Oscar Raby nasceu no Chile. Aos 16 anos de idade, seu pai o chamou para a sala e disse que precisava conversar sobre um assunto sério. “Achei que ele ia me falar sobre garotas”, contou. Na verdade o tema era bem diferente.

Seu pai, que foi por muito tempo militar durante a ditadura de Pinochet, queria revelar que, quando tinha 20 anos, testemunhou a execução de cerca de um grupo jovens perseguidos pelo governo. Era a desconstrução de uma figura até então tida como heróica por Ruby, e “o início de uma conversa que já dura mais de duas décadas”.

Oscar Raby (à esquerda) e Mark Atkin durante o Mediamorfosis, em São Paulo
Oscar Raby (à esquerda) e Mark Atkin durante o Mediamorfosis, em São Paulo

Foi com essa fala que o artista multimídia abriu sua palestra na primeira edição do Mediamorfosis, evento que aconteceu nos dias 13 e 14 de agosto em São Paulo para discutir os formatos mais inovadores de narrativas, num mundo de novas e convergentes mídias.

Ao contrário do que poderia se esperar, grande parte das falas não foi sobre tecnologia, gadgtes e códigos. O avanço das experiências na realidade virtual, tema presente em muitos dos painéis, teve um cunho surpreendentemente humanista, e uma clara preocupação em usar as novas ferramentas como estratégia de conscientização.

Raby, por exemplo, é autor de Assent, um documentário imersivo no qual recriou aquela execução narrada pelo pai, colocando-se no papel de vítima, e também no de perpetrador. A obra só pode ser vista, ou melhor, vivenciada em sua plenitude com o Rift, um óculos especialmente preparado para a realidade virtual, deslocando o espectador para o meio da ação (trailer abaixo, em inglês).

Em conversa com o TelaTela, o chileno (hoje radicado na Austrália) confessou que o trabalho foi uma forma de processar o passado de sua família e conseguir lidar com a questão de uma maneira mais madura. “Tudo isso me deu uma maior compreensão de quem eu sou”, definiu.

A máquina de empatia imediata

Para Raby, a tal revolução digital que há tanto tempo é proclamada, mesmo que ainda não se saiba exatamente como funcionará, passa pela introspecção. “Neste novo ciclo, onde as pessoas são estimuladas a todo instante e querem ver tudo ao mesmo tempo, é vital ter um momento de olhar para dentro de si, numa espécie de isolamento.”

Por isso, os óculos usados em experiências de realidade virtual proporcionam uma visão 360 graus, e funcionam com fones de ouvido. Todo o entorno some instantaneamente, causando uma sensação próxima ao que seria um teletransporte a outro mundo.

“Se eu te der para ler um enorme artigo escrito, explicando em detalhes a situação de uma jovem refugiada da Síria, talvez você leia, talvez não”, acredita o inglês Mark Atkin, se juntando à conversa. “Porém, se eu te parar na rua, no meio de um centro comercial, colocar um óculos em você que te faz vivenciar aquela outra realidade, tenho sua atenção na hora. Se eu estiver segurando uma prancheta com alguma petição pela causa, é provável que você assine em seguida”. É o que chama de uma “máquina de empatia imediata”.

Clouds Over Sidra oferece justamente isso. O curta-documentário, feito pelo diretor Chris Milk sob encomenda da ONU, passa pelo cotidiano de uma menina de doze anos, vivendo numa área da Jordânia ocupada por 84 mil refugiados sírios. O filme foi exibido para participantes do Fórum Econômico de Davos, além de ter levado prêmios em festivais como o da cidade de Sheffield, cuja curadoria é de Atkin e tem foco especial em obras interativas.

Com o 'Oculus Rift', membros do Fórum Econômico de Davos assistem a documentário sobre refugiada síria
Com o ‘Oculus Rift’, membros do Fórum Econômico de Davos assistem a documentário sobre refugiada síria

A tendência já causou furor este ano em Sundance, a meca do cinema alternativo norte-americano. Na ocasião, o site The Verge cravou que “o futuro dos filmes independentes pode nem sequer ser em em formato de filme”, e garantiu que “os realizadores não se lembram de terem ficado tão empolgados como estão”.

Para Atkin, só nos último anos a superfície começou a ser arranhada. “Até pouco tempo atrás, os formatos interativos eram na maior parte games, e só cobriam uma parte da experiência humana”, relembra. Agora a proposta de colocar o espectador em primeira pessoa também em registros documentais, ou mesmo em narrativas ficcionais com temas variados, expande as fronteiras dentro das quais qualquer história pode ser contada.

Os próximos projetos em que Oscar Raby está envolvido são provas desta diversidade. Em Travelling While Black ele propõe ao participante que se ponha na pele de um sujeito negro, viajando pelos Estados Unidos por volta da década de 1950. A rota é inspirada no The Negro Motorist Green Book, um guia da época que não apenas mostrava os pontos de interesse, mas indicava à comunidade afro-americana quais lugares evitar para se manter em segurança. O filme está previsto para estrear no Festival de Tribeca, ano que vem, em Nova York.

Queerskins é a adaptação de um romance virtual sobre a epidemia de AIDS nos anos 80. A intenção de Raby é colocar o espectador no papel de uma vítima da doença que, já morta, acompanha seus pais lidando com a perda.

Muito mais do que coisa de ficção científica, a realidade virtual quer mudar também nossa visão de mundo. Talvez só aí mais gente consiga passar a praticar o urgente, necessário e pedagógico exercício de se colocar, mesmo que por alguns segundos, na posição do outro.

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