Quando a produtora Sara Silveira (da Dezenove Som e Imagens) sugeriu a Anna Muylaert de levar seu novo filme, Mãe Só Há Uma, ao Festival de Berlim 2016, a diretora pensou duas vezes. Não exatamente por não gostar da ideia, mas sim porque Anna, que recebeu o prêmio do público da Berlinale em 2015 por Que Horas Ela Volta?, pensou na expectativa que poderia haver sobre seu próximo trabalho. Talvez o público que aplaudiu e premiou Que Horas? pudesse se decepcionar diante de um novo longa tão diferente do anterior.

Mas Anna acabou por concordar com Sara e enviou Mãe Só Há Uma (Don’t Call me Son, em inglês) a Berlim. O filme agradou à comissão de seleção e integra a mostra Panorama do festival este ano. E a decisão não poderia ter sido mais acertada. O longa estrelado por Naomi Nero, Matheus Nachtergaele e Dani Nefussi não só foi bem recebido pelo público como comoveu as plateias que lotaram as sessões na Berlinale.

Pela forma ousada, intimista e ao mesmo tempo universal como Anna filma, e conta, a história de um adolescente de classe média baixa que, ao descobrir que foi roubado de sua família biológica (esta de classe média alta) também está passando por uma fase em que está descobrindo sua sexualidade, o longa recebeu na sexta o prêmio de Melhor filme Queer pelo júri especial da revista alemã Männer, em cerimônia de premiação e entrega dos troféus Teddy Bear, o prêmio queer, para filmes que tratam das questões ligadas à diversidade sexual, mais importante do circuito de cinema internacional.

“Quando a Sara sugeriu de trazer o filme para Berlim, eu pensei ‘não. Eu venci ano passado e agora eu vou perder e vou me sentir deprimida’”, brincou a diretora na apresentação de Mãe Só Há Uma na Berlinale nesta semana. “Mas então eu cheguei a um ponto em que disse para mim: ‘eu não sou um jogador de futebol. Eu não preciso vencer. Eu só preciso ir até lá. Eu sou uma artista, eu amo a Berlinale, amo o público de lá, amo meus amigos que estarão lá. E eu não tenho de fazer gols. Eu faço flores.’”, continuou ela.

“Então, esta é minha nova flor, é uma filme sobre uma história famosa que aconteceu no Brasil (o sequestro do garoto Pedrinho). Não é sobre se sentir bem, mas sobre ser autêntico. Esta é uma flor autêntica”, completou a cineasta, que escalou a diretora de fotografia uruguaia Bárbara Alvarez (a mesma de Que Horas? e Whisky) para filmar com câmera na mão e um sentido de urgência de quem testemunha de fato uma história real a saga de Pierre/Felipe.

A câmera que acompanha de perto todos os passos de Pierre/Felipe está em concordância com o estado emocional do garoto, pois se trata de um momento único, em que ele descobre sua sexualidade, sua identidade de gênero e sua orientação sexual. E se na antiga família ele podia pintar as unhas à vontade, na nova, e mais antiquada, família, o fato causa espanto. Mais espanto ainda causa sua maquiagem e sua forma de se vestir, além de não se importar nada com times de futebol, e de fluir entre as definições de gênero.

A atriz Dani Nefussi interpreta as duas mães de Pierre/Felipe (Naomi Nero), a biológica e a que o sequestrou ainda bebê
A atriz Dani Nefussi interpreta as duas mães de Pierre/Felipe (Naomi Nero), a biológica e a que o sequestrou ainda bebê

 

Um detalhe curioso é que Anna engenhosamente, e simbolicamente, escalou a mesma atriz (Dani Nefussi) para viver as duas mães do adolescente. “Mas é louco como ninguém repara. Isso porque ela, e o Matheus também, estão incríveis no filme. Além do Naomi, claro”, comentou a diretora.

“Hoje um cara escreveu que o Pierre é primo da Jéssica. De fato são dois personagens que desestabilizam o status quo. “Exatamente. Ela de um jeito. Ele de outro”, comentou Anna ao TelaTela.

O longa, que tem sua última sessão no festival no sábado (20 de fevereiro), foi realizado com recursos do edital público de baixo orçamento e já foi vendido somente na Berlinale para dez países. “Este filme tem um terço do orçamento do Que Horas?, cerca de R$ 1,5 milhão, e é mais experimental, mais ousado. Não foi feito sobre o sucesso e nem é uma continuação de Que Horas?. Quem esperava uma continuação iria se decepcionar. Mas nunca fui para um festival com a expectativa de vencer, mas sim de participar.”

Sobre Mãe Só Há Uma, a expectativa e a recepção do longa na Berlinale, Anna falou ao TelaTela:

Você comentou que a expectativa sobre a recepção de Mãe Só Há Uma na Berlinale seria uma surpresa, afinal, foi premiada há um ano com Que Horas Ela Volta?, um filme que tem outro estilo e tema muito diferentes do seu novo longa. Como sente agora a forma com que o público recebeu a história de Pierre/Felipe?

Muito bem! Eu estava nervosa, com uma mega expectativa. Cheguei no cinema no primeiro dia e havia uma fila imensa, as pessoas me reconheciam e chamavam. Eu jamais esperaria isso, apresentando um filme completamente diferente do Que Horas?, que é um filme que a gente pode chamar de ‘certinho’, que de A a Z conta uma história completa. Já Mãe Só Há Uma é uma história mais quebrada. Ele é imperfeito do ponto de visto da narrativa, mais ousado. Então, eu estava apavorada.

E quem adorou a forma mais perfeita de recebeu bem Mãe Só Há Uma?

Sim. As reações foram variadas. Houve quem, que havia gostado tanto do aspecto ‘perfeito’ de Que Horas?, se surpreendeu mais com Mãe. Já quem valoriza justamente este aspecto mais ousado adorou o filme. Houve quem tremesse na sessão. Foi uma grande surpresa pra mim. Depois da primeira exibição, fiquei mais tranquila sobre a expectativa, tanto minha quanto a do público. E ainda ganhamos um prêmio! 

O ator Naomi Nero, a diretora Anna Muylaert e a atriz Dani Nefussi no Festival de Berlim 2016
O ator Naomi Nero, a diretora Anna Muylaert e a atriz Dani Nefussi no Festival de Berlim 2016

No Brasil, o público mais cinéfilo já conhecia sua filmografia e o grande público descobriu seu cinema com Que Horas? Sente o mesmo sobre o público europeu?

De certa forma sim. Mas no Brasil as pessoas conhecem mais meu trabalho em geral. Mãe Só Há Uma é um filme tão honesto e sincero quanto o Que Horas? Alguém me disse que eu, de certa forma, mantenho o mesmo tema mas faço filmes com estilos completamente diferentes. Na verdade, meus filmes anteriores têm muitas semelhanças. Este novo é que é um filme completamente diferente.

No que ele é mais diferente?

No fato de ter uma fotografia diferente, filmado com câmera na mão o tempo todo. Há a temática sexual, tema que nunca havia tratado. Além disso, é um filme todo de adolescente. É também meio trágico, sobre a criança saindo da família que a ama incondicionalmente e entrando na realidade da adolescência, quando começam as restrições. É de certa forma um filme tenso, pesado.

O fato de Berlim ter selecionado o filme, um ano depois de você ter passado pela Berlinale não é obra do acaso.

Ah sim. Eles certamente gostaram do filme e valorizam isso. É uma história que revela algo que está oculta quando ele está na casa da mãe que o criou, e que o sequestrou. E quando ele é encontrado, 17 anos depois, pela família biológica, este aspecto de sua personalidade se revela. E surge da parte da família a sensação de ‘busquei todos estes anos pelo meu filho e agora que o encontrei ele usa vestido. O que fazer diante disso? Será que há um modo de evolução?’ O filme termina neste nó.

O Pierre/Felipe (Naomi Nero) é transexual, crossdresser, gay?

Acho que o filme está muito além de qualquer definição. Ele ainda é um moleque. O que há por trás disso nem ele mesmo sabe, se vai ser um transexual, se vai ser um queer. Está tudo no começo da vida dele. Sua pergunta tem muito a ver com o que eu também me perguntava no começo do projeto. ‘Ele vai ser isso ou vai ser aquilo?’ Mas na verdade esta geração atual é muito mais fluida. Eles não têm estas definições e nem querem ter.

Não é mais tão crucial a questão de ter de se definir para sempre como ‘sou gay ou não sou’.

Exatamente. Uma das atrizes do filme, por exemplo, dizia-se mulher e homem. Quando ela era mulher, ela usava vestido e quando era homem, calça. Esta história passeia pelo transgênero, mas é também sobre como a nova geração não está mais se rotulando. Muita gente que lia o roteiro me perguntava: ‘E aí, ele é gay ou não é?’ E até se sentiam incomodados com a dúvida.

Pierre/Felipe (Naomi Nero) choca a 'nova' família ao transitar entre os gêneros, pintar as unhas e usar maquiagem
Pierre/Felipe (Naomi Nero) choca a ‘nova’ família ao transitar entre os gêneros, pintar as unhas e usar maquiagem

As gerações anteriores são muito mais categorizadas.

Isso! O filme é justamente sobre a descategorização desta galera jovem, de tudo que eles estão vivendo. O longa, portanto, não traz um final fechado, fica no ar. E é isso que incomoda, pois há algo que naturalmente a gente quer classificar.

Como surgiu a ideia de contar esta história?

Meus filhos cresceram e eu comecei a voltar para a noite. E comecei a ver isso, a conhecer novos amigos, mais jovens, nos últimos anos. Passei a ir em baladas em lugares que eu nem sabia que existiam e foi onde comecei a ver esta realidade, dos caras com barba e vestido, mas que saíam com mulher, por exemplo. Ou também com homens. E meninas que se beijavam sem que isso significasse que elas eram lésbicas. E como eu já estava com um filme sobre o universo jovem na mão, eu incorporei tudo isso.

Este filme nasce muito de sua observação deste universo.

Sim. Quando eu voltei para a noite, obviamente encontrei este cenário que não tem nada a ver com o que eu vivi na minha adolescência. E eu quis trazer isso, quis dar este tom provocativo ao filme. É difícil explicar, mas fui tendo contato com este universo e aprendi muito sobre este mundo da sexualidade mais fluida. Marcelo Caetano, meu assistente de direção, me ensinou muito sobre isso e me ajudou muito no roteiro. Há homens, por exemplo, que descobri que exercem sua feminilidade de uma forma única, que se vestem de mulher, mas que não são gays. É uma liberdade de sexualidade que eu não conhecia até há alguns anos. Eu classificava as pessoas e os passeios pelos gêneros como algo do mundo gay, mas que aprendi que não necessariamente. Nada é mais muito claro.

Tudo é fluido, como você mesmo já falou.

Sim. Esta ideia de ficar no fluido é o filme. E por isso é um filme louco, pois é um filme jovem, que tem a ver com meu retorno à noite. É uma história bem adolescente e, de certa forma, uma perturbação. É sobre o processo de individuação. Cada um é o que quiser ser.

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