Nossa Opinião

8.5
A sucessão de desventuras é vertiginosa, mas a dupla de cineastas habilmente estica o cordão do suspense até o limite
Nota 8.5

A crise econômica europeia atinge os cidadãos em cheio, principalmente no âmbito pessoal. Pelo menos esse é o caminho apontado por alguns dos filmes contemporâneos mais celebrados a vir do continente, como o russo Leviatã, de Andrey Zvyagintsev, e Dois Dias, Uma Noite, dos irmãos Dardenne, belgas. A Lição, da dupla Kristina Grozeva e Petar Valchanov é a contribuição búlgara à lista.

“Kafkaniano” tem sido uma definição constante para o roteiro, que surgiu após os diretores lerem uma notícia no jornal local. Decidiram por uma estética realista, quase documental, e usam 70% de atores não profissionais que giram em torno da personagem principal, interpretada por Margita Gosheva. Ela é Nadezhda, uma professora de inglês envolta em problemas financeiros que, de tão graves, a forçam a tomar as atitudes mais improváveis.

Como em O Processo, de Kafka, o que se vê é alguém enfrentando uma luta inglória contra a burocracia e, principalmente, o sistema de patriarcado dominante, retratado como algo em colapso. Em A Lição, a personagem entra no problema porque o marido escondeu dívidas pelas quais agora podem perder a casa, e desce mais fundo porque não é paga pelo homem que lhe contrata para fazer traduções e mais tarde se revela um covarde. Quando resolve tomar os problemas para si e ir atrás da solução, é vítima de um ardiloso agiota. Contra tudo e todas, cabe somente a Nadezhda resolver todo tipo de dilema moral que lhe aparece.

A sucessão de desventuras é vertiginosa, mas a dupla de cineastas habilmente estica o cordão do suspense até o limite ao tratar a trama de forma pausada, aumentando a agonia do espectador. Há também uma fina camada de ironia, presente notadamente nos encontros da protagonista com o pai. E é assim mesmo, porque, como ela mesmo diz em determinado ponto: “Às vezes coisas estranhas acontecem na vida”.

O filme vem colecionando prêmios em festivais ao redor do mundo: Tóquio, Varsóvia, Gotemburgo, San Sebastián e Sofia, na terra natal Bulgária. É o primeiro de uma trilogia que Grozeva e Valchanov prometem completar nos próximos anos. Convém prestar atenção.

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