selomostra39Dos filmes mais criativos a já retratarem o universo infantil e atmosfera longe das grandes capitais, A Família Dionti chega à Mostra de São Paulo depois de estrear no Festival de Brasília, em setembro, onde foi eleito o preferido do público. É, de fato, uma obra encantadora, carregada de um tom nostálgico e poético, influenciado pelos universos tantas vezes narrados por Guimarães Rosa e Manoel de Barros.

Esta família Dionti (de ontem) vive em seu próprio tempo e espaço. Os pôsteres das seleções brasileiras campeãs do mundo em 1970 e 2002 lado a lado na parede do quarto dos meninos simboliza este não pertencimento a uma época determinada.

Os irmãos Kelton (Murilo Quirino), de 13 anos, e Serino (Bernardo Lucino), 15, não aparecem com celular, computador ou videogames. Eles jogam bola e vão de bicicleta à escola. Moram apenas com o pai, porque a mãe evaporou – literalmente, como fica claro mais tarde.

Os meninos têm comportamentos opostos: o mais velho é seco e por isso chora lágrimas de pedra, enquanto o caçula transborda de emoção e chega a se derreter de amor.

A rotina é movimentada com a chegada de Sofia (Anna Luiza Marques), garota que está de passagem pela cidadezinha com o circo, e torna-se o primeiro amor de Kelton. Com sua mecha azul no cabelo e roupa com um ar mais contemporâneo, ela é uma estrangeira no lugar.

Entre os personagens, destaque também para o médico charlatão interpretado por Gero Camilo, que numa das cenas mais divertidas cuida de pacientes que tiveram suas tatuagens entrando corpo adentro ou dizem ouvir o que objetos de madeira falam.

Altamente simbólico, o filme integra seus elementos mágicos com naturalidade à trama, como se fosse algo corriqueiro, mais ou menos no estilo que o francês Michel Gondry faz em seus trabalhos.

Para isso funcionar, o diretor Alan Minas, estreando em longas de ficção, conta com o apoio fundamental da direção de arte de Oswaldo Eduadro Lioi e da fotografia de Guga Millet, que adicionam colorido à paisagem de estradas de terra e vegetação seca típicas do interior do Brasil.

Feito com orçamento reduzido e muita imaginação, além de um carinho visível em cada frame, A Família Dionti revela-se uma doce opção para quem quiser arejar a cabeça da vida duramente real que o cinema costuma apresentar, sem que isso signifique abrir mão de uma aspiração artística.

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Nossa Opinião

8.0
Altamente simbólico, o filme integra seus elementos mágicos com naturalidade à trama, como se fosse algo corriqueiro, mais ou menos no estilo que o francês Michel Gondry faz em seus trabalhos
Nota 8.0