Uma vaca urbana, que vive confortavelmente em uma grande cidade, onde tem uma família que a ama, amigos queridos, frequenta a academia, bons restaurantes, vai ao shopping fazer compras… Está tudo bem na vida deste animal. Até que um dia, às vésperas do Natal, ela se dá conta de que um vazio, uma falta de sentido toma conta dela. E decide largar tudo e partir para o campo, o deserto, em busca de iluminação e respostas para o real sentido da vida.

Esta é a premissa bem humorada, e ao mesmo tempo irônica de Animal Político, o primeiro longa-metragem do diretor pernambucano Tião, que foi um dos destaques da 19a Mostra de Cinema de Tiradentes na semana passada e que integra a mostra competitiva Bright Future (Futuro Brilhante) no Festival de Rotterdam, com exibições nesta quinta e no próximo sábado. Detalhe: a vaca atriz, a protagonista do filme, é uma vaca mesmo, a Cerveja, como a equipe do filme a batizou.

A voz da vaca, no entanto, é masculina, interpretada com maestria pelo ator Rodrigo Bolzan. Melancólicos, mas questionadores, os pensamentos do animal nos conduzem em um filme que tem tanto de absurdo quanto de verossímil e filosófico.

Na trama, o jovem Tião, que já foi premiado na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes pelos curtas Muro (de 2008) e Sem Coração (de 2014, em parceria com Nara Normande) conta toda a história (com exceção do capítulo ‘A Pequena Caucasiana’, que parece deslocado, mas tem sua razão de ser ao final de tudo) do ponto de vista da vaca.

“Pensar no que é a vaca é uma questão social, clara e básica. A gente é uma coisa só e pode, ao mesmo tempo, ser tão separado. Queria falar de uma entidade humana. Torná-la mais ambígua que eu conseguisse”, comentou em Tiradentes o diretor sobre a escolha do animal e também de dar a ela uma voz masculina.

O diretor Tião, em Tiradentes, que assina com 'Animal Político' seu primeiro longa
O diretor Tião, em Tiradentes, que assina com ‘Animal Político’ seu primeiro longa, depois de ser premiado com dois curtas em Cannes

Vaca humana – A vaca de Animal Político (em referência clara à obra de Aristóteles) é a própria humanidade, que precisa de objetos e outros seres-humanos para existir, mas que cada vez mais se cerca de conforto, grades e certezas pré-concebidas e que, no entanto, vê-se também infeliz e insatisfeita, sempre em busca de algo inalcançável.

“Toda a trajetória da vaca é do ponto de vista dela. A gente tira o personagem médio-burguês e leva para uma proposta de trajetória, de sair do seu núcleo, do seu conforto”, completou Tião.

Realizar um filme tão aparentemente simples e ao mesmo tempo sofisticado consumiu anos de produção, cerca de R$ 400mil e muita paciência para rodar com  Cerveja em diversas locações do Recife e do interior de Pernambuco e da Paraíba, incluindo até mesmo no vagão do metrô, no cabeleireiro, no restaurante. De fato, dirigir uma vaca não é tarefa das mais fáceis.

O trabalho de produção para lidar com a ‘atriz’ exigia que ela saísse sempre muito cedo para o set, tivesse cuidados especiais, não filmasse mais que dois dias seguidos. Além disso, em várias cenas Cerveja foi puxada por uma corda, que foi apagada na pós-produção. “Nunca tinha trabalhado em um filme em que a vaca era protagonista e nossa equipe foi fundamental para que o filme estivesse pronto”, comentou o produtor do longa, Tiago Melo.

A atriz, a vaca Cerveja, como foi batizada pela equipe, não podia filmar mais que dois dias seguidos
A atriz, a vaca Cerveja, como foi batizada pela equipe, não podia filmar mais que dois dias seguidos

“Era um filme que, no meio do processo, descobrimos que talvez fosse impossível. Já estávamos no meio do caminho entre o barco e a praia. É um filme que, em tese, alguém do cinema clássico pode dizer que seria impossível de ser feito”, completou Tião.

Mas Animal Político foi feito. E com esmero. Para quem embarca na viagem da vaca existencialista, o longa é um passeio tão interessante quanto árduo por ideias e questionamentos que vão de um clima de Sessão da Tarde a Fiódor Dostoiévski e Immanuel Kant, passando por Buda e até pelo manual da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

Sobre este último, comentando o ‘trabalho’ que já teve para seguir as normas do Manual de Normatização de Trabalhos Acadêmicos da ABNT em seus próprios trabalhos acadêmicos, Tião faz referência, em uma leitura simbólica, das regras que não só organizam, mas também limitam tanto a educação brasileira quanto o próprio modo de vida.

A Pequena Caucasiana – Em Animal Político, acompanhando a odisseia clássica da vaca, cuja simples presença já é contraste suficientemente grande com os ambientes ‘normais’ em que ela se insere, há, em paralelo, a história da Pequena Caucasiana. Ela é uma jovem que, aos cinco anos, após um naufrágio, foi parar sozinha em uma ilha deserta.

Filha de uma família burguesa, branca e dominante, ela estava acostumada a mandar, a agir com racismo e a valorizar um modo de vida totalmente oposto ao ambiente selvagem em que é obrigada a crescer. Já adulta, sempre nua e lutando para sobreviver, ela também filosofa sobre como era sua vida, se teria a sociedade mudado ou não nos anos em que passa isolada e, para matar o tempo, lê o manual da ABNT.

'A Pequena Caucasiana', cujo comportamento é símbolo do fascismo brasileiro e cuja nudez é, para Tião, símbolo de liberdade
‘A Pequena Caucasiana’, cujo comportamento é símbolo do fascismo brasileiro e cuja nudez é, para Tião, símbolo de liberdade

Ainda que alguns tenham apontado a forma como o diretor filmou a Caucasiana, com uma textura de vídeo que lembra os filmes B dos anos 70, em que, via de regra, a figura da mulher é retratada pelo viés do erotismo, Tião garante que a intenção da nudez (além do fator prático de a personagem não ter o que vestir em uma ilha) foi sempre o de dar o tom de liberdade e naturalismo.

“Formalmente me parece muito interessante. A gente também faz Filmes que gostaria de ver. É bom me deparar com outra estética. O que liga as Caucasiana à vaca é o isolamento. Ela se propõe um isolamento. E a Caucasiana não queria estar ali”, respondeu o diretor quando questionado sobre a estética e o porquê da escolha da personagem.

Para ele, olhar para a Caucasiana é olhar para a elite, que “disfarça, mas é assim.” “Hoje em dia existe mais gente expressando coisas bizarras. Em sua história a gente fala um pouco da construção de um país. Há uma elite que oprime as classes mais baixas. Ela é o nosso fascismo”, analisou Tião.

Sobre o animal homem político e social, o humor, a ironia e a forma como filmou a mulher caucasiana em seu longa, Tião falou mais ao TelaTela:

TelaTela – Há muito humor em Animal Político, que pode ser visto por uma criança, mas não é um filme leve, muito até pelo seu próprio nome e pelo conteúdo que há em seu subtexto. O filme tem uma ironia que perpassa toda narrativa. Concorda?

Tião – Eu queria muito que fosse um filme de classificação indicativa. No meu mundo, este seria um filme livre. Mas o filme tem sim humor e tem ironia. Tento mudar poucas características para não fazer a mesma coisa o filme todo. Às vezes isso vem bem sutil, devagar, e outras é uma porta na cara. A voz da Vaca ajuda muito nisso, pois é calma, mas triste. Essa voz, com as imagens, produz o efeito irônico. Se a gente colocasse uma voz claramente em consonância com a ironia e o humor seria mais escancarado e menos interessante.

Talvez pela nudez da personagem da Pequena Caucasiana o filme não seja livre. Aliás, fomos condicionados a ver com muito com mais naturalidade  a nudez do índio em filmes que que a do branco. Não é por acaso que você retrata uma mulher branca, ruiva, nua, em um ambiente selvagem.

Sim. Foi exatamente por contraste mesmo, pelo que tu falou, do fato da nudez do índio ser natural e a do branco não. A gente não nasce com esta visão, mas é condicionado em nossos primeiros anos de vida a ter vergonha do nosso corpo. Na verdade, é uma questão de criar contraste com a Pequena Caucasiana, que era de uma elite e que hoje em dia estaria morando em uma cobertura de um lugar na zona sul.

A gente a coloca no filme de uma forma que ela nunca estaria se não tivesse ido parar na ilha por um naufrágio, uma forma que é próxima do índio, de alguém que tem aquele ambiente natural. Para ela, a paisagem selvagem é completamente oposta ao natural. A gente tem que ter muito cuidado com direcionamentos, mas isso vem da vontade de pegar uma pessoa de uma realidade como a dela e dizer: ‘Agora vive isso aqui. Vamos ver como tu se sai. Sem mandar em ninguém…”

E a questão da nudez da mulher no filme?

Eu pessoalmente enxergo a nudez como liberdade, mas tem gente que não vê assim. E também tem esta coisa com de ‘O Rei está nu’. Também é algo de colocar a pessoa em um lugar em que está vulnerável, para onde ela nunca iria sozinha. E existe também, claro, a questão prática. Ela chegou à praia com cinco anos. E no contexto da ironia, a gente coloca tudo que ela conseguiu salvar e levar até a praia com ela foi um baú de joias. É também dizer: “Se vira agora com isso.” A vaca também. A gente tira ela desta vida comum e confortável e a joga em um ambiente diferente.

Ela sai de seu lugar de conforto, assim como a mulher caucasiana. Alguns se perguntaram se não poderia ser um homem perdido em uma ilha. Você teve a opção de criar uma personagem feminina porque queria chegar na imagem final da história dela (que é histórica de fato) ou porque queria discutir a questão da nudez, deserotizá-la?

Sempre foi deserotizar, sempre foi natural, selvagem e em contato com a natureza mais que qualquer coisa. Tem um dado que é o fato de que é difícil quando você tem um contato com as ideias originais. Eu ainda estava escrevendo o roteiro da vaca quando fui passar um final de semana em uma praia em Maceió. E lá eu vi uma menina muito branca, em cima de um cavalo, cavalgando na praia. Não sei se estava doido com isso de escrever e mergulhar tanto no roteiro, mas fiquei muito impactado por aquela imagem.

Não por ela ser menina, mas por ela ser criança, pensando na questão da dominação daquele ser tão pequeno e frágil ainda sobre um animal como um cavalo. Como é que isso existe? E aí coincidentemente acho que ela era uma turista. Talvez até europeia. E fiquei pensando nesta questão da dominação branca. A partir disso, comentei a comentar sobre o ocorrido e minhas ideias com algumas pessoas. E a chamava sempre de A Pequena Caucasiana. Então, para mim, como realizador, eu não consegui pensar a personagem de outra forma depois disso.

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