Quando, em 1948, um certo Antonio Ruiz viajava pelas belas, mas rigorosas, paisagens do sul do Chile, mudando de fazenda em fazenda, percorrendo os Andes a cavalo, ninguém sabia sua verdadeira identidade e muito menos que, em sua jornada, escreveu versos que entraram para a história, como “só com uma ardente paciência conquistaremos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.”

Mas naquele ano, que marcou a entrada para a clandestinidade do poeta e também senador, por conta de suas duras críticas ao governo do presidente González Videla, chamar-se Pablo Neruda havia se tornado muito perigoso.

E então, ele, que na verdade nasceu Eliécer Neftalí Reyes Basoalto e havia adotado o sobrenome Neruda em homenagem ao escritor checo Jan Neruda, passou a se chamar Antonio Ruiz. São muitos nomes para um homem único, um dos maiores poetas da América Latina, que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e que, em seu discurso de agradecimento, fez questão de lembrar justamente desse período tão importante, mas pouco conhecido de sua história.

É esta trajetória que Neruda, o filme, dirigido por Manoel Basoalto, revela. O longa, em cartaz no Brasil, marca também os 111 anos de nascimento do poeta, celebrados em 12 de julho. Com narrativa clássica, mas contundente, o diretor chileno realizou um filme para o grande público, sem perder de vista seu compromisso com a história e com a obra do poeta.

Ao retratar a jornada de Neruda para fugir do país que o elegera senador no mesmo ano em que ele também se tornara um inimigo da república, Basoalto retrata também um momento crucial do Chile e da América Latina, em que se desenhavam as condições que levariam o país e o continente à era das ditaduras militares.

Isso porque o presidente Videla, cuja propaganda de campanha havia sido coordenada pelo próprio Neruda, alinhou-se ao eixo liderado pelos Estados Unidos em pleno início de Guerra Fria, cassou diversas liberdades, como o direito dos cidadãos a participar de reuniões de sindicatos, e promulgou a Lei de Defesa da Democracia, também chamada de Lei Maldita, que excluiu os comunistas da vida política chilena, e criou a prisão de Pisagua, o primeiro dos campos de detenção de presos políticos do país.

Neruda foi crítico ferrenho do presidente que ele mesmo ajudara a eleger e pagou caro por isso. Teve sua prisão decretada, passou a ser procurado e teve de viver na clandestinidade até conseguir fugir do Chile para a Argentina, atravessando a cordilheira andina a galope. Para quem sabe da história do poeta retratada em ‘O Carteiro e o Poeta’, que revela já o autor em seu exílio na Europa, ‘Neruda‘ é mais que indicado.

“Neruda sempre foi um personagem incrível. Sua vida renderia vários filmes. Fiz uma série de documentários, que se chamou ‘Neruda, Diário de um Fugitivo‘, para a TV estatal chilena. Mas sempre tinha a sensação de que devia fazer algo maior. E então, quando estudei mais esta fase em que ele foi perseguido, decidi que faria uma ficção sobre esta história”, conta o diretor ao TelaTela.

Para ele, ‘Neruda‘ não é um filme político, mas sim sobre a força da palavra. E sobre como ao se distanciar da literatura e da obra de grandes nomes, as novas gerações da América Latina também se distanciam dos grandes ideais. “A poesia no Chile antes era como um esporte nacional. Temos dois prêmios Nobel de literatura e uma grande tradição na leitura. Minha família também sempre incentivou muito que lêssemos poesia”, comenta Basoalto.

“Como dizia Neruda, a poesia, a obra de um artista, não pode se distanciar da realidade do povo. Muito por isso, ele passou por fases da poesia amorosa, a poesia da natureza e a poesia social. Todas têm a ver com o que ele estava vivendo. Muito de sua força está nisso”, continua o diretor.

“Depois do golpe militar de 1973, os livros de Neruda foram proibidos pelo governo de Pinochet. Não se encontrava para comprar. E ele passou a ser um poeta proscrito. Mas os jovens sempre encontraram forma de encontrar sua obra e de lê-lo. A proibição acabou tornando-o mais forte ainda. Um ponto de resistência.”

Basoalto acredita que, assim como em toda a América Latina, o Chile de hoje está passando por um momento de muita desconfiança das lideranças políticas. “Mas já passamos por tantas crises e vamos superá-la. Vamos chegar a uma fórmula, a um sistema de controle do dinheiro dos partidos políticos, à prisão e punição dos corruptos e a um maior equilíbrio nas democracias locais”, aposta ele.

Sobre ‘Neruda‘, política, os desafios de realizar a primeira ficção chilena sobre o poeta e, claro, poesia, Basoalto, de passagem pelo Brasil para lançar o longa, falou ao TelaTela.

O ator José Secall como Pablo Neruda
O ator José Secall como Pablo Neruda

TelaTela – Por que decidiu filmar justamente essa fase da vida de Neruda?

Manuel Basoalto – Porque ela foi crucial para a vida e a obra dele. E porque é pouco conhecida até de seus maiores fãs. As pessoas sabem que Neruda viveu na Itália por conta do filme ‘O Carteiro e o Poeta(Michael Radford adaptou da obra do também chileno Antonio Skármeta, em 1994), mas meu filme fala exatamente da fase anterior.

Aliás, até no Chile esta história não é muito sabida. Acham que só o governo de Pinochet perseguiu as pessoas, mas durante o período de Presidente González Videla, na década de 50, também houve muitas perseguições, prisões e censura. O que acontece é que as pessoas passaram praticamente 20 anos sem ler o que Neruda escrevia.

E no Brasil? Sentiu que o público conhece bem a história de Neruda e do Chile?

Aqui no Brasil as pessoas também não sabiam desta história e gostaram do filme muito por isso. Elas até se lembram do discurso que ele fez quando ganhou o Prêmio Nobel, mas o que ficou para elas é uma imagem mais poética do que um discurso político. Mas esta foi um fato real. E acredito que na América Latina a gente conhece muito pouco de nossos grandes personagens e da nossa história. Estou muito feliz de mostrar o filme aqui. Ele tinha um carinho imenso pelo Brasil. Aqui tinha amigos que lutaram com ele pela causa de uma América Latina mais justa, foi muito amigo de Thiago de Mello, Vinícius de Moraes, de Jorge Amado, Oscar Niemeyer.

Acho que Neruda representa uma geração que acreditou muito na utopia, no sonho de construir uma América Latina diferente. Infelizmente hoje vivemos tempos em que ninguém acredita em ninguém e em nada, nem nos partidos, nem nos governos.
Como foi a recepção no Chile do filme?

Tinha gente que me perguntava porque eu fiz este filme sobre um acontecimento político com Neruda se ele era o poeta do amor. Outras perguntam porque escolhi um tema tão duro. Outras questionam porque eu quis tratar destes temas em um momento em que o país se ocupa de outras coisas. Houve até uma pessoa que mandou uma carta para um grande jornal chileno dizendo que o filme tratava de uma mentira e que Neruda nunca foi perseguido. E eu tive de mostrar os jornais da época que tinham anúncios de ‘Procura-se Neruda’, oferecendo até mesmo recompensas.

Você já havia realizado documentários sobre Neruda. Por que agora uma ficção?

Os gêneros não deviam ser importantes, mas sim se são bons filmes ou não. Os documentários não são gênero menor. Um documentário pode ser tão maravilhoso quanto uma ficção.

A gente pode fazer muitos filmes, que podem ser entretenimento puro, que você sai do cinema e que nunca mais se lembra. E há filmes que são muito herméticos, que nunca vão ser vistas pelo grande público. Mas acredito que também há o cinema que pode contribuir para a memória histórica, que vão fazê-las questionar e conhecer um pouco mais da nossa história.

Mas arrisco a dizer que ‘Neruda‘ transita entre o ‘filme de público’ e ‘filme de arte’.

Sim. Não é entretenimento puro e nem filme de arte. Um crítico chileno disse que era um filme para as massas. Não sei se é para o grande público, pois não o concebi assim. Foi tudo muito natural e pouco a pouco o filme se tornou conhecido do grande público. Não só no Chile, mas também na Espanha, México e até na China. E agora no Brasil. As pessoas pouco a pouco estão entendo que não é uma história que diz respeito só aos chilenos, mas que traz temas universais, arquetípicos, como a luta pela liberdade.

Exatamente. Não só no Chile, mas em toda a América Latina se enfrentou o tema da luta pela liberdade política, de expressão, se enfrentaram ditaduras.

Sim. Acho que Neruda representa uma geração que acreditou muito na utopia, no sonho de construir uma América Latina diferente. Infelizmente hoje vivemos tempos em que ninguém acredita em ninguém e em nada, nem nos partidos, nem nos governos. Mas naquela época havia uma geração que trabalhava muito, que era muito consciente sobre o que fazia e o que pensava. E que acreditava que a arte tinha uma consequência na sociedade, que era um instrumento de mudança social.

Neste sentido, é muito bonita a forma como você situa os poemas de Neruda ao longo do filme, revelando o quanto eles fazem parte de seu cotidiano, pois um poema não nasce do vazio, mas da própria vida do poeta.

Exato. Era isso que eu queria, que as pessoas entendessem que um poeta não vive em um castelo de cristal, fora do mundo, como um ser iluminado que concebe sua obra. A poesia de Neruda tem a ver com sua infância, que se passou em uma área muito dura do Chile, no sul, que tem belíssimas montanhas, rios e lagos, mas que são rigorosos e podem matar em uma inundação, uma nevasca. E ele cresceu neste ambiente. E tudo isso está em sua literatura. Se fala muito de sua poesia telúrica, em que a natureza está muito presente.

Sua relação com a natureza é linda porque é de encanto e também de medo. E isso está presente no filme, pois você filmou nas locações reais em que ele passou quando fugia do Chile para a Argentina. Como foi isso?

Foi assim, de encanto e medo também. No Chile temos uma natureza que é bela e extrema. Nas próprias filmagens nós passamos por muitas situações que nos colocaram à prova. Foram muitos os desafios. Por exemplo, a rota que Neruda fez para fugir do país até hoje é perigosa, pois é também uma rota de contrabandistas, além das condições climáticas serem imprevisíveis. A gente filmou no verão e mesmo assim houve um dia em que o tempo fechou e caiu uma nevasca. A neve pode cair a qualquer momento. Nosso protagonista quase caiu mesmo do barranco em uma das cenas com o cavalo.

Cena de 'Neruda': filme mostra lado político do poeta chileno
Cena de ‘Neruda’: filme mostra lado político do poeta chileno

Há cenas filmadas em locais onde Neruda realmente passou?

Sim. Em Valparaíso, por exemplo, a casa em que ele se esconde no filme é a casa real, em que ele se refugiou. Conseguimos encontrar esta locação, que não era muito conhecida, mas depois do filme ficou famosa. O dono da casa a abriu para visitas e agora recebe um monte de turistas. No sul do país também há vários povoados por onde ele passou que agora começam a ficar conhecidos.

A influência da realidade sobre a obra de Neruda está muito presente no filme. Como foi a escolha de intercalar suas leituras com a ação do filme?

Foi a única maneira de mostrar esta relação entre sua vida e sua poesia. Sua obra se divide entre a poesia amorosa, que ele escreveu muito quando jovem, a poesia da natureza e a poesia social. E alguns críticos, quando ele passou a escrever de forma diferente, quando já não escrevia tanto seus poemas de amor, diziam que ela já não era mais poeta porque escrive de forma política. Diziam que não era poesia pura, mas sim um panfleto.

O que não é verdade, pois o que ele produziu nesta fase foi muito contundente.

Sim. Mas o que acontece é que Neruda viveu na Espanha e vivenciou a Guerra Civil Espanhola e perdeu o amigo Federico Garcia Lorca no conflito, além de outros. Isso o marcou profundamente. Ele era amigo de Pablo Picasso, Diego Rivera, de tantos outros intelectuais, que estava vivendo o conflito. Picasso, por exemplo, quando pinta Guernica, ninguém disse que a obra não tinha valor como pintura porque era um panfleto. É muito simbólico que ‘Canto Geral‘, um dos livros mais importantes do poeta, tenha sido escrito em uma situação de perseguição e clandestinidade. Nem por isso ele deixou de escrever com muita beleza, sobre a natureza, o povo e a natureza latino-americana. Esse livro tem tudo sobre sua jornada pelo continente.

A Guerra também foi um divisor de águas em sua vida e sua obra, não?

Sim. Após a Guerra, Neruda, do ponto de vista da poesia, sai do existencialismo, do quase surrealismo, para entrar em uma dinâmica de uma poesia muito mais comprometida com seu tempo. Ele, na volta da Espanha, decide, em 1946, se torna candidato a senador, porque diz que entendeu a realidade profunda da América Latina, desde a conquista dos europeus, foi muito injusta para os povos ancestrais americanos. E aí ele encontrou uma voz para contar a América Latina. Quando ele se elege senador, por Antofagasta, um dos lugares mais duros para se viver no Chile, não é porque fazia discursos políticos, mas porque lia poemas do alto do carro da campanha.

Sua palavra tinha muita força. Era poeta e comunicador, não?

Era sim. E este é um filme sobre o poder da palavra. Nessa fase, ele assumiu muito o compromisso de apoiar a Frente Popular, que elegeu Videla. Ele foi nomeado chefe de propaganda de Videla porque sabiam que todo mundo o ouvi. Mas o presidente foi pressionado pelos Estados Unidos, porque se estava no início da caça às bruxas do Macartismo, no início da Guerra Fria.

E todos os partidos de esquerda passaram a estar fora da lei. Em 1947, surgiu o primeiro campo de prisioneiros, em Pisagua, para onde Videla começa a mandar muita gente, incluindo amigos de Neruda. E ele não pôde ficar indiferente a isso. E passou a usar sua melhor arma, a palavra, para lutar pela liberdade.

Sente que a trajetória de seu filme, que começa como um projeto muito pessoal, e ganha o interesse do público, seja também sintoma da atual situação do cinema latino?

Sim. Tudo está ligado. Por exemplo, hoje os políticos são políticos profissionais, pensam mais em sua carreira e no dinheiro. É tudo mais marketing. E isso se sente também no cinema. Meu filme, por exemplo, é um filme que sai da linha geral de filmes produzidos hoje no Chile. É um longa de época, o que em geral encarece os custos.

Os produtores me diziam para escalar um ator famoso internacionalmente, para que atraísse público. Esse era um conflito porque eu queria fazer um filme muito chileno. Fellini, por exemplo, quando filmava, chegava nos lugares e escalava muitos não-atores, gente do povo mesmo. E isso se imprime na tela. Gosto desta mescla. José Secall, o ator que faz Neruda, por exemplo, conheceu bem o poeta. E é um ator que incorporou a figura de Neruda perfeitamente. Da forma física aos trejeitos, ao olhar, tudo é tão parecido entre eles. Sempre soube que este filme não seria um blockbuster, mas sim uma história muito verdadeira sobre o espaço íntimo e uma jornada única de um artista.

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