Como já havia feito em Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, o argentino Gustavo Taretto retomou um de seus curta-metragens para fazer Las Insoladas, seu segundo longa, que teve pré-estreia no Festival de Cinema Latino-Americano, em São Paulo. A estreia nacional está marcada para 13 de agosto.

“Meu trabalho como diretor se relaciona de alguma maneira como o de um pintor. Quando uma ideia ou tema me interessa, gosto de revisitá-lo. Repensá-lo, reescrevê-lo, vê-lo de um ponto de vista diferente”, justifica o diretor, em entrevista ao TelaTela.

O filme se passa quase todo no mesmo cenário: um terraço num prédio de Buenos Aires, onde seis mulheres passam um dia de verão se bronzeando. A conversa entre elas, pontuada por diálogos dos mais divertidos, passa por sonhos, frustrações e expectativas de cada uma, até que começam a planejar uma viagem de férias. Tudo isso bem no meio dos anos 90, época que, como define Taretto, “enlouqueceu” os argentinos.

20150724-las-insoladas-novas-1

TelaTela – Por que decidiu retomar seu primeiro curta-metragem, de 2002, agora?

Gustavo Taretto – Meu trabalho como diretor se relaciona de alguma maneira como o de um pintor. Quando uma ideia ou tema me interessa, gosto de revisitá-lo. Repensá-lo, reescrevê-lo, vê-lo de um ponto de vista diferente. Como é o trabalho de um pintor quando tem uma obsessão por uma paisagem ou uma modelo.

A ideia de um grupo de mulheres condenadas a passar o verão em um terraço numa cidade em que o cimento arde sempre me atraiu. Inclusive na pintura e escultura é um tema recorrente dos artistas: as banhistas, um grupo de mulheres reunidas em uma cerimônia íntima. Sempre foi uma situação que despertou minha curiosidade. A princípio pelo atrativo visual que me despertam esses três elementos que me encantam: as mulheres, os terraços e a Buenos Aires central.

O filme está ambientado nos anos 90, uma época especialmente difícil para a economia e o povo argentino. O tema está presente no longa, ainda que nem sempre de forma explícita. O que você se lembra daquele momento?

​A década de 90 foi de muitíssimas transformações culturais na classe média argentina. De emprobrecimento, apesar da aparente festa que nos enganava. Eu sofri e aproveitei ao mesmo tempo. Foi uma década que nos enlouqueceu. A cotação de 1 dolar = 1 peso nos fez sair irresponsavelmente pelo mundo, acreditar que eramos parte do primeiro mundo. Isso mudou os valores, sobretudo da classe média. Da cultura do trabalho passamos à cultura do êxito. Foi a década mais superficial.

Muita gente ficou fora dessa festa. Um exemplo são as protagonistas de Las Insoladas, que vêem um êxodo de gente que ia a todos os tipos de destinos caribenhos, e elas se perguntam: por que nós não podemos?

Las Insoladas se passa quase todo no mesmo cenário, numa estrutura similar a uma obra de teatro. Este sempre foi o conceito original, ou foi uma escolha para de alguma forma facilitar a produção em termos de custos e logística?

Eu gosto de desafios. São eles que me motivam a fazer um filme. Gosto dos obstáculos e gosto de, em vez de me esquivar deles, enfrentá-los. Os riscos me desafiam porque acredito que ali está a particularidade de meu trabalho e a originalidade do projeto.

Em Medianeras, por exemplo, o desafio foi fazer uma comédia romântica em que os protagonistas se encontrassem apenas na última cena e não tivesse beijo.

Medianeras foi muito bem recebido pela crítica em todo o mundo. Já Las Insoladas dividiu opiniões na Argentina. Em ambos os casos, as críticas mexeram com você de alguma forma?

Não leio as críticas. Nem de Medianeras nem de Las Insoladas. Creio que a crítica é um espaço de comunicação entre o crítico e seus leitores, potenciais espectadores. Eu sou diretor, não tenho nada o que fazer ali, então não me meto. Se algum crítico quer me dizer algo sobre meu filme, escutarei com respeito. E se quiser conversar, também o farei.

Minha relação com o cinema é a partir do prazer. Gosto de fazer filmes. Sou feliz dirigindo e me sinto muito cômodo com os dois longas que realizei.

Os dois filmes podem ser consideradas crônicas da vida social Argentina. Este é o aspecto que mais te interessa ou teremos uma mudança de gênero em seu próximo filme?

Acredito que Medianeras e Las Insoladas são filmes diferentes. Estou desenvolvendo dois projetos muito diferentes entre si. Não sei qual concretizarei primeiro.

No Brasil, o cinema argentino é considerado por muita gente um exemplo de união entre o comercialmente viável e alta qualidade. Filmes como Relatos Selvagens, Um Conto Chinês, O Segredo dos Seus Olhos e Medianeras foram aclamados por aqui. Você, aí da Argentina, também tem esta percepção?

Não consigo encontrar no cinema argentino um modelo estético ou de produção. Tendo a pensar que existem muitos tipos de cinema na produção local. Esta é uma percepção que vocês podem ter com mais clareza de fora.

Comentários

comentários