delicadas do filme, como a homossexualidade do protagonista, foram sempre discutidas entre os indígenas que integram o elenco e os diretores. “A gente traz um tipo de visão que a gente não encontra muito dentro do cinema, que é construir personagens com psicológico muito profundo, com características específicas e esta vivência dele no limite, que a gente considera o que é a floresta e a cidade.”
O cineasta ainda observou que tanto ele quanto Sérgio Andrade vêem seus personagens vivendo no atual mundo pós-moderno, “que é confuso para todos nós.”
“Acredito que é construção para a gente estar justamente aqui hoje estudando as possibilidades do que a gente está discutindo. Não acho que é uma crítica da condição da sexualidade nas aldeias indígenas. Existem homossexuais em comunidades indígenas e há este respeito. Não estamos avançamos nas discussões indígenas. Trazemos um filme como este para questionar as transições que vivemos hoje, que são complexas, incluindo a questão da sexualidade.”
Sérgio Andrade, que é amazonense, acrescentou que a figura do índio sempre foi passada na cultura branca como algo muito próximo ao mítico, ao exótico, ao estereotipado. “E a gente tem que lembrar que são seres humanos, ainda mais quando estão em um ambiente urbano, quando vêm de uma aldeia, que é o caso do próprio Anderson Tikuna em sua vida real, que se mudou da aldeia pequeno e foi para Manaus, mas ele ainda é um indígena. Ele tem de agir de acordo com os preceitos da cultura dele ou com os da cultura branca? Aí começa a primeira dicotomia, que trazemos no filme.”
O cineasta completou: “Me parece que o problema aqui é ser homossexual, mas a homossexualidade indígena é tratada em cada uma das centenas de etnias do Brasil, que têm uma forma de se organizar diante deste assunto. A gente apresenta um indígena em sua mentalidade humana e não como um refém de sua própria cultura ancestral, porque ele vive em um ambiente urbano no filme.”
De fato. Na trama, Anderson não só está em busca da coragem para lidar com sua identidade multifacetada mas também sua sexualidade. E nesta busca se relaciona tanto com um rapaz (o ator Begê Muniz) quanto com uma jovem da cidade (Rita Carelli). O primeiro é um catraieiro que transita bem entre os universos da comunidade de Anderson e do centro da cidade. Já ela trabalha em uma cooperativa indígena e surge como elemento feminino que também atrai Anderson em sua jornada.
O filme é um exemplar importante do audiovisual do norte do Brasil, região que vem cada vez mais produzindo cinema e que ganha atenção no exterior e merece também olhar atento do próprio brasileiro.

"Nas aldeias tem sim homossexuais porque somos todos iguais. O filme busca um rapaz que quer se conhecer na cidade, como qualquer um aqui quer se conhecer", declarou Anderson
“Nas aldeias tem sim homossexuais porque somos todos iguais. O filme busca um rapaz que quer se conhecer na cidade, como qualquer um aqui quer se conhecer”, declarou Anderson

Sobre o debate e a opinião dos antropólogos presentes à discussão, Anderson Tikuna observou: “Represento o povo Tikuna do Amazonas e estou muito feliz de apresentar este filme. Acho que os diretores já falaram quase tudo. Só gostaria de esclarecer uma coisa sobre o personagem do homem gay. Antigamente, o povo não tinha homossexualidade nas aldeias. Hoje em dia tem. Isso porque houve influência da TV, do convívio na cidade… Nas aldeias tem sim homossexuais porque somos todos iguais. O filme busca um rapaz que quer se conhecer na cidade, como qualquer um aqui quer se conhecer. Então, o longa traz isso. Como os diretores já falaram, o filme não mostra só o lado gay, mas representa várias etnias, como as dos Tikunas, do povo Saterê. Há outras tradições reveladas.”
Ao abordar este embate entre Anderson e sua busca por um lugar no mundo, seja ele na metrópole seja ele em sua comunidade Tikuna, ‘Antes o Tempo não Acabava’ de fato provoca diferentes reações em diferentes plateias. E talvez seja esta uma das grandes forças do filme. Ao retratar as contradições deste rito de passagem para esta vida adulta tão particular, mas que é real em muitas cidades brasileiras, o longa propõe imagens muitas vezes aparentemente desconexas e dissonantes para traduzir o sentimento de estranhamento, surpresa e inadequação de Anderson em uma cidade que nada tem de paradisíaca.
Ao mesmo tempo, a vila na periferia em que parte de sua comunidade vive em Manaus traduz a situação de exclusão que muitos indígenas que vivem nas metrópoles do País enfrentam. Anderson não está nem no (ao ver do homem branco) idílico ambiente da floresta e nem no paradisíaco mundo moderno vendido pelo sistema capitalista.

Rita Carelli apontou que se trata de um filme que tem um título que faz pensar na visão do tempo cíclico. “Não é o tempo que não acaba porque ele está no passado, mas porque ele flui, as coisas se reconstroem. Então, isso até para mim é uma crítica a esta vida urbana, que é também opressiva, onde o Anderson está inserido, na fábrica, nas relações de trabalho, de dinheiro, da profunda pobreza da periferia de Manaus onde ele circula. Este título me faz pensar na riqueza da relação com o tempo e com a relação que se renova.”
Anderson vaga entre mundos. E este embate humano dele pode chocar os que estão acostumados com filmes sobre as questões indígenas que tratam mais da luta pela terra, por sua cultura, por seu modo ancestral de viver.
“Se uma cobra vem do Japão, ela não deixa de ser cobra”, disse o diretor Sérgio Andrade em alusão a uma fala de um personagem do filme durante o debate. É a contradição que faz a força de ‘Antes o Tempo não Acabava’ e é nesta chave dos contrates entre culturas, gerações e ambientes que o filme deve ser apreendido.
“O filme, por colocar na tela um protagonista indígena em um momento de equilíbrio delicado entre mil questões, a força de sua tradição com a necessidade de descobrir sua individualidade dentro deste contexto urbano, sua sexualidade, a relação com o dinheiro, seu poder aquisitivo, suas relações pessoais… é muito instigaste. Se os índios já são um assunto tão invisível, os índios urbanos talvez sejam mais ainda. É um filme aberto, que não diz o que é certo ou errado. Ele tateia, provoca, joga assuntos. Está neste lugar de risco mesmo”, analisou Rita.
Anderson não deixa de carregar consigo sua identidade tikuna ao caminhar pelas ruas da cidade, ao trabalhar na linha de montagem da Zona Franca, ao frequentar uma casa noturna, ao se relacionar com um outro jovem e com uma jovem branca ou ao se tornar cabeleireiro. Merece atenção a trilha sonora, que vai de Kraftwerk a Moby e funciona como ferramenta forte para criar contrates entre a paisagem e a sensação de inadequação de Anderson.

Anderson Tikuna é ator e personagem real do longa que retrata a juventude indígena dividida entre os rituais ancestrais e a vida moderna
Anderson Tikuna é ator e personagem real do longa que retrata a juventude indígena dividida entre os rituais ancestrais e a vida moderna

Já, novamente aos olhos de diversas antropólogas que participaram do debate, trazer estas questões em um filme que é ficcional, mas que traz elementos do real, é entrar em uma zona perigosa e pode funcionar para corroborar um discurso conservador da política brasileira.

“Somos todos contemporâneos” – Quem resumiu bem a discussão acalorada foi Daiara Tukano, da rádio Yandê (http://radioyande.com) formada por uma equipe composta somente por indígenas. Única representante indígena, além de Anderson, no debate, ela tomou a palavra e, em tom combativo e ao mesmo tempo conciliatório, defendeu o protagonismo indígena para falar das questões pertinentes aos tantos povos brasileiros.
“É preciso inserir aqui um outro ponto de vista que também é indígena, com relação a como se constrói constantemente a sociedade indígena na contemporaneidade. Quando se trata da figura do índio, em geral na mídia, nos colocam de uma forma muito estática e definitiva. Ontem na mesa de cinema indígena a gente debateu com isso. A gente sempre está em debate com a forma que o não-indígena constrói sobre nós. Somos todos contemporâneos, onde existe uma crise generacional, assim como existe na cidade, na favela, na China… E algo que falo é que a nossa transformação somos nós que fazemos. Não é a ONG, não é o antropólogo, não é o governo que conduz. Este debate cabe a nós.”
E acrescentou: “Nós somos seres pensantes e temos a capacidade de dialogar com os mais velhos, os mais jovens. Nós também estamos no século 21 e mostramos todos os dias, inclusive dentro do movimento indígena esta capacidade de buscar diálogo, buscando que nossas sociedades possam dialogar e conviver melhor, deixando para trás o histórico de violência que marca nossas histórias.”
Para Daiara, é importante não se generalizar. “Com relação das tradições, há um debate e uma diversidade enorme. A realidade do Tikuna vai ser totalmente diferente do Guarani, que está em São Paulo, na favela, do Caiowá, do Pataxó na Bahia. E eles se reconstroem e se reinventam e se colocam diante da sociedade dependendo do seu histórico. A gente já passou de 1500 já faz um tempinho e é importante aceitar as alteridades dentro da nossa própria identidade de povo”, comentou a radialista.
“Acredito na discussão de gênero, de identidade sexual, de orientação sexual. É um debate importante e que a gente o leve para o movimento indígena, procurando sempre, dentro da nossa dialética, da forma de conversar de cada povo, procurar um diálogo entre os jovens e as tradições. Há uma maneira de debater o contemporâneo e o tradicional, construindo e debatendo a identidade indígena, fazendo nosso caminho e não apenas adotando a moral do branco, judaico-cristã, que não necessariamente vai dialogar com nosso povo.”
De uma forma ou de outra, ‘Antes o Tempo não Acabava’ é um filme raro, que não deixa nenhuma plateia indiferente. O oportuno debate sobre o longa e sobre as questões indígenas contemporâneas só começou em Brasília e devem aumentar quando o filme chegar ao circuito de cinemas.

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