O menino Ênio caminha angustiado por uma chuva torrencial, numa noite onde tudo deu errado e o mundo parece prestes a desabar em sua cabeça. Poucas vezes o cinema nacional produziu uma imagem que captasse tanto o sentimento do que é ser adolescente do que no clímax de Ponto Zero.

O primeiro longa do diretor José Pedro Goulart é forte em simbolismos e poesia, e por isso mesmo é preciso estar aberto à uma linguagem pouco convencional para absorver a viagem. Ruídos e trilha sonora têm tanto peso quanto as falas – e silêncios – dos personagens na história, que à princípio acompanha o cotidiano de Ênio (Sandro Aliprandini) em meio às brigas dos pais, o desconforto no colégio e a expectativa pela primeira relação sexual.

Na primeira metade, tudo é apresentado numa linguagem cinematográfica próxima ao convencional. Depois, a sensação é de entrar num pesadelo junto com o protagonista, em que todas as neuroses vêm à tona num labirinto de encontros, em que uma cena encaixa na outra muito mais de forma sensorial do que obedecendo a alguma curva narrativa clássica.

30 anos atrás, Goulart dirigiu o curta premiado em Gravado, Havana e Huelva O Dia Em Que Dorival Encarou a Guarda, ao lado de Jorge Furtado, seu parceiro na Casa de Cinema de Porto Alegre.

Nestas três décadas, filmou outras curtas e publicidade. Aproveitou para acumular o que chama de “hora câmera”. “Esperei o meu tempo de maturação, me sinto mais seguro para um voo longo”, disse, em entrevista ao TelaTela, via e-mail.

De tão seguro, propôs ao elenco, cujo ator mais conhecido do público geral é Eucir de Souza (da série FDP, da HBO), embarcar no projeto sem que eles tivessem acesso ao roteiro. Tudo era construído enquanto a câmera rodava, o que deixa as atuações naturalistas num interessante contraste com o surrealismo de algumas imagens.

Sobre este processo, a importância do adolescente na sociedade de hoje e sua primeira experiência com longa-metragem, José Pedro Goulart falou ao TelaTela:

TelaTela – De onde veio a ideia para fazer Ponto Zero e tratar da adolescência de uma forma tão incomum no cinema brasileiro?

José Pedro Goulart – Acho que apesar da adolescência ter questões que são comuns a quase todo mundo – o medo, o conflito, a solidão -, cada um se sente num universo muito particular nesse momento. A infância ainda ecoa com uma boa dose de ingenuidade, mas os enigmas estão à espreita, como se fossem armadilhas as quais não temos a menor ideia como vamos escapar. Precisamos de amparo, talvez, mas como? Justo agora que temos que nos desconectar da nave?

O filme tem uma primeira metade mais próxima uma narrativa linear, mas depois entra numa atmosfera quase de sonho (ou pesadelo) do protagonista, em que todas suas angústias eclodem. Quais aspectos deste tema, a adolescência, te remetem a este tom mais poético?

Creio que o a segunda parte é ativação de tudo que estava contido na primeira. Como se fosse o big bang daquele garoto. E tudo que estava preso era ambíguo entre sonho/desejo, medo/pesadelo – embalado por uma certa poesia triste, mas profunda – encharcado por uma chuva apocalíptica. E tem o sangue – que seria bom se pudesse ser limpado, que esse sangue sumisse. Mas talvez isso não seja mais possível.

Os adolescentes hoje vêm retomando um protagonismo na sociedade, com muitos se engajando em discussões sociais, como as ocupações de colégios públicos em São Paulo. Como você vê o papel do adolescente num momento conturbado do Brasil atual, em que ele se vê envolvido em questões tão importantes, além das naturais e biológicas típicas do período?

Recentemente uma garota de 15 anos, Ana Paula, estudante em SP, participante do Movimento dos Secundaristas, falou o seguinte durante o debate Folha (onde houve uma sessão de pré-estreia do filme): “Nunca um filme tinha mostrado como a gente se sente de verdade, como o Ponto Zero”, Disse isso e foi às lágrimas. E eu também, lógico.

Porque essa não é uma coisa que se espera ouvir, mas quando se ouve faz muito sentido. De maneira que vejo que este é um momento profícuo para o tipo de discussão que o filme promove; digo mais, necessário. A juventude engajada precisa da arte para coexistir, a arte precisa da juventude engajada para existir

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Os atores não receberam o roteiro previamente e isso de fato dá ao filme um caráter mais naturalista, principalmente nos diálogos. Como foi essa abordagem com eles?

Essa foi uma proposta que fiz e eles toparam. Eu sabia do risco, porque simplesmente fomos para filmagem sem ensaio. Se desse errado, daria errado com a produção aberta, ou seja, sem volta. Claro que houve antes um aprofundamento na conversa, no sentido de entendermos quem era cada um.

Uma vez no set, a técnica deles estava à serviço de algo muito complexo que era a de reagir como personagem. Isso é algo bem difícil. Por mais que algo fosse surpresa (um tapa, um beijo) eles não poderiam se descuidar . A única forma de isso ser feito é que eles fossemos personagens o tempo inteiro – e isso foi tão intenso que eles não saiam disso nem quando a câmera desligava.

O protagonista, Sandro Aliprandini, tem muitas cenas intensas. Como foi o processo de preparação com ele?

O que disse acima valeu ainda mais para o Sandro. Obedeci à risca o plano e enxerguei nele a capacidade de enfrentar aquilo daquele jeito. Evitava chamá-lo pelo nome, somente pelo do personagem. Aliás, falei bem pouco com ele. Não era necessário, nem desejável.

Quando ele descobriu o Ênio, passou a agir como Ênio, alguém, como ele disse depois, completamente diferente de quem ele era. A partir disso, o roteiro é quem dirigia, como uma partitura musical dirige um solista numa orquestra – eu estava ali apenas para conduzir, incentivar ou conter: o personagem tinha vida própria.

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Apesar de este ser seu primeiro longa, você já tem uma carreira como cofundador da Casa de Cinema de Porto Alegre, curtas-metragens premiados, publicidade. O que em ‘Ponto Zero’ lhe atraiu para assumir este novo desafio, e por quê neste momento?

Não fiz uma carreira pensada a partir de uma estratégia. As coisas aconteceram e acontecem conforme as circunstâncias. Aproveitei a publicidade, os curtas, para ter uma aproximação e um domínio maior da técnica, daquilo que chamo de hora câmera. Esperei o meu tempo de maturação, me sinto mais seguro para um voo longo.

À propósito disso, e juntando à pergunta sobre o que me atraiu nesse desafio, lembro que escrevi e concluí o seguinte:

Tempo. Um realizador preocupa-se sempre com isso. Em um filme ele tem o poder de controlar o tempo, distendendo ou encurtando a ação. Ou seja, ludibria o espectador, que vê algo codificado de um jeito diferente da realidade, mas se relaciona com o que vê como se fosse real. É um jogo. No jogo que proponho nesse filme há uma teia, e há um menino preso a ela como fosse um inseto. E há o imprevisível, o fantástico e o aleatório. Então o meu jogo paralisa o tempo – em um ponto zero -, para dar a chance, talvez, de o menino escapar. Ou não.

Nós, em algum lugar do coração, um menino; ou, nós, em algum lugar do coração, um inseto.

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