botaooscarEm artigo reproduzido no Indiewire, um dos sites de cinema mais respeitados do mundo, sob o título “Retrógrado, redutivo e prejudicial: A visão de uma mulher trans sobre o constrangedor A Garota Dinamarquesa, de Tom Hooper”, a trans Carol Grant escreve sobre sua profunda insatisfação com a abordagem do longa indicado a quatro prêmios Oscar.

Para ela, a caracterização de Lili Elbe (Eddie Redmayne) é calcada em exageros, fetiches e esteriótipos. Uma visão masculina sobre o que é ser mulher, aprendida quando Lili, ainda como Einar Wegener, observa uma dançarina num peep show – local onde, por definição, a mulher busca satisfazer o olhar de um homem.

Nossa Opinião

6.5
Filme de Tom Hooper apresenta visão masculina do que é ser mulher, construindo uma personagem focada apenas em clichês do gênero feminino
Nota 6.5

Carol ainda aponta para a mudança no estilo de vida de Lili conforme vai assumindo sua real identidade de gênero. Ela abandona a carreira de pintora para aceitar um trabalho como vendedora de perfumes, faz amigas com quem troca risadinhas e fofocas e flerta recadamente com o personagem de Ben Whishaw, um jovem respeitoso e tímido. Em suma: Lili está mais para uma caricatura do que se convencionou chamar de “moça de respeito” do que para uma mulher real.

Este calcanhar de aquiles não é o único do filme de Hooper (ganhador do Oscar por O Discurso do Rei). Pesquisadores já levantaram algumas incongruências entre ficção e realidade, principalmente na relação entre Einar/Lili e a esposa Gerda (Alicia Vikander), que não foi de total cumplicidade até o fim, como o filme faz parecer, e no personagem Hans Axgil (Mathias Schoenaerts), fundamental para a trama, mas que nunca existiu.

Alguém pode argumentar que tais liberdades são naturais à criação de um roteiro cinematográfico. É verdade. Porém, um pôster que coloca em letras garrafais “inspirado na extraordinária história real” quer desesperadamente vender ao público tal apelo, sabendo que muitos irão se deixar levar emocionalmente por acreditar que tudo de fato aconteceu daquela forma.

Colocadas essas ponderações, A Garota Dinamarquesa é um filme pensado para impactar visualmente e agradar grandes parcelas do público com pouco ou nenhum questionamento. Tecnicamente funciona (figurinos e direção de arte, que enchem os olhos, foram indicados ao Oscar), mas desperdiça a chance de ir além num momento em que o tema é discutido como nunca.

Se a interpretação de Redmayne pouco surpreende quem o viu como Stephen Hawking em A Teoria de Tudo e é afetada pelos já mencionados problemas conceituais da construção do personagem no roteiro, quem acaba se beneficiando é Alicia Vikander. Cabe à sueca passar por uma curva emocional mais diversificada, partindo do que julgava um idílico casamento com Einar até a aceitação da real identidade de seu par.

Alicia já levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante no SAG (o Sindicato dos Atores) e é a principal favorita a levar a mesma categoria no Oscar. Não poderá ser considerado injustiça, e isso até mesmo Carol Grant concorda: “Ela rouba o filme inteiro, sua performance é magnética”, escreveu no artigo.

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